O novo romance de Mario Vargas Llosa
Redação DM
Publicado em 15 de fevereiro de 2022 às 14:03 | Atualizado há 4 anos
O dia, mês e ano: 10 de dezembro de 2010. O relógio marcava 15 horas e 50 minutos. Naquele momento, uma plateia de 1.400 convidados assistia ao maior escritor vivo do mundo e, seguramente, um dos grandes autores da história da América Latina, receber, das mãos do rei da Suécia, a maior honraria que um homem das letras poderia em vida conseguir: o prêmio Nobel de Literatura. O escritor de que vos falo é simplesmente o meu autor predileto, Mario Vargas Llosa.
A academia sueca entendeu que o legado literário dele “[traça] a cartografia das estruturas de poder e suas imagens vigorosas da resistência, revolta e derrota individual.” É exatamente por causa dessa capacidade de denunciar regimes ditatoriais opressores e de se solidarizar com sofrimento dos oprimidos pelas ditaduras que a literatura do pai da bela Morgana Vargas Llosa foi laureado com o prêmio Nobel.
Quem se dispuser a fazer um pequeno tour em três de seus principais romances, perceberá com facilidade a preocupação do autor com as estruturas de poder e a maneira como essas estruturas agem no enfraquecimento da cidadania quando as ditaduras prosperam.
Esse foi o caso da “Festa do Bode”, nesse romance, a pena talentosa de Vargas Llosa denunciou os horrores da ditadura de Rafael Trujillo, então, ditador da República Dominicana. Em “O Sonho do Celta”, o incansável Vargas Llosa revela, a partir do principal personagem do romance, Sir Roger Casement, os abusos cometidos no Congo Belga, à época do rei Leopoldo da Bélgica. Em “Conversa na Catedral”, dois personagens dialogam sobre a situação política do Peru dos anos de 1950, procurando com essa conversa responder à pergunta instigante pela qual o autor começa o romance: “Por que o Peru se fodeu?”. Sim, no universo da literatura do autor da “Guerra do fim do mundo”, o indivíduo resiste, revolta-se, mas é derrotado.
Posto isso, falemos agora de “Tempos Ásperos”, o mais novo romance de um escritor que não para de produzir preciosidades literárias no auge dos seus 85 anos. A obra reforça o preço que pagou um país latino-americano, no caso a Guatemala, ante a um golpe de estado financiado pelos Estados Unidos, para conter a onda comunista que ameaçava o continente nos tempos da Guerra Fria. Nesse contexto, inclui-se o golpe liderado pelo general Augusto Pinochet no Chile e, de uma maneira mais branda, a queda do governo do presidente João Goulart. O ambiente um só — o da Guerra Fria entre as duas maiores potências do planeta. O inimigo a combater também era um só — a expansão comunista na América Latina.
Para contar essa história, o autor utiliza personagens reais que tiveram relevância nos acontecimentos históricos, mas também não deixou de ficcionar quando lacunas de suas pesquisas não foram completamente entendidas.
No caso da Guatemala, a derrota do presidente com preocupações democráticas, Jacobo Árbenz, e de sua esposa, Maria Cristina Vilanova (esta, uma mulher politizada com preocupações sociais), pode ser atribuída a uma mentira plantada pela CIA (órgão de inteligência do governo dos Estados Unidos), que passou a ser verdade: de que o governo Árbenz flertava com o comunismo soviético. Nesse sentido, como a América Latina se parece muito entre si, a história se repete na Guatemala tal como ocorreu na República Dominicana, com o golpe que levou Rafael Trujillo ao poder: um golpe, sempre um golpe apoiado pelo temor americano de expansão comunista na América Latina.
Em “Tempos Ásperos”, Vargas Llosa construiu narrativas (creio serem verdadeiras) em torno de um personagem que teve sua importância no romance “A festa do Bode”. Trata-se do homem de confiança de Trujillo com papel definido para torturar e eliminar os adversários do ditador. Falo do Coronel Abbis Garcia. Em “Tempos Ásperos”, esse fiel escudeiro do ditador da República Dominicana se envolveu nas questões internas da Guatemala. Ele foi um dos mentores do assassinato do fantoche dos Estados Unidos, então, presidente da Guatemala, Carlos Castilho Armas.
O sentimento da revolta que a personagem Urania tinha contra o pai em “Festa do Bode”, talvez, seja o mesmo sentimento contra a ira paterna da principal personagem feminina de “Tempos ásperos”. Falo da miss Guatemala (que nunca foi miss) Martita Parra, essa filha de um advogado de muito prestígio. No caso dessa última, ela se deixou seduzir, aos 15 anos, por um amigo próximo de seu progenitor. Grávida, o pai renegou a filha; e a filha, a criança.
A personagem cresce em importância no romance pelo fato de o novo presidente golpista por ela se apaixonar, fato que a torna uma pessoa influente no governo. Quanto à Urania, a rejeição dela para com pai se deve ao fato de ele, para agradar o ditador, ter consentido que a filha, ainda adolescente, fosse seduzida pelo ditador Rafael Trujillo. Bem, paremos aqui para, enfim, concluirmos.
“Tempos Ásperos”, escrito 11 anos após Mario Vargas Llosa ter sido laureado com o Nobel, só confirma que a academia sueca estava correta nos seus argumentos. Em se tratando de explorar a resistência e opressão do ser humano em estruturas de poder como são as ditaturas latino-americanas, ninguém superou, até os dias de hoje, a pena talentosa deste filho mais ilustre do Peru, o grande Mario Vargas Llosa!