Brasil

Uma luz na história 

Redação DM

Publicado em 6 de janeiro de 2016 às 23:16 | Atualizado há 10 anos

Foram mais de 20 anos de pesquisas sobre o advento de Brasília, notadamente desde o início de sua construção, que a escritora gaúcha Nina Tubino (brasiliense de coração) dedicou para ver concretizado o livro “Uma Luz na História”. Um fato marcante pelo seu valor como documento de grande valia para o País e para Goiás em particular, que tem na obra vários nomes registrados.

Entretanto, alguns goianos foram olvidados na obra. Daí, como já revelamos no artigo anterior, vamos mencioná-los.

Como é do conhecimento geral, o prócer político João D’Abreu foi quem pronunciou o famoso discurso na Assembleia Constituinte de 1946, tirando a Nação da letargia em que se encentrava, até então, sobre a mudança de Capital de Brasil para o Planalto Central.

O discurso em todo o seu conteúdo, teremos a oportunidade de publicá-lo assim como a participação de outros goianos na epopeia de Brasília.

Por ora, focalizamos duas correspondências enviadas ao deputado João D’Abreu por dois brasileiros de grande expressão cultural e politica daqueles dias: Hastimphilo de Moura (escritor) e M. A Teixeira de Freitas (presidente do IBGE):

Rio de Janeiro, 1° de dezembro de 1946.

Excelentíssimo Senhor,

deputado doutor João d’Abreu.

Atenciosas saudações.

Toda manifestação de pensamento, emoldurada por estilo e fraseado a que inteligência projeta tonalidades culturais, exerce sugestivo poder de atração em meu espírito, inclinado a assimilar matéria que desperte e estimule tudo quando induza a gesto de patriotismo.

São traçadas estas linhas sob magnífica impressão recebida da leitura do notável discurso pronunciado na Assembleia Constituinte pelo ilustre representante de Goiaz, doutor João d’Abreu, a quem, de início, agradeço, sensibilizado, dedicatória com que me distinguiu na oferta do impresso contendo brilhante peça oratória.

Problema de incomensurável alcance político-social deve ser resolvido com presteza e exatidão, exigidas pelo acelerado progresso do Brasil em ritmado avanço para apogeu.

Situação de único sobrevivente da comissão de exploração, demarcação e de estudos da zona do Planalto Central, onde deverá ser exigida Nova Capital, deu margem a que, sobre modesto servidor da Pátria, convergissem generosas atenções de brilhante guia do povo, ao abordarem de novo palpitante matéria de incontestável magnitude.

Confesso-lhe que me sinto desvanecido por me não deixarem – homem de destacada atuação política no Parlamento – imerso na penumbra crepuscular da existência, onde me embale doce recordação de haver cooperado com profícua atividade, inteligência e abnegação para honesta solução do sedutor problema, que constituirá marco inconfundível de transição, no presente, entre o passado estabilizado e o futuro empreendedor.

Li com interesse reclamado pela grandiosidade do projeto em discussão e reli com atenção imposta pelo alto valor de seu magnifico discurso pronunciado pelo brilhante representante do povo goiano, que me deixou funda impressão pela elevada apreciação do tema, lógica argumentação baseada em fatos concretos fixados por estudos de técnicos imparciais, conclusão irretorquível, deduzidas em premissas positivas.

Quem, como eu, conheci de perto características fundamentais do problema em equação, para acertada solução do qual trabalhei com entusiasmo, percorrendo toda a zona, em estudos, explorações, levantamentos, nivelamentos, demarcações geodésicas da área preestabelecida, dentro do qual deveria ser erigida moderna na cidade, durante uns três anos de permanência no planalto, que proporcionaram observações meteorológicas, oscilações hidrográficas, conjunto enfim de elementos imprescindíveis á vida intensa de população densa, não pode deixar de aplaudir com entusiasmo, como de presente o faço, eloquentes palavras que o focalizam no ponto culminante, sem intuito outro que o de homenagear verdade.

