Cotidiano

Agricultor alimenta porcos com produção que está estragando

Redação DM

Publicado em 18 de outubro de 2015 às 06:08 | Atualizado há 11 anos

Os cortes nos programas sociais têm impacto direto na vida dos brasileiros que precisam do apoio do governo. De acordo com denúncia da Associação Nossa Senhora das Graças, de Caiuá (SP), o governo não renovou os contratos do Programa Aquisição de Alimentos (PAA) na região. O agricultor José Maurin, de 75 anos, resume em duas palavras a situação: “ficamos travados”. Maurin conta que continuou com os investimentos em sua terra, pois tinha a garantia de que seu contrato seria mantido. Comprou adubo, preparou a terra e plantou. Também chamou uma pessoa para ajudar no trabalho, pesado para tocar sozinho com a mulher de 75 anos.

— Estamos de pés e mãos atados — diz.

Maurin conta que não encontra alternativas para vender seu estoque de alimentos:

— Os mercados já têm o seu fornecedor e não podem mudar esse compromisso. Está estragando tudo, o feijão-de-corda, a couve. A gente dá para os porcos, mas mesmo assim estraga.

Doar fica mais difícil, já que os vizinhos também plantam e a quantidade é grande. Para o futuro, ele aguarda uma reviravolta que chama de “vendaval”:

— A gente continua preparando a terra. Esperando que dê um vendaval e fique tudo certo.

Na Saúde, o corte do cofinanciamento do Farmácia Popular afeta Ilca Sandra, de 46 anos. O benefício que recebe do INSS é pouco diante do valor dos remédios que precisa comprar. Só com os usados para problemas de coração e reumatismo, feitos em farmácias de manipulação, ela gasta entre R$ 400 e R$ 500. O desconto que consegue na rede conveniada do Farmácia Popular para outros remédios é um alívio diante do alto custo dos medicamentos manipulados. Hoje, Ilca consegue comprar o remédio para alergia por R$ 10, em vez de R$ 40. Medicações para colesterol e estômago também têm desconto:

— Vai ser muito ruim se o desconto acabar. Nem sempre tem esse remédio no posto de saúde. Às vezes, desisto de ir porque sei que não vou encontrar.

Já na área de habitação, a suspensão do Minha Casa Melhor afetou quem contava com o auxílio para mobiliar a tão sonhada casa própria.

— Até hoje eu não consegui terminar de mobiliar a minha casa. Não comprei a mesa e o armário de cozinha, por exemplo. Falta bastante coisa. Era um benefício que ia ajudar quem está se mudando para uma casa nova — diz Alex Rodrigues Moura, de 35 anos, morador de Penápolis, interior de São Paulo.

Para quem contava com o crédito, como ele, a saída foi comprar itens usados.

— Parte (dos móveis) eu comprei usada, como a geladeira e o fogão — afirma o funcionário público. — Não tenho mais esperança, não. Agora, conseguir financiamento vai ser mais difícil. Há vários outros empecilhos. Fico satisfeito de ter conseguido comprar o imóvel antes dessa crise — diz Alexandre, que assumiu o contrato no dia 2 de fevereiro.

Entre os prejudicados com os cortes está também Paulo Victor Costa, de 18 anos. O estudante cursa o segundo semestre de Publicidade na Faculdade do Norte, em Fortaleza. Os R$ 988 de mensalidade de seu curso estão além do que sua família pode pagar, mas Paulo Victor conseguiu uma bolsa de 50% do ProUni e outra do Fies. Resultado: faz o curso superior pagando R$ 23 por mês. Agora, porém, Paulo Victor está “desiludido”.

— No primeiro semestre do ano, os juros do Fies eram de 3,5% ao ano. Agora, subiram para 6,5% — afirma. — Quando nos inscrevemos no programa, informamos endereço, telefone de contato, e-mail. Mas na hora de elevar esses juros ninguém perguntou como isso nos afetaria.

Quando pediu financiamento, ele tinha um calendário, o chamado “mapa de pagamento”. Paulo Victor se formaria em dezembro de 2018 e começaria a pagar suas dívidas em julho de 2019.

— Com os juros na casa de 3,5%, eu demoraria oito anos para pagar tudo. Agora já refiz as contas e vou demorar o dobro. Não quito tudo antes de ter 32 anos.

O lado pior da história é que, antevendo dificuldades para pagar suas contas, Paulo Victor já desistiu de fazer três cursos que estavam em seu horizonte acadêmico:

— Ficaram para depois a informática, o inglês e o design gráfico.

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