FH recusou nomeação de Eduardo Cunha para Petrobras
Redação DM
Publicado em 5 de outubro de 2015 às 02:55 | Atualizado há 11 anosSÃO PAULO — Trechos do livro “Diários da Presidência”, escrito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e divulgados pela revista Piauí nesta segunda-feira, revelam episódios de sua experiência como chefe do Executivo. Entre os muitos registros de FH está a recusa do pedido feito pelo então deputado federal Francisco Dornelles, a pedido da bancada fluminense, para que Eduardo Cunha (PMDB), na época deputado federal e hoje presidente da Câmara dos Deputados, fosse nomeado diretor comercial da Petrobras. O relato é de 1996.
“Eles (deputados) querem nomear o Eduardo Cunha diretor comercial da Petrobras! Imagina! O Eduardo Cunha foi presidente da Telerj, nós o tiramos de lá no tempo de Itamar (Franco, ex-presidente da República) porque ele tinha trapalhadas, ele veio da época do Collor. Enfim, não cedemos à nomeação”.
Fernando Henrique fez todo os registros com um pequeno gravador, registrando com a própria voz, em fitas cassete, o cotidiano do poder entre 1995 e 2002. Parte desse material, cerca de 90 horas dispostas em 44 fitas, compõe o primeiro volume do livro, que será lançado no próximo dia 29, pela editora Companhia das Letras. A obra de FH terá quatro volumes e a publicação dos volumes deve se estender até meados de 2017. Os trechos publicados pela Revista Piauí na edição de Outubro compreendem o período entre novembro de 1995 a abril de 1996.
Na narrativa, Fernando Henrique detalha as negociações para incluir o extinto PPB (atual PP) de Francisco Dornelles, Paulo Maluf (SP) e Esperidião Amin (SC) no governo. “Parece que o PPB não aceita o Ministério da Reforma Agrária sem o Incra. Luiz Carlos (Santos, líder do governo na Câmara) sugeriu que ampliássemos a oferta e incluíssemos o Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo. Isso para mim é dolorido, por causa da Dorothea (Werneck, ministra), que é uma ministra de quem eu gosto, e ela tinha que ser avisada dessa manobra”, relata o ex-presidente, que conclui: “enfim, começo a sentir o travo amargo do poder, no seu aspecto mais podre de toma lá, dá cá”.
Esse não é o único exemplo de “toma lá, da cá” dada por Fernando Henrique. Em outra ocasião, em 28 de novembro de 1995, ele conta que a bancada do então PFL (atual DEM) tinha ido tomar café da manhã com ele. Durante a conversa, sugeriram que tinham demandas a tratar: “todos dizem que têm questões menores, que não querem tratar comigo, que eu designe quem tratará do assunto, e eles só querem umas nomeaçõezinhas, uns contratinhos, essas coisas, o beabá dessa política empobrecida.”
FH relata ainda a frequente disputa de poder entre ministros, muitos deles pertencentes ao “círculo íntimo” do então presidente. Sobre a questão de endividamento de estados, tratado pelo ministro da Fazenda Pedro Malan e pelo ministro do Planejamento José Serra, o ex-presidente gravou : “é uma coisa muito lenta, porque um fica paralisando o outro”.
Em meio ao desgaste do Caso Sivam, o primeiro grande escândalo da gestão, que derrubou um ministro sob acusações de corrupção e tráfico de influência no contrato de US$ 1,4 bilhão para a criação do Sistema de Vigilância da Amazônia, Fernando Henrique relata um encontro com Dom Paulo Evaristo Arns, em que o cardeal-arcebispo de São Paulo teria lhe dito que ele deveria parecer mais calmo e mais confiante em suas aparições televisivas. Em um momento de autocrítica, Fernando Henrique diz, em 2 de dezembro, em suas gravações: “talvez eu, sem me dar conta, com o cansaço de quase um ano de governo, tenha ficado um pouco mais intolerante nas apresentações públicas. Vamos ver. Se for assim, vou corrigir isso”.
CUNHA DIZ QUE NÃO SABIA DE PEDIDO PARA ASSUMIR PETROBRAS
No Twitter, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, disse nesta segunda-feira que se houve algum pedido para que assumisse a diretoria da Petrobras, no governo de FHC, não tinha ‘ conhecimento’.
Cunha afirma que se recorda apenas de um movimento de deputados para que assumisse a Telerj. Mesmo assim, justifica que “não queria trabalhar para o governo”
“Se houve algum movimento feito, foi sem meu conhecimento até porque não teria lógica pela experiência minha em telecomunicações”, escreveu no microblog.
Atual vice-governador do Rio, Francisco Dornelles afirmou nesta tarde que Fernando Henrique está equivocado, mas que afiança o nome de Eduardo Cunha para cargos da administração pública, desde que não sejam na Petrobras:
_ Não estou desmentindo o ex-presidente Fernando Henrique, que na minha opinião foi o melhor presidente do Brasil. Estou apenas fazendo uma correção. Não indiquei o deputado Eduardo Cunha para a Petrobras porque não tenho qualquer relação com a empresa. Discordo da política monopolista da Petrobras. Minha relação com ela é igual a da Inglaterra com a Argentina no caso das Ilhas Malvinas _ diz Dornelles, que elogia Cunha: _ Indicaria o deputado para qualquer cargo da administração pública, com restrição da Petrobras por discordar do modelo de adminstração da empresa.