Educação testou positivo pra covid-19
Redação DM
Publicado em 14 de fevereiro de 2022 às 15:26 | Atualizado há 4 anos
Uma nota técnica assinada e divulgada, na última terça-feira, 08/02/2022, pela ONG Todos pela Educação levantou uma questão muito preocupante para quem se interessa pelo sistema educacional brasileiro, bem assim, pelo seu aperfeiçoamento: com base em números da PNAD contínua, temos um aumento de 66% do número de crianças de 6 a 7 anos que não sabem ler e escrever. Segundo diretrizes nacionais, idealmente, com 7 anos completos, a criança já deve ter concluído o processo de alfabetização. Em números absolutos, e que, ainda assim, não traduzem com exatidão a realidade, são 2,4 milhões de crianças com idade que as habilita a lerem e escreverem, no entanto, que não foram formadas nem para uma coisa, nem para outra. É um fosso de desigualdades sociais, econômicas e intelectuais que se abre para o país e que se intensifica na medida em que as respostas da gestão pública não sejam satisfatórias, técnicas, eficientes e eficazes. Os percentuais também revelam desequilíbrios quantitativos na alfabetização de crianças pretas e pardas se comparadas às brancas, com prejuízos maiores àquelas; e demonstram que crianças residentes em lares pobres foram dramaticamente mais afetadas neste processo que as criadas em lares abastados. Um truísmo, convenhamos!Esse contexto insculpido no relatório evidencia quão grave foi o acometimento do organismo da educação brasileira pela covid-19. É claro que há sobre o momento um sobrepeso circunstancial, dada a inesperada pandemia. Contudo, esse diagnóstico não é pontual e expõe fraturas estruturais abertas muito antes da pandemia. Expõe, também, que o sistema de ensino remoto não se mostrou efetivo e nem democrático, posto que a maior parte das crianças sequer tiveram direito à fruição de uma internet de qualidade. Como dado empírico, minha mãe é professora de CMEI no interior do estado e em função disto pude enxergar, sem lentes de aumento, mas com o privilégio de não estar apenas no campo das suposições teóricas, a lastimação que foi alfabetizar crianças via aplicativo de mensagens instantâneas. Demais disso, em dezembro de 2021, o Banco Mundial lançou o documento “The State of the Global Education Crisis: A Path to Recovery” (O Estado da Crise Global da Educação: um Caminho para a Recuperação) apontando que a paralisação das aulas além de gerarem déficits cognitivos já no curto prazo, implicam também em perda de renda de toda essa geração ao longo da vida. Estima-se que crianças e jovens, afetados por este momento histórico, possam perder US$ 17 trilhões no decorrer de suas trajetórias. Aproximadamente, 14% do atual PIB mundial. É uma solapada de empobrecimento global impressionante. Pois bem, a realidade nos provoca ao senso de urgência, e qual a saída? Como todo problema complexo, não há uma resposta simples. Dito isto, tenho pinçado daqui e dacolá prognósticos que encarnem o tema de uma forma holística e, portanto, na minha compreensão, mais confiável. Recentemente, busquei alguns estudos produzidos por outra instituição especializada, o Vozes da Educação, para conhecer alguns imperativos à superação desta fase crítica. 1) A garantia da abertura urgente e segura das escolas, assegurando a segurança alimentar das crianças; 2) A promoção de uma busca ativa de estudantes para fazer frente à impressionante evasão escolar multicausal;3) O investimento em avaliação e monitoramento para, a partir disso, promover a recomposição das aprendizagens; 4) Investimento em acolhimento e rede de apoio psicossocial para professoras, servidoras e estudantes. Acima, estão elencadas noções do que pode ser feito e como. Porém, o desafio só pode ser enfrentado de maneira colaborativa e em rede. Há que se intensificar a relação entre os entes federados, especialmente, para dar guarida aos municípios, que são responsáveis por 80% das matrículas do ensino fundamental no país. Isolados, estes entes locais não conseguirão combater o caos. O trabalho, naturalmente, é árduo e requer seriedade e preparo das(os) ocupantes do poder. Lembremos-nos, todos, 2022 é um ano crucial para reivindicar esses atributos através do exercício consciente e atento do direito ao voto! Precisamos de compromisso! Atentem-se a isso!