Brasil

Luiz Gama: timoneiro do abolicionismo – parte I

Redação DM

Publicado em 25 de agosto de 2015 às 22:53 | Atualizado há 11 anos

Luiz Gonzaga Pinto da Gama, famoso “Luiz Gama”, de etnia negra, nasceu em 21 de junho de 1830, em Salvador, Capital da Bahia. E filho de mãe negra livre e pai branco. Feito escravo aos 10 anos, permanece analfabeto até os 17 anos. Uma das fontes de que faço uso (www.wikpédia.com.br), informa  que conquistou judicialmente a própria liberdade, assunto ainda exigindo estudo aprofundado, passando a atuar na advocacia como incrível e destacado rábula, notável tribuno, jornalista, maçom, funcionário público,  escritor brasileiro, tornou-se um dos expoentes da advocacia e do romantismo literário. Contudo, em razão da hipocrisia do nosso racismo sutil, foi deixado de lado, no mínimo, esmaecido pela historiografia e a própria história da Literatura. Obras como a Apresentação da Poesia Brasileira, de Manuel Bandeira, sequer mencionam seu nome, notando-se que só mais recentemente sua glória e seu incontestável talento vem sendo resgatados, sobretudo pelo ambiente acadêmico em dissertações de mestrado e teses de doutoramento, em âmbito historiográfico e outros aspectos, já havendo uma razoável bibliografia e referências a respeito de sua obra e sua vida, em particular em São Paulo, onde passou o mais longo período da vida atribulada, gloriosa, como singular ativista, das letras e da política, defendendo liberdade, dignidade, cultura, república e essencialmente seus irmãos cativos, os que libertou mais de 500 só nos tribunais. Matéria de que falarei.

Aos 29 anos era autor consagrado e considerado “o maior abolicionista do Brasil”, sem deixar de ser uma das vítimas do nosso racismo disfarçado, por ser mestiço, pra não dizer mulato, pardo, moreno e outros verbetes com que a ideologia euro-ocidental cristã, branca, vem conseguindo afugentar e prossegue tentando eliminar o negro da sociedade brasileira, através do velho processo de embranquecimento, causando um verdadeiro genocídio da “raça”, segundo o extraordinário historiador e escritor Abdias do Nascimento. Foi um dos raros intelectuais negros no Brasil escravocrata do século XIX, o único autodidata e o único a ter passado pela experiência do cativeiro, como ativo opositor da monarquia, não se podendo olvidar o impacto cultural e as muitas influências que já vem causando, algumas ainda tímidas, certamente por não ter sido estudado e avaliado como realmente merece sua enorme personalidade.

Grandes os seus feitos e méritos, sobremodo em São Paulo, no largo do Arouche, centro da Capital, há um imponente busto de Luiz Gama, sem dúvida, o maior abolicionista brasileiro, notando-se que só na condição de advogado (rábula dos mais notáveis), como dissemos, defendeu centenas de negros nos tribunais, chegando a libertar mais de 500, só por isso podendo ser considerado, o maior abolicionista brasileiro, justificando ser hoje em dia preocupação e “objeto” de inúmeros estudos e merecidas homenagens, começadas, aliás, já em 1920, quando sua foto foi capa do número 26 da revista Bahia Ilustrada, da Capital baiana, de onde veio para o Sudeste ainda criança como chega a narrar nos seus escritos célebres, consoante trecho extraído de carta a Lúcio Mendonça, 1880, em Com a Palavra, Luiz Gama:

“Oh! Eu tenho lançes doridas em minha vida, que valem mais do que as lendas sentidas da vida amargurada dos márteres. Nesta casa, em dezembro de 1840, fui vendido ao negociante e contrabandista alferes Antônio Pereira (…)

Este alferes Antônio Pereira Cardoso comprou-me em um lote de cento tantos escravos, e trouxe-nos a todos, pois este é o seu negócio, para vender nessa Província.

Como já disse, tinha eu apenas 10 anos, e, ‘apé, fiz toda a viagem de Santos até Campinas’. (…)

Em 1847, contava eu 17 anos, quando para a casa do sr. Cardoso veio morar (…) o menino Antônio Rodrigues do Prado Junior (…)

Fizemos amizade íntima e ele começou a ensinar-me as primeiras letras.”

Com relação aos pais, com os dados que tenho, percebo ainda haver certa controvérsia. Não raro tenha declinado o nome da mãe, Luíza Mahin, de quem se considera filho natural. Mahin seria pagã e sempre teria recusado o batismo e a doutrina cristã. Para consolo dos Movimentos negros, foi uma espécie de símbolo do Feminismo negro, chegando a lutar na “guerra” dos Malés na Bahia, em 1835.  Gama chega a narrar: “Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve era muito altiva, insofrida e vingativa. Dava-se ao comércio – era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravo que não tiveram efeito. Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução de dr. Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro e nunca mais voltou.” (…) onde foi procurada mais vezes, sem sucesso.

No tocante ao pai, com os dados que tenho, vejo que a dúvida é maior. No que escreveu, Gama não declina seu nome. “Devo poupar sua infeliz memória”, pontua. Quem sabe, porque o vendeu como escravo, a bordo do patacho “Saraiva”. Creio ter o direito de não aprofundar no tema em artigo de jornal. De todo modo, merece registro a frase proferida por Luiz Gama, num júri, tornada célebre: “O escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa.” Consta que o juiz que presidia a sessão, tamanha a reação pública, viu-se obrigado a suspendê-la.

 

(Martiniano J. Silva, escritor, advogado, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras, IHGG, UBEGO, AGL, mestre em história social pela UFG, professor universitário, articulista do DM – [email protected])

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