Brasil

Relato de casos reais

Redação DM

Publicado em 7 de janeiro de 2016 às 22:17 | Atualizado há 11 anos

“Do infame, todos temem fazer queixa, pois o que quer que digam, o poder é próprio da baixeza”

(W. Goethe, escritor alemão)

 

Neste  artigo vou analisar como os governos produzem situações médico-hospitalares diferentes entre três pacientes, com idade e doenças semelhantes. Apesar de praticamente iguais, eles recebem cuidados médico-hospitalares completamente diferentes, de acordo com o local onde são atendidos, seja em um hospital conveniado com plano de saúde (situação 1), seja numa Unidade de Emergência do SUS (situação 2), seja num hospital particular (situação 3).

Situação 1- Marcos, 11 anos, apresentou febre, diarreia, vômitos, desidratação. Por causa da desidratação e vômitos, perdeu sódio, cloro, potássio, ficou  meio confuso e teve câimbras. Foi internado em um hospital de pequeno/médio portes, via plano de saúde. Foi atendido por um médico emergencista, plantonista, que a família exigiu ser pediatra (ele era). Ao chegar ao hospital, Marcos estava “molezinho”, a mãe já fez meio que um escândalo, ele foi atendido na hora (não por causa do escândalo). O médico tentou tranquilizar a mãe, mostrando-se seguro, dando injeções, passando um soro para reposição hidreletrolítica. Passava, preocupado, a toda hora no leito do garoto para ver como ele estava. Mesmo assim os pais de Marcos “não estavam satisfeitos”. Pediram que se fizesse um punhado de “exames de sangue” (a mãe era farmacêutica, já havia trabalhado em Governo municipal do interior). O hospital começou a ficar em maus-lençóis porque, sendo pequeno, seu serviço laboratorial era feito por uma firma externa, terceirizada, e, como era feriado, esta firma passava e recolhia o material biológico apenas uma vez por dia. Quando Marcos teve uma mioclonia (câimbra) mais forte, a mãe, desesperou-se, mesmo o médico dizendo que não havia nada com que se preocupar, que esta situação era corriqueira, que ele tinha tido câimbras mais fortes e mais frequentes quando estava em casa, portanto estava melhorando. A mãe, então, passou a exigir uma ressonância magnética do crânio para investigar o cérebro do filho (“por causa das convulsões” – mioclonias). Disse que se não fosse feito isto, iria procurar seus direitos, denunciar para promotores, vigilância sanitária, botar a boca no trombone para a imprensa, etc. Nervosa, começou a  questionar se o hospital não era  mesmo uma “espelunca”, se tinha farmacêuticos em número e frequência adequados, nutricionistas, enfermeiros-padrão, etc (“aposto que eles não tem isso aqui, disse para o marido”). Como era farmacêutica, já tendo trabalhado na vigilância em saúde de seu município, ela entende de normas, leis, resoluções, e passa a aporrinhar o médico e a administração do hospital, mesmo com o filho melhorando. Dizia: “Mas e se ele estiver com um problema no cérebro dele, uma meningite, encefalite, dando convulsões por causa disso?” O pediatra,  então, comunica ao diretor-médico do hospital e este, junto com o administrador vão conversar com ela. Eles lhe dizem: “Senhora, sabe quanto recebemos do plano para este tipo de atendimento?” A mãe retruca: “Se vocês não têm recursos, então não deveriam ter-se estabelecido; essa “desassistência” de vocês é caso de denúncia legal , profissional.”

Os diretores médico e administrativo saem, veem que não há muito o que fazer. O diretor-médico comenta com o administrativo: “Você quer saber de uma coisa? – A gente deveria é fazer como o pessoal desonesto mesmo: pedir um punhado de exames e procedimentos desnecessários, faturar do convênio, ganhar dinheiro e virar um grande hospital. Aí teríamos tudo que ela quer. Do contrário, vamos desaparecer, como dezenas de outros estão desaparecendo Brasil afora, vergados sob tantas exigências.”

Situação 2 – Jean, 13 anos, vômitos, diarreia, prostrado, febril, sonolento (obnubilação de consciência por causa da desidratação e perdas de eletrólitos). Está esperando atendimento na Unidade de Emergência do Governo  há quase duas horas. Depois de atendido, por um clínico geral, não-pediatra, recém-formado, foi visto apenas  mais uma vez nas próximas 24 horas. Não há  leitos disponíveis – dizem que é por causa da dengue – fica numa cadeira, num corredor, e depois o colocam numa maca, quando ele fica muito pálido e parece desfalecer. Ao lado dele, um senhor está num colchão no chão, após ter caído da maca. A mãe se conforma: “No Governo é assim mesmo, e não adianta reclamar.” Se for na TV (mais uma matéria como inúmeras outras), ou gerar um processo, dificilmente dá em alguma coisa. Diga-se de passagem que praticamente nenhuma exigência governamental cobrada na situação 1 é cobrada aqui neste hospital do Governo. Aplica-se aqui, perfeitamente, a frase de Goethe colocada no frontispício deste artigo.

As situações médico-hospitalares acima são auto-explicativas, mas ainda falta a situação no hospital particular, que irei deixar para o próximo artigo, no  domingo agora (dia 10.1.16, disponível em dmdigital.com.br), onde também comentarei estas situações.

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra)


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