Rua 70 – O endereço do crack
Redação DM
Publicado em 3 de abril de 2015 às 01:34 | Atualizado há 11 anosSaulo Humberto Da editoria de Cidades
“A gente fica com medo porque não pode nem sair mais na rua”. Esse é o relato indignado de Jussara Ferreira Lima, funcionária de uma panificadora da Rua 70, e que expressa o sentimento de pavor dos moradores, comerciantes e empresários que moram ou trabalham no local. E o que não falta naquela via são casos relacionados com os moradores de rua e a reclamação de que a polícia não tem permissão para tirá-los daquele local.
Há quatro anos trabalhando diariamente na Rua 70, Jussara explica que os crimes acontecem, seja dia ou noite, sendo que já foi abordada até as três horas da tarde. “Um morador de rua sentou aqui na porta. Eu queria fechar a padaria e pedi a ele para se levantar. Ele simplesmente fingiu que estava dormindo, mesmo depois que um rapaz tentou me ajudar a removê-lo do lugar. Finalmente o rapaz, que é segurança, meteu o pé nele. Ele se levantou, pegou uma pedra e tentou nos acertar, mas eu já havia abaixado a porta, onde a pedra bateu”, contou.
Jussara cita outro caso ocorrido no estabelecimento. Ela diz que um dia chegou um morador de rua pedindo água e ela disse que a padaria, naquele dia, estava sem água. “O homem ficou nervoso, alegando que o local tinha muitas geladeiras e devido a isso tinha água. Voltei a explicar que não tinha água nem para matar minha sede, momento em que fui ameaçada de levar um tapa. O rapaz saiu correndo, mas ficou passando em frente fazendo ameaças, fazendo gesto como se estivesse portando uma faca na cintura”, descreveu.
O perigo proporcionado por essas pessoas é grande, pois elas também assaltam. Segundo a profissional do atendimento, um rapaz estava passando pela rua quando foi assaltado. Durante a ação, ele perdeu todos os documentos e foi ferido na boca por um golpe de faca.
Quem também presta serviços na Rua 70 é a costureira Delvani Ferreira Lima. Ela trabalha há cinco anos na região e afirma que os moradores de rua passam nos estabelecimentos pedindo, porém, apesar disso, nunca prejudicaram ou atrapalharam ela
Ações
Procurar a polícia é um dos atos mais comuns realizados pelos moradores da Rua 70 e proximidades, porém, segundo os comerciantes, o órgão não pode ajudar o suficiente. Jussara diz que no dia em que quase foi agredida pelo morador de rua os policiais foram até o local, fizeram revistas, apreenderam drogas, mas não tiraram ele da rua. De acordo com ela, “os policiais disseram que a lei não permite que eles tirem os moradores de rua da região”. Delvani resume em uma frase a situação atual: “É mais fácil os policiais serem punidos se fizerem alguma coisa com eles”.
Para Jussara, é perigoso para todo mundo a presença dos viciados e traficantes de drogas, “pois não se pode confiar neles”. Por isso ela sugere que eles sejam removidos para algum lugar mais afastado ou então tratamento para largar das drogas. A costureira Delvani Ferreira Lima tem a mesma opinião, mas considera a internação a melhor opção.
Ponto de tráfico
A gerente de um hospital localizado na Rua 70, que não quis se identificar por medo de represálias, explica que a unidade de saúde atende pacientes de hemodiálise, ou seja, pessoas debilitadas. Ela informa que na semana passada entrou um rapaz no local tentando matar uma moça. Ela disse que um dos motoristas colocou o rapaz para fora do hospital e foi ameaçado por ele.
Já no fim do mês passado um morador de rua entrou na recepção do hospital e quando ela foi pedir para ele se retirar, ouviu como resposta a ameaça: “Eu vou te matar e botar fogo na sua clínica”. Ela revelou que ficou apavorada. “É uma pressão muito grande”, desabafa.
A gerente diz também que eles não deixam as funcionárias varrerem a frente do hospital, comportando como se fossem os donos da rua. Ela ficou sabendo que a maioria deles tem residências, famílias, porém não querem ir para suas casas. Ela sugere que o governo poderia cadastrar todos os moradores e mandar vários deles de volta para suas cidades de origem, “pois a maioria é de outras cidades. O pior é que eles chegam aqui para vender drogas na frente da clínica. A toda hora tem traficante por aqui. A polícia não prende porque não quer”, reclamou a gerente.
