O integralismo se afoga nas águas do Lete
Redação DM
Publicado em 7 de junho de 2015 às 01:58 | Atualizado há 2 anosHelvécio Cardoso,Da editoria de Política&Justiça
É um tanto escassa a bibliografia sobre o integralismo. Ainda hoje, uma das melhores fontes é a obra clássica de Hélio Silva, Terrorismo em Campo Verde, como, de resto, todos os seus livros sobre a era Vargas. Por isso é sempre bem vindo cada novo livro se propondo enfocar um dos mais instigantes fenômenos políticos da história do Brasil, mas que desapareceu sem deixar rastro.
Lançado pela Ifiteg Editora, em parceira com a Gráfica e Editora América, o livro de Rogério Lustosa Victor, historiador e pesquisador da Universidade Católica de Brasília, intitulado O labirinto integralista: o conflito de memórias (1938 – 1962), vem contribuir aos estudos sobre o tema. Trata-se de obra acadêmica. Apesar disso, transposta a exposição do método e a justificação do enfoque, é leitura agradável e instrutiva. O autor bem que poderia fazer uma versão destinada ao grande público, sem as exigências estilísticas das teses universitárias. Fica a sugestão.
Erros? Sim, tem. Poucos e irrelevantes. Poderão ser escoimados em nova e bem revisada edição. Rogério não faz crônica ou “história” do integralismo. Ele se propõe a interpretar a marginalização do Integralismo na vida política brasileira, o repúdio da sociedade e o veto do mundo político a sua legalização. Ele conta como e porque aconteceu. Como entender que uma organização que foi, por assim dizer, o primeiro partido de massas do Brasil, com quantidade espantosa de militantes, uma imprensa vibrante, um conjunto respeitável de obras sócias, e um elenco de intelectuais de primeira linha, pôde ser tragada pelo olvido, afogada nas águas do mitológico Rio Lete, o rio do esquecimento?
É fácil argumentar que o empenho do estado novo em fazer a caveira de Plínio Salgado e dos integralistas foi circunstância passageira, que poderia ser superada. De fato, os integralistas tentaram emergir das águas do Lete após o estado novo. A velha Ação Integralista Brasileira ressurgiu disfarçada em partido político, o Partido da Representação Popular, pelo qual o chefe integralista, Plínio Salgado, concorreu à presidência da República em 1955.
O PRP jamais se livraria da maldição lançada aos integralistas, por mais que tentasse. Na eleição presidencial de 1955, Plínio ficou atrás de Juarez Távora, que perdeu para Juscelino Kubitschek. Em 1965, com a extinção dos partidos fundados depois do Estado Novo, Plínio elege-se deputado federal pela Arena. E deixa de se candidatar em l974, falecendo em l975, em seu sítio perto de Brasília, onde passou os últimos dias no mais absoluto esquecimento.
Mas o integralismo não está de todo morto, ainda sobrevive, no Rio de Janeiro. Na forma de entidade cultural, uma pequena seita nostálgica, procura manter viva a memória do integralismo, zelando do mausoléu onde jazem os restos mortais de sete militantes do Sígma assassinados em 1938 pelas forças getulistas que debelaram o putsch integralista.

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Buscando desvendar o evanescimento do integralismo, Rogério maneja alguns conceitos buscados ao arsenal teórico das ciências sociais. Ele busca na sociologia, sobretudo em Bourdieu e em Halbwachs, as categorias centrais com que orienta sua reflexão. Rogério trabalha com os conceitos de “memória social”, “representações do passado” e quejandos. Na primeira parte, desenvolve uma fenomenologia desses conceitos um tanto metafísicos.
O raciocínio aplicado por Rogério ao Integralismo, extrapolado para o comunismo e o trabalhismo, força a conclusão de que o liberalismo burguês nunca tolerou partidos que se organizam como “movimentos de opinião pública”, como diz Alberto Pasqualini. Partidos com doutrina e ideologias bem definidas, que buscam, antes do voto, a hegemonia. Não por acaso o Integralismo, conquanto visceralmente anti-comunista, foi muitas vezes acusado de usar “métodos bolcheviques”, o que para eles devia soar como imperdoável injúria. Não poucos acusaram o Integralismo de ser um comunismo de sinal trocado, na base do surrado clichê segundo o qual “os extremos se tocam”. Para o liberalismo burguês, lugar de povo não é na política, coisa para as elites bem pensantes.
O integralismo brasileiro, enquanto ideologia, foi desenvolvido por Plínio Salgado, romancista e ensaísta vinculado à estética do modernismo. Rogério inicia seu livro passando em revista “O Estrangeiro”, romance de Salgado no qual ele expõe as bases ideológicas do Integralismo indígena. É um canto de protesto contra a modernidade, que então invadia o Brasil; é a denúncia do cosmopolitismo, é a idealização do homem do interior, o sertanejo, tomado idilicamente como verdadeiro herói da nacionalidade.
