Aquela casa
Redação DM
Publicado em 11 de outubro de 2015 às 23:00 | Atualizado há 11 anosQuem mora lá? Não vejo nenhum movimento. Mora alguém lá? Não vejo ninguém. Bati palmas à exaustão e não saíram à porta para me atender. Como se abre portas que estão abertas há décadas? Por que ninguém me convidou a entrar? Como? As portas estão fechadas. Não estão. Estão. Não diga isso, vá até a altura da ponte, conte até três e, voltando, olhe direito.
Fiz.
Vozes ecoando, cortando o ar, o mormaço, o sereno. Alaridos. Celeumas. Tudo vem de longe, do fundo de nós, orquestrar a impedância atual para os ouvidos que querem ouvir. Gente conversa. Gente discute. Gente se entende, ri. Gente se desentende, chora. Ao passar pela ponte, tome nota, aquela casa da esquina, que salta aos olhos, aquela casa é um mistério que merece nossa atenção. Em torno dela orbitam mais olhares, mais ouvidos, mais cheiros que pode uma casa comum. São as histórias que resistem aos dissabores da ação do inexorável tempo. Aquela casa não é uma casa qualquer. Tapera? Não, não, nunca foi, e portanto nunca diga isso. É uma casa que guarda memória. Entre, veja e sinta. Mas se faz necessário dizer, olhe além do que se mostra. Há de ter sentido extra para perceber isso. Vive gente lá, muita gente. Tenha ouvidos, tenha olhos além. Tire os óculos da realidade.
Aproximando, beirando o asfalto, parou frente a ela. No alto, acima de uma das compridas janelas, em relevo, o ano de sua construção: 1932. Ao tirar os olhos dos números, olhou para a rua, e viu que o asfalto cedera lugar a cascalhos. Sem pânico, alguém aconselhou. Subiu um degrau da entrada e parou. Estas paredes respiram. Estas paredes sentem. Estas paredes resistem. Encrostados nelas, sonhos, desejos, infância, senilidades, de tudo um pouco. Parece que vi, daqui de fora, uns quadros pendidos aqui, ali, acolá. Sim, são fotos, pinturas.
— Entre.
Os pés pediam para ir. Alguém apareceu no alpendrinho. Apoiado na coluna com uma das mãos, e a outra espalmada indicou o caminho para o interior. O olhar sereno e atencioso dava boas-vindas. Ainda ressabiado, entrou. Os olhos corriam espertos os cantos, descobrindo muitas feições, muitas antagônicas, de pessoas vestidas de modas de tempos diferentes. Aos milhares, gentes da cidade e da roça conversavam. Homens, mulheres e crianças.
Como pode caber tanta gente aqui? Coisas que a física não explica nem explicará. Lá de fora pareceu estar tudo velho, puído, caindo aos pedaços, aqui dentro o oposto. E conversam, gesticulam, festejam. Antes de chegar à porta dos fundos, um cheiro de pequi com frango avisava que o almoço estava no fogo. Nos fundos, passando pela cozinha, em roda, mais e mais pessoas. As histórias dos cafezais, dos arrozais, de tempos distantes se misturam a outras contemporâneas sobre comércios, lojas, industrialização, piscicultura, artesanato. Logo-logo já podia saber do caráter atemporal do encontro. As mãos calejadas de quem ergueu a cidade recebem honras tanto como as mentes de quem a projetou. Passeando pela casa, parei diante de um senhorzinho de barba e cabelos brancos, com um chapéu atolado na cabeça. Se não era o Bastião Doido. Só não ousei mexer com ele. Reconheci rapidamente. Além dele, outros tantos conhecidos estavam ali, à vontade, rindo. Diante de cada um, via que os seus olhos brilhavam, tantos como os meus.
— Eles são nós — disse uma voz do gramofone.
— Nós somos eles — completou uma outra voz do aparelho de mp3.
Saindo, percebi que a rua estava de novo pavimentada. A casa, olhando de fora, parecia também novamente vazia, silenciosa. As vigotas em cupins não suportariam mais o telhado por muito tempo. Quem vê daqui, não faz ideia do que se passa lá dentro. Essa é a casa da memória da cidade de Itauçu. Nela habitam todos. É o ponto de encontro, a praça, o chat dos homens e mulheres de vários tempos, louvando a cultura, aprendendo, ensinando e perpetuando os costumes e as tradições.
— Eles são nós.
— Nós somos eles.
Somos todos um, pensei comigo subindo a rua absorto, fingindo distração.
(Hailton Correa, agente prisional, escritor e graduado em Letras pela UEG de Inhumas – Contato: [email protected] – Colaboração: Rúbia Garcia. Foto: Jorge Belim)