Brasil

Tereré Jeré

Redação DM

Publicado em 11 de outubro de 2015 às 22:35 | Atualizado há 11 anos

A guampa (cuia) circula de mão em mão na abertura do Encontro de educadoras e educadores populares do Cone Sul e Brasil do Conselho de Educação Popular da América Latina e Caribe (CEAAL), na sede do SERPAJ (Serviço de Justiça e Paz), Assunção, Paraguai, setembro de 2015. A paraguaia Norma Duarte explica que o tereré é o símbolo da nação guarani e nunca se toma sozinho. Jeré é o tereré que circula. Jeré significa ‘ronda’, círculo em guarani. O tereré é o momento de repartir, de transmitir o que pensamos, onde estamos ‘peleando’. Quem o serve é a mão mais jovem. Nunca é tomado sozinho: “Más que um liquido rehidratante, el tereré es um elemento cultural de unión entre las personas para compartir unos minutos de charla sobre politica, fútbol, actividades familiales, académicas o laborales. El tereré es tan sagrado como la siesta”, segundo a promotora cultural Marlene Sosa.

O tereré é tomado frio – frio, mas não congelado, amargo mas saboroso -, diferente do mate argentino e uruguaio, que se toma quente, em poucos goles e pode ser tomado sozinho, e do chimarrão brasileiro, mais comprido, cuia maior e com mais erva, mais tomado em círculo, em ‘ronda’, mas também podendo também ser tomado sozinho. Surgiu em tempos de guerra quando não se podia acender fogueira para não delatar a posição dos combates.

O tereré circulava e cada educador/a presente dizia uma palavra-símbolo do Encontro em terras paraguaias e sul-americanas, significando o que lhe passava na alma. Esteban disse ‘gracias’. Blanca falou compartir. Camilo, com seu mate uruguaio, resistência. E assim as palavras foram se sucedendo num momento mágico de quem estava se encontrando em torno do tereré: ‘compartida’/identidade; conexão; mirar-se; empatia; sinceridade, que obriga a mirar-se, disse a argentina Rosi – ‘a mirada é mais subversiva que a palavra’-; comunidade, para o chileno Edgardo; solidariedade; vida; cadeia de vida; vivência para o brasileiro Folquito –‘aprender vivendo, continuar aprendendo. Não há educação sem amor’-.  Escolhi ‘utopia’, tão em falta nos tempos que correm.

O CEAAL, quando fundado com presença de Paulo Freire, era Conselho de Educação de Adultos da América Latina. Hoje está constituindo-se em Movimento de Educação Popular e Movimento de Educadores e Educadoras Populares da América Latina e Caribe. Busca fortalecer o sentido político da prática educativa, articulado à construção de um projeto emancipatório, contra hegemônico, entendido como processo permanente, de maneira a contribuir na construção do poder popular. O Encontro do Cone Sul e Brasil aconteceu em preparação à Assembleia Geral de CEAAL, que acontecerá em junho de 2016, em Guadalajara, no México, com o tema central POR JUSTIÇA SOCIAL, SOBERANIA, DEMOCRACIAS PARTICIPATIVAS, PAZ: MOVIMENTO DE EDUCADORAS E EDUCADORES POPULARES PARA O SÉCULO XXI.

Os problemas e desafios são muitos e variados, em geral comuns, expressos pelos representantes de cada país: Paraguai, Argentina, Chile, Brasil, Paraguai. O pensamento conservador, neofascista está presente e em crescimento em todos os países. Qual democracia se quer. A democracia é campo de disputa. Há governos progressistas neo ou sócio desenvolvimentistas. A conquista do desenvolvimento econômico à custa do desenvolvimento democrático e da participação cidadã. Que educação popular queremos e precisamos. Como trabalhar com os povos originários no território. A interculturalidade. Os processos emancipatórios e seus limites e fragilidades. A autonomia, os movimentos populares, o poder popular. Os meios de comunicação hegemônicos.  A urgência das reformas estruturais. A desigualdade social e econômica. A relação governos-sociedade e a participação popular.

A acumulação social acontecida em diferentes países da América Latina e Caribe nos últimos anos não necessariamente levou à consciência política. Uma coisa não leva necessariamente à outra, surgiu da boca, do pensamento e da análise de vários/as educadores/as. Além disso, militantes sociais e educadores/as populares vão para os governos e muitas vezes afastam-se dos movimentos, da formação da consciência crítica e do trabalho de base. As reformas estruturais não acontecem, porque as elites dominantes não permitem e o povo organizado não tem força suficiente para realizá-las.

O que fazer até chegar à Assembleia Geral de CEAAL no México em 2016? Falar com a juventude, organizar os estudantes, como por sinal estava acontecendo na Universidade Nacional do Paraguai, com uma paralisação de toda Universidade reivindicando a queda do Reitor. Articular-se com os movimentos sociais e organizações sociais dos países do Cone Sul e Brasil. Reafirmar a educação popular como um ato libertador, no qual o conhecimento é construção social permanente dos sujeitos. Construir uma pedagogia do diálogo que tem como ponto de partida a experiência e vivências dos atores sociais, transformando a vida e a sociedade. Lutar ao lado dos movimentos ambientalistas, dos povos e culturas originárias, dos movimentos pela paz, dos movimentos que reclamam terra, das mulheres, dos que lutam por direitos dos imigrantes contra o modelo neoliberal que agudiza a pobreza e a exclusão econômica e social, e por uma ética do cuidado da vida. E tantas outras urgências e compromissos a serem assumidos.

O tereré continua circulando. É tereré da vida, da amizade, do companheirismo, do novo homem, da nova mulher. É jeré.

“O tereré é tomado frio – frio, mas não congelado, amargo mas saboroso -, diferente do mate argentino e uruguaio, que se toma quente, em poucos goles e pode ser tomado sozinho, e do chimarrão brasileiro, mais comprido, cuia maior e com mais erva, mais tomado em círculo, em ‘ronda’, mas também podendo também ser tomado sozinho.”

 

(Selvino Heck, assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República)

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