As crises geradas pela primeira guerra mundial, o triunfo da revolução comunista na Rússia, a que se acresce a incapacidade das democracias ocidentais de assegurar o bem estar do cidadão comum forneceram campo fértil para o florescimento dos chamados “totalitarismos”. A democracia liberal-burgesa, nos anos 20 e nos anos 30 do século passado, estava totalmente desacreditada em toda parte. O comunismo avançava a passos largos. A reação anticomunista, mimetizando o inimigo na guerra à democracia, também propôs às massas uma alternativa “totalitária” à inoperância do liberalismo. De repente, todos caíram de paixão pelo tal “Estado Forte” de que falava Hegel, sem contudo, guardar fidelidade ao que ele entendida por Estado Forte. O Estado Forte hegeliano seria um leviatã totalitário controlando os aspectos mais íntimos da vida social, submetendo à administração pública os assuntos de família, de educação, de lazer, e até de religião. A execução desse projeto na Rússia, na Itália, na Alemanha, na Polônia, na Espanha, em Portugal, na Hungria, no Japão e na China cobrou um preço altíssimo em vidas – resultou nas maiores tragédias de que se tem notícia.
A questão do Estado diferencia o Fascismo do Nazismo. O Fascismo propõe o tal estado “orgânico”, em que a representação popular é substituída pela representação classista, ou corporativista. O Nazismo rejeita o estado e efetivamente o aboliu. Toda administração pública foi substituída pelo Partido Nazista. Uma parte das forças armadas foi ocupada pelo partido, as abomináveis SS, absolutamente autônoma em relação ao Exército Regular.
Mas em l932, quando Plínio lançou a Ação Integralista Brasileira, nada do que aconteceu depois da ascensão de Hitler ao poder podia ser imaginado. Analisando em retrospecto, pode-se achar que o Integralismo foi uma monstruosidade porque era simpático ao Nazismo e ao Fascismo. E daí? Vargas também foi. Mas nenhum integralista achava que tudo acabaria mal. Estavam todos imbuídos da mais genuína boa fé, do mais acendrado patriotismo. O próprio Prestes, o grande inimigo do Sigma, reconheceria, anos depois, que encontrou muita gente honesta no integralismo. Por certo havia. Como também havia charlatães, os arrivistas, os porra-loucas.
O integralismo de Plínio Salgado é quase um sincretismo ideológico. Suas raízes doutrinárias descem ao reacionarismo de Charles Maura e à Action Francaise, que teve no Brasil um ardoroso apóstolo na pessoa de Jackson Figueiredo. Não uso aqui o vocábulo “reacionarismo” para denegrir. Jackson, monarquista até a morte, e que se autodefinia como “reacionário”. O reacionarismo almejava a respeitabilidade. Em Portugal, o tradicionalismo reacionário de Mauras, adaptado à conjuntura portuguesa, adotou o nome de “Integralismo”, sendo sua bandeira a restauração monárquica.
Mauras e a Action Francaise, porém, já estavam ultrapassados quando Mussolini, um socialista renegado, tomou o poder e estabeleceu o tal “estado orgânico”, em que a democracia representativa, de molde liberal, seria substituída por uma, vá lá, democracia corporativista. Para além das aparências populistas, o fascismo, na verdade, foi uma tirania, um regime de partido único sob autoridade soberana do Duce, o chefe. Neste contexto, a ideia de um estado monárquico democrático, sob a autoridade de um monarca esclarecido – o sonho de Hegel -, já se mostrava uma ingenuidade política que o senso comum não podia levar a sério.
EMPRESTADO
O integralismo de Salgado tomou emprestado do Fascismo a ideia do Estado Orgânico, além, é claro, de toda aquela mis-en-scene ridícula. Plínio conheceu pessoalmente Mussolini na Itália, antes da guerra. Ficou fascinado pelo Duce. De volta ao Brasil, achou que deveria montar um negócio parecido. Todavia, católico fervoroso, papa-hóstia contumaz, Salgado introduziu no seu totalitarismo caboclo muitas ideias contidas nas chamadas “doutrinas sociais da Igreja”.
UM PARTIDO MALDITO
Todos os males de que os integralistas foram acusados poderiam ser imputados ao Estado Novo. Foi uma ditadura fascitoide, que criou instituições inspiradas no Fascismo, e que só não aliou ao Eixo, na Segunda Guerra, por razões alheias à vontade de Getúlio. A Alemanha torpedeou navios brasileiros levantando uma onda de indignação que contagiou o país. Getúlio não teve outra alternativa senão declarar guerra à Alemanha e à Itália. Os integralistas foram acusados de espionar a favor dos alemães, de ter passado à Gestapo as rotas dos navios brasileiros torpedeados pelos u-bolts alemães. A pecha de “Quinta Coluna” jamais foi descolada dos integralistas.
Assim, vistos como traidores da pátria, ridículos, patéticos, inimigos da liberdade, os integralistas tiveram ainda que suportar o rótulo infamante de “covardes”. Existem inúmeras narrativas de confrontos dos “camisas verdes” com militantes de esquerda em que eles, os integralistas, teriam fugido assustados. Nas versões sobre o Putch Integralista, há depoimentos de que eles teriam se comportado de modo pusilânime.
