O corpo como instrumento artístico
Redação DM
Publicado em 19 de agosto de 2015 às 22:17 | Atualizado há 1 anoWalacy Neto,Especial para DMRevista
Em um campo mais metafórico, existem alguns teóricos que relacionam determinada arte com outra. Um exemplo comum é a relação criada entre a poesia e as artes visuais produzidas durante o período do naturalismo (baseia-se na observação fiel da realidade e na experiência através do ambiente) e do realismo (modelo artístico que retrata a realidade da vida, bem como problemas e costumes das classes desfavorecidas). Essa relação pode ser explicada pelos objetos de apresso de poetas e pintores da época: a explícita realidade e beleza da natureza. Atualmente, modelos mais contemporâneos aproximam a expressão corporal, ou seja, a arte do corpo com outras áreas, como a fotografia, as artes plásticas etc. O corpo.
O escritor Paul Zumthor, no livro Performance, recepção, leitura, fala sobre esse contato entre o corpo e a poesia. Em um trecho do livro, o autor explica que “o corpo é o peso sentido na experiência que faço dos textos. Meu corpo é a materialização daquilo que me é próprio, realidade vivida e que determina minha relação com o mundo. Dotado de uma significação incomparável, ele existe à imagem de meu ser: é ele que eu vivo, possuo e sou, para o melhor e para o pior. Conjunto de tecidos e de órgãos, suporte da vida psíquica, sofrendo também as pressões do social, do institucional, do jurídico, os quais, sem dúvida pervertem nele seu impulso primeiro”. Zumthor diz que é preciso aprender a escutar o corpo ao nível de texto e conseguir entender as alterações sentimentais através de contração e descontrações; tensões e relaxamentos; sensações de vazio e plenitude.
O performer Rodrigo Ungarelli afirma que a palavra performance tem vários sentidos, sendo que se trata da maneira como uma pessoa realiza determinado ato. Quanto à performance voltada para o corpo, esta citada acima, Ungarelli é didático. “Essa performance foi popularizada por uma artista chamada Marina Abramovich, que é considerada a avó da performance, mas é uma expressão já disseminada. Por exemplo, aqui em Goiânia, temos o Grupo Empreza que é, atualmente, conhecido em todo o território nacional”, diz. Resumidamente, Ungarelli afirma que a performance para ele “disponibiliza o corpo em um espaço, por um tempo, com ou sem proposta de público, mas sempre com um objetivo de impactar”.
Ele diz que a performance também se trata de uma busca. Seria então um ato artístico de mão dupla, onde o significado do ato artístico está direcionado tanto para quem vê quanto para quem produz. Sobre a sedução que cada arte causa nos artistas, Ungarelli diz ser possível essa proximidade. “A performance pode usar mecanismos oferecidos das artes plásticas e pelas artes cênicas (como teatro, dança, canto). Todas essas técnicas podem ser inseridas no ato performático. Por mais que seja indicado que a performance não contenha interpretações, mas questões de palco, composição de cena e outros, pode levar o ato a outro espaço”, conclui.


Transe em trânsito
Transitar em áreas diferentes é algo corriqueiro na cultura contemporânea. Vesse, por exemplo, que as novidades sempre têm a seu redor um pouco de mistura. Se pega um elemento da fotografia aqui, uma proposta de ritmo da música ali e a produção artística contemporânea vai se dissolvendo meio que como uma receita. O poeta e performer mineiro Renato Negrão é uma grande referência na cultura de Belo Horizonte, ainda mais quando se fala do seu trabalho com performances. Renato, sendo poeta, se vale muito dessa veia na produção performática. “No campo da arte, a performance é uma modalidade caracterizada pelo trânsito entre linguagens, música, vídeo, dança, poesia ou qualquer outra. Em meados do século XX, a performance aparece no ambiente das artes plásticas, introduzindo o corpo agente central, suporte da obra, adensando o elemento expressivo e visual. Mas a performance encontra ressonâncias em outros momentos, mais precisamente: o futurismo italiano, francês e russo, o dadaísmo, surrealismo e a Bauhaus”, fala Renato.
