O casamenteiro, o batista e o porteiro
Redação DM
Publicado em 13 de junho de 2015 às 02:18 | Atualizado há 2 anosO mês de junho é o mês em que são reverenciados três santos da Igreja Católica responsáveis pela maior demonstração de religiosidade mesclada com festejos populares. Santo Antônio, São Pedro e São João Batista são os expoentes de comemorações populares, desde o período colonial no Brasil, e suas festas são mais importantes em alguns lugares até mesmo do que o Natal, principal festa cristã.
Na Região Nordeste do Brasil, a importância de comemorar os santos de junho, com destaque para João Batista, é tamanha que acontecem torneios de danças típicas e é decretado feriado em seus festejos. “As festas comemorativas no mês de junho são a maior demonstração de que o povo acredita na santidade desses bem-aventurados e a crença neles nos remete à alegria de que por sua intercessão podemos almejar graças”, explica o professor Lyzandro Poletto, ex-padre que conhece a vida desses santos com riqueza de detalhes.
Cada um desses santos tem uma característica distinta na veneração popular e seu histórico de atividades em vida, além das manifestações de milagres e indicativos de santidade são aceitos como verdade dogmática pela população e passaram incólumes por todas as guerras e cismas religiosos ao longo da história.
O primeiro a ser comemorado é Santo Antônio, tido como facilitador de casamentos. Em seguida vem São Pedro, o que seria o guardião das chaves do céu e as comemorações finalizam com São João, o primo de Jesus Cristo, que o batizou e é tido como uma das mais fortes figuras da cristandade, que mereceu menção honrosa do próprio Messias. Todos são venerados, respeitados e invocados para intercederem dentro das suas peculiaridades e em atenção aos preceitos religiosos a eles atribuídos. O que a religiosidade popular não permite que seja apagada mesmo é a memória desses santos e a comemoração de seus dias no mês de junho.

Santo Antônio
Alguns o chamam de Santo Antônio de Pádua, como se ele fosse da cidade italiana de Pádua, ou Padova, numa clara demonstração do imperialismo italiano que quer todos os santos para a península da bota. O certo é que ele nasceu em Lisboa, Portugal, em 1191, filho de uma família de nobres. Seu nome de batismo era Fernando, possivelmente com o sobrenome Bulhões e ele se torno pelo estudo, reflexões e ação pastoral um dos maiores doutores da Igreja.
Aos 15 anos, ingressou na Ordem dos Agostinianos e iniciou seus estudos pelos conventos de São Vicente de Fora, em Lisboa e Convento de Santa Cruz, em Coimbra. Aos 20 anos, pediu para mudar de ordem religiosa e tornou-se franciscano, foi quando seguindo a tradição de ser “enviado” teve o nome mudado de Fernando para Antônio. Viveu em Portugal, França e Itália, pregando e lecionando para os confrades nos conventos. Teve a admiração do próprio Francisco de Assis, que o nomeou para o Capítulo da Ordem Franciscana, uma espécie de conselho curador e o nomeou professor em Universidades Franciscanas na Itália e na França. Sua fama de santidade já era conhecida mesmo em vida e transcendeu após sua morte, o que levou a Igreja Católica a canonizá-lo apenas 11 meses após seu passamento.
Foi um notável orador, teólogo, místico e taumaturgo. Tinha grande cultura acadêmica, o que o distinguia dos demais companheiros de conventos e fraternidade religiosa. Foi autor de uma coletânea de sermões que deixou para a posteridade. São Boaventura, outro doutor, disse que Antônio tinha “a ciência dos anjos”.
Sua representação mais conhecida é a dele com o Menino Jesus nos braços. Narra a lenda que Antônio vivia em um mosteiro na França e por sua tolerância e desprendimento os irmãos de convento aproveitavam de sua humildade, dando-lhe os piores serviços na casa. Conta-se que um dia ele havia sido incumbido de limpar o chão do comprido corredor e enquanto fazia o serviço indo e voltando com o esfregão aproveitava para fazer suas orações e oferecer o trabalho para a grandeza de Deus. Por sua santidade e merecimento, continua a lenda, a própria Nossa Senhora, mãe de Jesus, lhe apareceu com o menino no colo e lhe concedeu a graça de poder entabular um curto diálogo. Antônio, por sua simplicidade e devoção, disse que o Menino Jesus era uma criança bonita e saudável e pediu para segurá-lo um pouco, porque gostava de crianças. Sua santidade e merecimento pela Mãe de Deus foi reconhecida e Maria lhe concedeu a graça de pegar o Menino Deus nos braços. A lenda atravessou séculos e é, até hoje, sua imagem mais venerada.
É tido como santo casamenteiro e moças que desejam arrumar um marido mais rápido o castigam, afogando uma imagem dele em um balde, retiram o Menino Jesus dos seus braços e só devolvem quando a graça é alcançada.
São Pedro