Tentativa desastrada de tomar o poder

A desgraça do Integralismo foi o tal putsch, uma tentativa desastrada de tomar o poder pelas armas, em 1938, Tentaram tomar de assalto a residência do presidente da República e fracassaram. Naquela noite, os defensores de Getúlio assassinaram friamente, nos jardins do palácio, sete integralistas já devidamente capturados. Mas isto, apesar das provas, nunca foi história. Nenhuma Comissão da Verdade se interessou por esclarecer os fatos.
A partir do Putsch, os integralistas passaram a sofrer perseguições. Foram presos, torturados, seus dirigentes fugiram para o exílio (Salgado se estabeleceu em Portugal, sob a proteção de Salazar). A imprensa só se ocupava deles para denegri-los. Nos livros de História, os integralistas são referidos como celerados que atentaram contra o bom Getúlio e fracassaram. Rogério discorre longamente sobre este aspecto do caso. Ele examinou todos os livros didáticos publicados ao tempo do Estado Novo e depois mostra como o sistema educacional funcionou como instrumento de controle ideológico e deturpação da história.
Pós-Estado Novo, a grande imprensa se encarregou de malhar o integralismo, atualizando sempre, na memória social, a intentona de 1938. Salgado e seus aliados se defendiam dizendo que o putsch foi uma legítima e gloriosa ação em favor da democracia, visando derrubar a ditadura instalada em 1937 por Vargas. Mas, “ai!, que mancada!”. Plínio Salgado não apenas apoiou o golpe como negociou com Getúlio sua participação no governo ditatorial. Os integralistas marcharam em saudação ao ditador. Isto nunca foi negado. O integralismo nunca tentou sequer esboçar uma justificativa aceitável desta adesão de Plínio ao golpe do Estado Novo.
Getúlio procedeu de má-fé com os integralistas. Manipulou Plínio Salgado. Não tendo mais necessidade dos integralistas, mandou-os às favas. Despeitados, eles como que subitamente se converteram à democracia e tentaram derrubar o ditador à força.
Tudo isso poderia ter sido contornado se a Alemanha e a Itália não tivessem perdido a guerra. Depois de banir os comunistas da vida pública, o establishment, liberal pró-americano, udenista, avesso aos “radicalismos”, exige o banimento do PRP. O registro do partido é impugnado. Um advogado e político goiano, o então senador Dario Cardoso, do PSD, defende o PRP e ganha a causa. Sua estratégia: desvincular o PRP do integralismo. Mesmo os chefões do integralismo tentaram se distanciar do antigo movimento. Mais tarde, em dias favoráveis, eles reivindicariam a herança do integralismo.

NAZISTAS
O Correio da Manhã organizou uma exposição no Rio de Janeiro, mostrando fotos das barbaridades cometidas pelos nazistas. Foi um proselitismo barato e fraudulento. O Correio da Manhã queria convencer o público de que as mesmas barbaridades teriam acontecido no Brasil se a AIB tivesse chegado ao poder. A mesma técnica de mistificação ainda hoje usada contra os comunistas. Busca-se condenar o réu por um crime que ele ainda não cometeu, que presumivelmente vai cometer no futuro. Para impedi-lo de cometer, é preciso neutralizá-lo ainda agora. Mas, fazendo isso, estaremos condenando um inocente, punindo alguém por um crime que, de fato, não cometeu. É um manifesto absurdo. Mas a direita, que tem no escândalo a fonte do seu moralismo indignado, não tem apreço pela lógica e se compraz em absurdos assim. Os próprios integralistas, tantas vezes vítimas deste espírito de caça às bruxas, nunca vacilaram em usar contra seus inimigos, os comunistas, o mesmo tipo de fraude argumentativa.
A verdade é que, como Rogério nos mostrou, o integralismo perdeu a guerra pela reabilitação de sua imagem. Sua reputação de bruxa nazista jamais foi sequer arranhada. Apesar de todo esforço do integralismo para ser visto como democrata, cristão, amigo da família e da pátria, ele seria visto sempre como ridículo, patético, covarde, celerado, fanático, sanguinário, inimigo da liberdade…
É vasto o vocabulário infamante. Talvez tenha faltado ao integralismo a coragem moral de se banhar nas águas lustrais da autocrítica. Optaram, contrariamente, por perseverar em tapar o sol com a peneira. É claro que Integralismo não é igual a nazismo. Mas é fora de discussão que Salgado apoiou o golpe de Getúlio e muitas vezes declarou que sentia desprezo pelo voto, e que a AIB só se submeteria às regras da democracia liberal para destruí-la. Sem uma cabal autocrítica – como a que Miguel Reale fez – como acreditar na sinceridade de Plínio Salgado quando se declarava, com toda a veemência deste mundo, que era um democrata juramentado?
Penso que o erro do PRP foi não tentar reorganizar-se como movimento de opinião pública, com militância nas ruas gritando palavras de ordem, como nos velhos dias da AIB. Mas eles achavam que já não havia mais clima para esse tipo de ação política. O PRP se tornou um partido como qualquer outro, tentando ser aceito naquele clube de bons rapazes que é o Congresso Nacional, a sede dessa refinada hipocrisia que todos chamam de “grande política”.