Renato Negrão começou a produzir performances poéticas ligadas ao “happening” no ano de 1996. “Nesse período comecei a desenvolvê-los de modo mais estrutura previamente. De lá pra cá tenho realizado trabalhos com alguma regularidade”, afirma. Entre as performances que produziu, a “Concerto para o Erro” tem um estímulo próprio devido aos elementos visuais. Outro ato que produziu e carrega perto do peito é a “Partida Sensível”, em que o áudio de uma partida de tênis em fricção com o gestual e a visualidade evocam poéticas diversas com humor – e é possível encontrar tudo isso no YouTube.
A poética de uma performance parece mesmo não estar contida só no resultado, mas na produção e descoberta que ela permite. “No ato performativo a tensão pode estar no limite ético de cada autor, não há restrições a priori. O risco e a suspensão do tempo é a força movedora. Há o já famoso caso do artista Bas Jan Ader que em 1975 tentou atravessar o Atlântico em um pequeno barco, no trabalho intitulado “In Search for the Miraculous”… ele nunca chegou e seu corpo nunca mais foi encontrado”, conclui Renato Negrão.
Nas ruas
Ed Marte tem 47 anos e é artista, ator performer, educador e figura clássica da noite de Belo Horizonte. Iniciou seu trabalho no teatro nos anos 80 com curso para iniciantes no Núcleo de Estudos Teatrais (NET) e depois partiu para faculdade de comunicação social, onde participava de peças no meio acadêmico. No final dos anos 90 formou um grupo de teatro e pesquisa onde chegou a montar dois espetáculos que ficaram em cartaz até o inicio dos anos 2000. O ato performático de Ed está nas vestes e na área comportamental, um estilo de crítica feito através das questões de gênero.
“A performance surgiu no meu trabalho nas ruas, nas manifestações culturais, nos eventos ativistas de coletivos, como por exemplo a Praia da Estação, que começou em 2010. Evento performáticos em trabalhos de amigos no ano de 2011, época que comecei a pesquisa sobre o corpo político ocupando espações públicos como ruas, praças e outros lugares. No meu trabalho abordo questões de gênero ou não identidade de gênero”, diz Ed Marte. Os moradores da cidade de Belo Horizonte, na maioria das vezes, têm certo choque ao topar a figura de Ed Marte. Esta é a intenção, ou melhor, a provocação que o performer pretende causar quando usa seu maiô azul de bolinhas brancas, óculos de sol amarelo, batom vermelho e barba por fazer. Ele também fala do corpo, seu principal instrumento de trabalho. “Performance são ações desenvolvidas por um corpo presente, vivo no instante da ação, que relaciona o público e ambiente e espaço definido pelo artista, que pode ser uma galeria ou espaços abertos como a rua, praças e calçadas”, aponta. A preferência de palco para Ed são as ruas e vias públicas da capital mineira. “Comecei de forma intuitiva e naturalmente há mais ou menos uns seis a realizar performances cotidianas ou planejadas, focadas no espaço público”, ou seja, o corpo da cidade.
“O corpo em si já um corpo político que se locomove de forma a exercer um visual para o público que circula nos espaços, e trabalhar o visual é simplesmente se descobrir livre para criar os adereços que fazem parte do corpo físico”, declara. Para Ed, o processo criativo surge de uma ideia simples, um insight, e logo após vem a pesquisa sobre o tema. Desta parte surge os materiais que podem ser utilizados, roupas, adereços e o local onde a performance será realizada. “Mas a performance acontece mesmo é ao vivo, com o retorno do público no momento da ação”, aponta.
Várias ramificações são possíveis quando se fala no processo de criação cultural. A arte é feita pelo toque, emocional ou corporal, portanto a região, o clima ou até mesmo as paisagens de dado local vão cair, de alguma forma, no trabalho que este apresenta. A liquidez da mesma agora é visto nesse possível novo modelo de expressão artística que é novo, mas aparece já tirando coelhos da cartola e provocando reações.