Emedebistas acusam traição em projeto de Mendanha
Redação DM
Publicado em 26 de agosto de 2021 às 08:09 | Atualizado há 2 anos
Um rompimento entre os emedebistas Gustavo Mendanha e Daniel Vilela nunca esteve tão próximo, apostam deputados e vereadores consultados pelo “DM”.
Nos bastidores, a leitura é de mais uma vez a “vida imita a arte”, aos moldes de “Hamlet”, de Shakespeare, em que na “mesma família” há traição e morte pelo poder.
Na peça antológica da literatura universal, o princípe Hamlet é assediado após a morte do pai, vítima do irmão Claudius.
Nesta semana, na quarta-feira, 26, o atual prefeito de Aparecida de Goiânia chegou a visitar a cúpula emedebista nacional sem a presença de Daniel, que dirige o partido em Goiás.
O encontro com o ex-presidente Michel Temer e o presidente nacional do MDB, deputado federal Baleia Rossi, acendeu uma luz vermelha: Mendanha estaria tentando apoio para sua candidatura ao governo de Goiás fora do estado. Mais silencioso e disposto a ouvir os grupos internos, Daniel tem construído um perfil de líder fiel ao que o conjunto do MDB delibera e deseja fazer. No primeiro semestre, por exemplo, causou espanto quando o presidente do MDB e seguidores optaram em abandonar a gestão de Rogério Cruz (Republicano), em Goiânia. Foi uma atitude de princípios.
O prefeito de Aparecida não tem apoio do MDB goiano para seu projeto. O líder maior da legenda, ex-governador Iris Rezende, já declarou apoio a Caiado ainda em 2020.
Na segunda-feira, 23, vereadores de Goiânia assinaram carta e endossaram apoio para que se efetive a aliança com o governador. Um mês antes, todos prefeitos do MDB – fora Gustavo Mendanha – fizeram o mesmo.
Entreatos, o movimento tributário ao DEM ocorre ainda no interior, com emedebistas de diversos grupos que hipotecam apoio ao indicativo atual: aliança para que o MDB seja vice ou tenha candidato ao Senado apoiado pelo governador.
Por isso, dentre emedebistas cresce o uso da expressão “traição” para descrever os avanços de Mendanha junto ao PSDB marconista – grupo que duelou e massacrou o MDB por mais de 20 anos – e sua rebeldia em andar de forma contrária ao MDB.
Em “O Popular”, nesta quinta-feira, 26, Daniel disse o que espera de Mendanha, jovem que, como ele, não existiria como tal sem seu pai, o ex-prefeito de Aparecida, Maguito Vilela: “Espero espírito público e honestidade política e não narrativa falsa”.
Para o grupo vilelista e irista, Gustavo não tem forças e seguidores dentro do MDB, o que facilitaria sua saída. Se ficar, precisa entrar na fila, como é de hábito. O grupo lamenta a possível perda, mas não faz dramas, já que entende que a saída será infrutífera, uma vez que alianças com PT ou Marconi Perillo tendem a sofrer desgastes no andar da campanha. Os emedebistas julgam os atos do prefeito rebelde: o palco da eleição poderá pautar, como a peça de Shakespeare, a traição, a moralidade e a corrupção.
“É muito jovem e sabe muito bem que chegaria sua vez. Infelizmente, parece agora um peixe fora d´água. Lamentamos muito”, diz um dos emedebistas consultados pelo “DM”. Eles afirmaram ao jornal que a legenda prepara uma resposta aos “movimentos inesperados”. Após a morte do pai Leo Mendanha, ex-deputado e emedebista histórico, e do ex-governador Maguito Vilela, que permitiu Mendanha chegar ao cargo de prefeito, o gestor de Aparecida teria se afastado do partido, já que perdeu suas referências na sigla.
Para a ampla maioria dos vilelistas, o candidato natural do grupo é Daniel Vilela, que disputou e perdeu as eleições em 2018. Está sem mandato e pode percorrer o Estado. E hoje seria uma referência estadual da legenda. Para a corrente majoritária, caberia a ele liderar os debates sobre que rumos deve seguir o MDB e não Mendanha, que teria ainda a obrigação de manter o bom trabalho deixado por Maguito Vilela em Aparecida de Goiânia, exatamente para não prejudicar o portfólio do MDB.
A fonte emedebista diz que a “traição que se anuncia pode tornar-se grande novela, caso Mendanha seja mesmo candidato”. Para o emedebista, a perplexidade das pessoas mais próximas de Daniel Vilela pode ser reproduzida em larga escala e chegar ao eleitorado. “Existe uma questão de honra e lealdade pairando no ar. Esses movimentos dele deixam Daniel constrangido”, diz um vereador, que aposta que Gustavo Mendanha ficará dentro do partido. “Vou na contramão: aposto que ele entenderá o cenário ficará para apoiar Caiado. E aplaudirá quando chegar a vez de Daniel”.

Naturalidade
Gustavo Mendanha afirma que tem o direito de pleitear a disputa e que ele seria o único nome da oposição. Ele tem intensificado os contatos na legenda após perceber que o tempo para articular dentro do MDB reduziu ainda mais. Na última sexta-feira, 20, o governador Ronaldo Caiado fez um convite formal e público para que a legenda participe de sua chapa majoritária. De forma inédita, sem encontros às escondidas, DEM e MDB ficaram de pensar e consultar filiados. A aliança ainda não é certeza, mas o protagonista pediu a mão da noiva em casamento de forma protocolar.
Mendanha diz que o encontro com os emedebistas nacionais foi pautado pelas eleições em Goiás, sim, mas sobretudo para acompanhar o lançamento do projeto “Todos por um só Brasil”, documento do MDB que deve nortear a legenda em 2022.
“Espero espírito público e honestidade política e não narrativa falsa”. Daniel Vilela
A história está posta em um ‘spoiler’: Claudius (o tio) morre. Hamlet também. O resto é silêncio. Para Goiás, o conflito inevitável poderia ser suspenso. Para o bem público.