Ações frequentes
O assessor de comunicação da Polícia Militar do Estado de Goiás (PM GO), tenente-coronel Ricardo Mendes, afirma que todos os dias a PM executa operações no local, com a finalidade de coibir tráfico e uso de drogas e, também, combater a violência. “A solução para esse problema é um esforço conjunto de vários órgãos públicos; não é só ações de polícia, mas questão social e de saúde pública”, afirma.
O comandante da 37ª CIPM (Companhia Independente da Polícia Militar), capitão Daniel Pires Aleixo, diz que a PM atua 24 horas por dia na região, com operações a cada 10 minutos. Ele explica que quando há algum crime ou contravenção, a pessoa é encaminhada para o Distrito Policial.
O capitão Daniel também explica que a PM não pode encaminhar os moradores de rua para casa, e que isso só pode ser feito pela Semas (Secretaria Municipal de Assistência Social), justificando que ato da remoção de morador de rua foge da competência da Polícia Militar. Conforme o comandante, a corporação prende, encaminha para o DP e só é feito o TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrência). “A polícia prende, mas pela legislação tem que liberar. A legislação é branda, é frouxa. Têm pessoas que chegam a ser presas até 30 vezes. A grande parte tem residência”, afirma.
Ele explica que tem que ser realizado um trabalho em conjunto, aglutinando segmentos do governo (saúde pública, assistência social, segurança pública). “Primeiro, assistência social; depois, saúde pública. Tem que haver suporte médico e psicológico. A responsabilidade de tudo cai sobre a PM. E não é só a PM que tem que cuidar desse sério problema”, diz.
Com relação à denúncia de tráfico de drogas, o comandante da 37ª CIPM diz que, onde tem morador de rua também pode ter traficante, mas alerta que estão sendo feitos serviços de monitoramento do local com fotos e filmagens, além de cadastro de pessoas. Ele destaca também a quantidade de suspeitos presos. “Na semana passada, por exemplo, fizemos a prisão de quatro traficantes, inclusive um com uma arma calibre40, de uso exclusivo das Forças Armadas. Só no ano passado tivemos 70 foragidos capturados na região”.
Na opinião do coronel, hoje, no Brasil, a maioridade penal e as penas teriam que ser revistas urgentemente, exemplificando que uma pessoa presa com arma de fogo é levada ao DP, paga fiança de um salário mínimo e responde em liberdade.
Ele relata que este mês será lançado o Programa Crack é Possível Vencer, numa parceria entre o governo federal e o Estado de Goiás, com investimentos de R$ 2 milhões. Serão implementadas mais duas viaturas, duas motos e um ônibus, sendo que o combate ao uso do crack será nos setores Central e Oeste.
Jussara Ferreira diz que os crimes ocorrem frequentemente, sendo dia ou noite
A costureira Delvani Ferreira Lima diz que moradores de rua não a incomodam
Audiência pública discute assunto
No mês passado foi realizada na Câmara de Vereadores uma audiência pública para discutir a segurança no Mercado Aberto (da Avenida Paraíba) e região, incluindo a Rua 70. Uma comissão foi montada para levar os interesses, sugestões e reclamações aos vereadores e representantes do órgãos públicos.
O advogado Arthur Pinheiro Barreto, representante da Comissão dos Síndicos, moradores e comerciantes locais, explica que entre as solicitações está segurança para a região, com a volta do efetivo do Cosme e Damião (policiais que andam juntos, a pé), além do apoio da Guarda Municipal para reforçar a presença da Polícia Militar.
O grupo reivindica, também, podas de árvores, reparo, manutenção e acréscimo das iluminações do Mercado Aberto e ruas das imediações, além de melhorias da área de cobertura; definição de horário para montagem e desmontagem das barracas e o trânsito de carrinhos. Outra solicitação dos moradores e comerciantes é o aumento de efetivo da Semas a fim de cadastrar moradores em situações de risco e buscar meios junto as suas famílias para proporcionar a eles tratamento contra álcool e drogas, e trazer mais segurança ao morador vítima de assalto.
O advogado explica que será montado um grupo junto com autoridades para se reunir uma vez por semana. Conforme a gerente do hospital, a audiência foi muito favorável , sendo que a Comurg iria até a Rua 70 realizar a poda das árvores, uma das reivindicações dos moradores.