Brasil

Preconceito contra psiquiatras

Redação DM

Publicado em 10 de outubro de 2015 às 22:43 | Atualizado há 11 anos

É … eu ainda sou um ser muito imperfeito mesmo… Tantos anos de estigma e preconceito como psiquiatra, como médico de hospital psiquiátrico, deveria aguentar calado a ofensa aí abaixo e ainda dar a outra face. Mas eu não aguento, me desculpem. Talvez na próxima reencarnação ( ou ainda na outra…).

O rapaz abaixo  tá me aburrinhando há mais de um mês, com todo tipo de perguntas sobre “funcionamento do cérebro”, “depressão dele que não melhora”, “remédio manipulado x genérico x remédio de marca”, “médico que não conversa com ele”, “diagnóstico que não bate”, “medicina “falha” ( “eu sou acostumado com ciências exatas”, etc ), testes bioquímicos para ver a genética dele para medicações, blábláblá. Eu respondo e tento ajudar com o maior respeito, compaixão, com a maior paciência. Vejam nosso último diálogo, pois ele está muito mal, só piorando, “sem solução”, “desesperado”, como ele mesmo diz, e eu, apenas como “amigo”, não posso fazer nada por ele como médico.

Eu digo : “Amigo, assim a distancia, sem ser seu médico, sem examiná-lo, sem diagnosticá-lo, etc, não há como eu ajudá lo. Eu trabalho no momento apenas como psiquiatra hospitalar ( hospital asmigo ) e o único modo que tenho para ajudar pacientes é hospitalizando-os, aí eu posso diagnostica-los e tratá-los convenientemente, dentro de minhas possibilidades. Só nestes casos eu posso emitir opiniões sobre diagnósticos, tratamentos e sobre o que está ocorrendo com os pacientes. Só assim é que posso ajuda-los como médico. Afora isto não há como, me desculpe, inclusive é antiético que eu opine ou interfira sobre condutas de colegas médicos, ainda mais sem você ser meu paciente. Abraço e muito boas melhoras pra você.

Ele responde : Caramba !! ser hospitalizado em clínica psiquiátrica ! – tenho muito medo e PRECONCEITO ( grifo meu ) . Tenho um puta receio ! A gente vê muita coisa na TV, vê o Governo falando de manicômios…

Eu digo : Amigo, Não há como ajuda-lo de outro modo, isto é o que eu posso fazer, não tenho como ficar orientando-o por internet sobre temas complexos assim. Nosso hospital não tem nada de “manicomial”, esta é a imagem que a mídia, o Governo, querem passar para você. Basta ver fotos e ambientes no hospitalasmigo.com. Quanto ao preconceito , sou psiquiatra e trabalho em hospital psiquiátrico ( e sem nenhuma vergonha, pois isto não é falha de caráter, sou doente psiquiátrico ) e, engraçado que, ao recorrer tanto a mim como você vem fazendo já há tanto tempo, com toda minha boa-vontade, você não demonstrou nenhum preconceito enquanto eu o estava “servindo” nas penumbras…. Talvez porque, como a Geni, você faça isto na “surdina” ? Sinto muito por ser vitima de seu preconceito , sinto muito por não poder ajudá-lo e , infelizmente, por não ser mais produtiva, dou por encerrado este tipo de contato entre nós. Obrigado, Boa Sorte

Ninguém quer ser taxado de “louco”, desequilibrado, com “problemas de caráter”, e isto impede que as pessoas vejam os problemas psiquiátricos como um problema médico como qualquer outro, que acomete um órgão doente como qualquer outro ( o cérebro em suas repercussões mentais, comportamentais ). Como o próprio paciente falou, o Governo e a mídia não ajudam muito a discriminação psiquiátrica. Como eu mesmo disse na resposta ao rapaz, sentimo-nos como “Genis”, ou seja, tendo de trabalhar duro nas penumbras, recebendo pouco, com muita responsabilidade, e além disto, como o Drácula, sem poder aparecer à luz do sol…

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra, artigos as terças, sextas, domingos)

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