Cotidiano

Em memórias, FH diz que montou ministério para atender a aliados

Redação DM

Publicado em 19 de outubro de 2015 às 23:16 | Atualizado há 11 anos

SÃO PAULO. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso revela, em “Diários da Presidência – volume 1, 1995-1996” (Companhia das Letras), uma tensa relação com o Congresso em seus dois primeiros anos de Presidência, que influenciou, por exemplo, a montagem de seu ministério. Na obra _ resultado de gravações feitas diariamente pelo próprio FH desde o dia de sua posse, em 1 de janeiro de 1995 _ não faltam críticas ao partido, ao PFL, ao PT e aos movimentos sociais. Mas são as dificuldades de lidar com o presidencialismo de coalizão que se destacam no pensamento de FH. Já no prefácio do livro, que será lançado no dia 29, FH faz comparações entre as dificuldades de seu período de governo e as atuais. As dificuldades, segundo ele, são, em geral, as mesmas. Fernando Henrique admite que, mesmo resistindo, o presidente não escapa do “intrincado jogo do poder”, muitas vezes “clientelístico”, que leva a um desgaste com os partidos por um motivo simples: enquanto o presidente é eleito por mais de 50% dos votos, seu partido, geralmente, beira 20% das cadeiras do Congresso e se vê obrigado a ceder às alianças.

A primeira pessoa que FH procurou para montar seu ministério foi seu colega de partido Tasso Jereissati. Depois, falou com sua equipe econômica, Sérgio Motta, José Serra e Eduardo Jorge Caldas Pereira, ainda sem oferecer cargos a eles.

Antes de ouvir o PSDB (Pimenta da Veiga, presidente do partido, estava nos Estados Unidos), procurou PFL e PTB, Antônio Carlos Magalhães e Luís Eduardo Magalhães. Acatou a indicação de Raimundo Britto (Minas e Energia), feita por ACM, e de Odacir Klein (Transportes), pelo PMDB. Também se preocupou em reunir ministros que viessem do Nordeste (procurou Ciro Gomes, que declinou) e de Minas Gerais, que negociou com Itamar Franco e Eduardo Azeredo.

FH reclamou, na época, de tanta especulação.

“A responsabilidade é minha, a decisão é minha, mas não vou fazer um ministério sem levar em consideração a realidade política. Com a experiência dos últimos anos sei que, se não existe base de apoio político, é muito difícil o governo fazer as modificações de que o Brasil necessita”.

FH rebateu notícias da imprensa, já no início do seu mandato, que falavam em loteamento ministerial.

“Não estou loteando nada. Estou simplesmente fazendo o que disse que faria: buscaria o apoio dos partidos políticos, das forças políticas da sociedade, e o faria para poder governar tendo em vista a competência técnica”, relatou.

A dificuldade de formar a equipe econômica para dar continuidade ao Plano Real permeou os primeiros meses de governo. Tasso sugeriu Serra para o Ministério da Fazenda e FH diz que receava colocar Serra na Fazenda porque isso “seria provocar um impasse porque praticamente todos haviam feito restrições ao Serra, não à sua competência, mas ao seu estilo”.

FH achava que Serra deveria ir para uma área social porque ele tinha “futuro político, eleitoral, diferentemente dos outros da equipe econômica, e não há de ser através da economia que vai granjear prestígio popular”.

Serra acabou ficando com a pasta do Planejamento, mas depois foi para a Saúde.

DIFICULDADE COM A BASE

Sobre a dificuldade com a base aliada, FH cita um caso, de 8 de março de 1996. O governo acabara de perder, na Câmara dos Deputados, a primeira votação da reforma da Previdência por 14 votos. Na avaliação de aliados do tucano, o PMDB foi um dos principais responsáveis. FHC cobra uma atuação firme do PSDB na Câmara dos Deputados, ameaçando tirar apoio político nas eleições municipais daquele ano e, até, cargos no governo.

“No Senado temos cinquenta votos seguros, o que dá dois terços. Eu tenho medo da Câmara e do PMDB, porque aí tem manobra. Tem manobra do Sarney, do Paes de Andrade, que está totalmente contra (…) essa coisa tão velho meu Deus, tão sem sentido. O país pronto para decolar e eu aqui perdendo tempo”, relata ele.

No mesmo dia, lembra FHC, um outro embate com o ex-presidente José Sarney, que na época comandava o Senado. Alguns dias antes, FHC descobre que Sarney e o senador Jader Barbalho (PMDB-PA) manobraram para criar a CPI dos Bancos, que investigaria irregularidades na compra do Banco Nacional. FHC diz que Sarney está querendo atacá-lo porque seria candidato à Presidência três anos depois, em 1998.

“Essa CPI (dos bancos) é realmente uma falta de juízo absoluto, e o presidente Sarney atuou de maneira inconsequente. (…) Foi uma manobra para abalar meu poder, para me limitar politicamente, me atingir indiretamente”.

Mais adiante, diz: “Estou perdendo muito tempo com o Congresso, com nhe-nhe-nhém, como eu digo”.

TEMER, LULA E MST

O livro traz diversas opiniões de FH sobre políticos, como o atual vice-presidente Michel Temer, na época líder do PMDB na Câmara dos Deputados. Candidato à presidência da Câmara, Temer foi classificado como “inseguro nas coisas” por FH, que preferia seu colega de partido, Aloysio Nunes.

A relação com PT sempre foi de oposição.

“”O PT é muito bom para governar município, comuna. Deixem que governem e aprendam, mas não vai haver crescimento do PT” – isso quando fala da eleição de 1996. Diz ainda que a “razão pela qual o Lula não constitui um polo de oposição viável é a falta de um projeto mas também porque o PT é um partido excludente. Ele não faz aliança”.

Ao conversar com Francisco Weffort, antes de convidá-lo para o ministério da Cultura, FH diz “Olha, Welfort, acho que seria muito importante nós mantermos uma relação muito fluída com o PT porque há problemas nacionais que nós temos que levar em conjunto”.

Os movimentos sociais que dariam muito trabalho a FH nos seus oito anos de governo também não escaparam às críticas.

Em 1995, numa discussão sobre o MST, FH classificou-o como “um movimento arcaico, é como se fosse Antônio Conselheiro outra vez. Mas em Sarandi eles juntaram 20 mil pessoas, ou seja, num momento de aflição na área rural, esse movimento pode dar trabalho”.

Trechos do livro publicados pela revista “Piauí” na semana passada mostraram ainda que

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(colaboraram Cleide Carvalho e Mariana Timóteo da Costa)

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