Foi o primeiro papa, o primeiro líder máximo da cristandade, o pescador que recebeu do Messias a missão de erguer a Igreja. Nascido em Betsaída, à beira do Lago de Genesaré, ou Tiberíades, seu nome original era Simão e quando Jesus o chamou para seguí-lo disse o célebre convite: “Vinde e o farei pescador de homens”. Em outra passagem, Jesus reafirmou a dura missão atribuída a ele, quando mudou seu nome para Cefas, ou Pedra, Rocha: “Pedro, tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.
Por essas missões contidas nos Evangelhos, São Pedro é tido como o porteiro do céu, ou quem permite a entrada ou não no paraíso. A crendice popular também lhe atribui a característica de fazer chover. Alguns pesquisadores acreditam que ele tenha sido do grupo dos zelotes, espécie de guerrilheiros que combatiam o domínio romano com a força.
Uma das últimas passagens dele com o Messias foi quando Pedro negou Jesus por três vezes diante da guarda pretoriana que procurava seus seguidores. Após a morte e ressurreição de Jesus Cristo, ele foi preso outras duas vezes pelas tropas romanas e intensificou o trabalho de construção do cristianismo. Um conflito gerado entre ele e Paulo, um soldado recém-convertido rendeu o primeiro Concílio, ou encontro das autoridades eclesiásticas para definir os rumos da Igreja. Pedro pretendia que a pregação da nova fé e dos mandamentos de Jesus fossem ministradas aos judeus. Paulo discordou e lembrou a ordem do Cristo: “Ide pelo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”. Disse “toda” e não somente judeus. O Concílio de Jerusalem I definiu que a boa nova seria levada para todo o mundo e Pedro, disciplinadamente obedeceu.
Foi com Paulo para Roma, onde ergueriam a Igreja. Preso novamente e condenado à morte na cruz fez um último pedido: não era digno de morrer como o Mestre, por isto queria ser crucificado de cabeça para baixo, no que foi atendido.
Desde 1950, o túmulo de São Pedro é conhecido. Foi descoberto no Vaticano, embaixo da Basília erguida em honra dele. O cristianismo, a Igreja Católica, o mundo Ocidental foram certamente construídos sobre bases lançadas por Pedro e seus auxiliares nos primeiros anos da Era Cristã.
São João se alimentava de gafanhotos e mel

Falar de São João impõe voltar a sua concepção. Seu pai era Zacarias e sua mãe Isabel. Maria, uma jovem judia que estava prometida a um homem chamado José, recebe a visita noturna de um anjo, Gabriel, que lhe anuncia que ela ficaria grávida e que seu filho seria o messias esperado pelo povo de Israel. Acrescenta que Isabel, sua prima, também estava grávida de seis meses e que o filho da prima seria o precursor do messias, além de batizá-lo na água. Maria, incrédula porque sua prima e o marido eram velhos e nunca tiveram filhos, sobe as montanhas de Hebrom para conferir.
Ao chegar à casa da prima, Isabel a saúda da forma mais reverente possível. “Bendita, és tu entre todas as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem a honra de vir a mim a mãe do meu Salvador?”. Maria, ao regressar a Nazaré, recita a, talvez, mais bela e profunda das orações, o Magnificat: “A minha alma engrandece o Senhor, se exulta meu espírito em Deus, meu Salvador. Pois ele fez em mim maravilhas, Santo é o Seu Nome. Ele exalta os humildes e derruba de seus tronos os poderosos. Doravante, todas as gerações me dirão: a bem-aventurada”.
João cresceu com os essênios e se preparou para entrar em cena somente quando Jesus estivesse também pronto para iniciar sua pregação. Por isto é chamado “arauto do redentor”. Viveu com os sábios e ascetas, se alimentava de gafanhotos e mel, se vestia com pele e cingia-se com um cinto feito de couro de camelo. Já próximo da chegada do Messias à cena evangélica, a pregação de João Batista se intensifica: “Quem tem duas túnicas, dê uma ao que não tem; e o que tem que comer, faça o mesmo.” (Lc 3, 11). A salvação Divina se concretiza, na medida em que o reino de Deus se realiza: na vivência da fraternidade, na prática da justiça, na defesa da vida, na promoção da dignidade humana, no resgate dos direitos dos pobres e excluídos, essa era sua pregação.
Alguns esotéricos e espiritualistas afirmam que João Batista era a reencarnação do profeta Elias. De acordo com as escrituras, João foi preso depois de criticar o casamento do rei Herodes Antipas com a cunhada, Herodias. Numa festa, Salomé, a filha de herodias, encantou o padastro dançando. O rei, então, disse que daria a Salomé o que ela quisesse. Salomé pediu a cabeça de João Batista. E ganhou o que pediu: a cabeça de João Batista em uma bandeja de prata. O certo é que o próprio Jesus Cristo se referiu a ele reconhecendo sua grandiosidade na missão: “Entre os nascidos de mulher, não há maior profeta que João Batista”.