Cotidiano

Assassinatos de jovens equivalem a 3,5 chacinas da Candelária por dia

Redação DM

Publicado em 25 de julho de 2015 às 01:55 | Atualizado há 11 anos

Da Redação

O Brasil registrou 10.136 assassinatos de jovens entre 11 e 19 anos em 2013, em média 28 mortos por dia, o que equivale a 3,5 chacinas da Candelária perpetradas diariamente, de acordo com o sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, autor do estudo “Mapa da Violência” e coordenador da Área de Estudos sobre Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).

A chacina da Candelária ocorreu na noite de 23 de julho de 1993, deixando mortos oito jovens de 11 a 19 anos, em frente à Igreja da Candelária, no centro do Rio. Os autores foram PMs e as vítimas eram moradores de rua que frequentavam as imediações da igreja e dormiam no local.

Waiselfisz falou na abertura da audiência pública Jovens Vítimas da Violência e Justiça Reparadora para os Familiares, realizada na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio. Segundo ele, o perfil das vítimas jovens que sofrem violência é de cor negra, pobre e pouco escolarizado e os índices vêm aumentando a cada ano.

“Os índices de violência nesta faixa etária (11 a 19 anos) foram crescendo drasticamente ao longo desses anos. Entre 1993 e 2013, praticamente quadruplicaram os níveis de violência. A chacina da Candelária foi a ponta de um iceberg que já existia no Brasil”, disse o sociólogo, durante a audiência pública, com a presença do ministro Pepe Vargas, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

De acordo com os dados nacionais apresentados por Waiselfisz, o índice de jovens negros, entre 16 e 17 anos, mortos no ano de 2013, é de 66,3 por 100 mil habitantes. O de jovens brancos, na mesma faixa etária, é de 24,2 por 100 mil.

Quanto à escolaridade, 82% das vítimas de assassinatos no país tinham até sete anos de estudo, o que equivale ao nível fundamental. Na faixa etária de 16 e 17 anos, 93% dos mortos são homens.

Pepe Vargas destacou que os números são um alerta de que as chacinas não cessaram: “A violência sobre adolescentes e jovens aumentou no Brasil nesses últimos anos. Precisamos fazer um grande pacto nacional pela redução de homicídios. O governo está discutindo, sob a coordenação do Ministério da Justiça, uma proposta para a construção deste pacto”.

Pepe Vargas prometeu “ter um foco sobre adolescentes e jovens, que têm sido mais vítimas de violência do que causadores dela. Principalmente, temos que fazer um debate intenso, não apenas em âmbito federal, mas envolvendo os governos estaduais, municipais e a sociedade como um todo”. Os dados completos do estudo Mapa da Violência 2015 podem ser acessados no endereço www.mapadaviolencia.org.br.

 

BRUTALIDADE

Há exatos 22 anos, oito rapazes foram brutalmente assassinados em frente à Igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. A Chacina da Candelária, como ficou marcada, é um ícone da violência contra jovens negros e pobres no Brasil, e foi relembrana quinta-feira com missa e ato interreligioso no local, de manhã. Na parte da tarde, ativistas de direitos humanos fizeram uma Caminhada em Defesa da Vida, partindo da igreja em direção à Cinelândia.

Irmã de um dos sobreviventes, Patrícia de Oliveira lamentou que uma tragédia ocorrida há mais de duas décadas continue destruindo famílias inteiras. Segundo ela, a sociedade acha que tem que matar adolescente, como se antecedente criminal justificasse a morte. “Por isso, continuamos a fazer as atividades, e essa caminhada hoje é pela não redução da maioridade penal”, declarou.

Após sobreviver aos quatro tiros que levou na noite da chacina, Wagner dos Santos – irmão de Patrícia de Oliveira – voltou a sofrer atentado em setembro de 1994, com mais quatro tiros. Ele sobreviveu, mas ficou cego de um olho e com várias sequelas. O Ministério Público então o colocou no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas. Graças a ele, quatro dos assassinos foram reconhecidos. Hoje o rapaz vive na Suíça.

 

Tribunal do Júri

“Ele foi desqualificado no Tribunal do Júri por ser menino de rua. Foi muito difícil. Hoje em dia melhorou, há Subprocuradoria de Direitos Humanos do Ministério Público, tem Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública, tem vários canais graças à luta do meu irmão e de outros familiares”, disse Patrícia.

Fundadora e coordenadora do Movimento Moleque – Mães pelos Direitos dos Adolescentes no Sistema Socioeducativo, Mônica Cunha perdeu um dos filhos, Rafael, aos 20 anos, morto por um policial em 2006. Para ela, as inúmeras passagens de menores infratores pela polícia devem-se, principalmente, a não implementação das medidas socioeducativas. “O Estado legaliza a morte dessas crianças. Ninguém nasce bandido, torna-se autor de ato infracional pelas condições de vida, por falta de direitos que o Estado não dá para a família, sem creche, sem casa, sem um trabalho decente”, comentou ela, ao destacar o papel da mídia e da sociedade, que estimulam o consumo para uma maioria empobrecida.

 

 

 

 

 

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