Por isso, calorosas congratulações dirigem, não sei ao bem a quem mais acertadamente, se ao brilhante parlamentar doutor João d’Abreu ou se à própria nação que em boa hora o escolheu para o legítimo representante.

O que lhe eu posso assegurar, eminente deputado de Goiás, é que do povo desse privilegiado Estado, em cujo demorado convívio me mantive, em cidades, residências, chapadões, barracas, conservo indelével a saudosa recordação, que esta minha última etapa da existência se não apagou.

E não quero encerrar a presente divulgação, já um pouco dilatada, sem conhecimento lhe dar do último período de carta recentemente dirigida ao laureado escritor doutor Gastão Cruls, a propósito de seu patrocínio empreendimento da reedição do Relatório da Comissão do Planalto, apresentado ao governo da Republica naquela fase de transcendentais iniciativas, pelo sábio e inconfundível chefe, doutor Luis Cruls, a seguir:

“Fixação do novo local, fora dos limites traçados pela demarcação geodésica, deturpando ideias contidas em manifestações de mentalidades superiores, articuladas sobre interessante assunto, imporá ao Brasil, para todo porvir, uma capital em inferioridade de condições e não conquistará para quem a sensacionar, gratidão da posteridade.”

Agradecendo-lhe ainda uma vez, gentileza de oferta, peço-lhe aceitar protestos de alta distinção e grande apreço.

HASTIMPHILO DE MOURA

P.S. – Acompanha esta carta o livro “Da primeira à segunda República”, de autoria do signatário, onde encontrará se o não enfastiar leitura, referências a Goiás e ao Planalto Central.

Em 15 de junho de 1946.

Ilustre Patrício,

deputado João d’Abreu,

Atenciosas saudações.

Permita-me que exprima a Vossa Excelência as mais vivas congratulações pelo brilhante discurso proferido na Assembleia Constituinte, no dia 6 do corrente, a propósito do momento o problema da mudança da Capital Federal. Convencido que estou a longos anos, da imperiosa necessidade de que se proceda a essa transferência, em benefício dos altos interesses do país, tenho procurado, em diferentes oportunidades, contribuir, obscura, mas sinceramente, para a vitória da ideia. Encontro assim motivo para franco regozijo cívico nas eloquentes manifestações que ora se fazem ouvir, no parlamento e na imprensa em prol do belo projeto que, até bem pouco, era considerado uma simples utopia, embora a favor dele também se tivessem pronunciado, em dias idos, grandes figuras de estadistas e patriotas, das maiores que o Brasil tem conhecido.

Com efeito. É fácil ver, através de tão claros indícios, que a ideia continha em si força suficiente para impor-se à indiferença de uns e ao ceticismo de outros, de modo a abrir vitoriosamente o seu caminho até converter-se na esplendido realidade que todos desejamos. As próprias contingências dos dias que vivemos, eriçados de dificuldades de toda sorte, sobre tudo quanto ao abastecimento da população metropolitana, vêm contribuindo para acentuar a justa impressão de que o Rio de Janeiro já cumpriu a sua missão história de capital do Brasil, impondo-se, quanto antes, a correção do erro secular, com a transferência da sede do Governo para o interior do País, em termos que assegurem simultaneamente, duas grandes vantagens. Primeiro a de resguardá-la o mais possível de ataques diretos de eventuais inimigos e, até, de subversões da ordem, estimuladas por agressões do Exterior, segundo, a de permitir-lhe que exerça pro igual, sobre o corpo inteiro do país, as funções que lhe devem caber, em relação ao território nacional.

É verdade que, no tocante à primeira dessas vantagens, se pode objetar, com certa razão, que em face das modernas conquistas da arte bélica e dos crescentes progressos da aeronáutica, o seu significado se vê de muito reduzido, em confrontos com o que era dantes. As mais lições da historia, todavia, não são de ordem a que a consideramos de todo eliminada.

Aí está exemplo de Moscou. Colocada em parte bem central do imenso território russo, a histórica cidade foi difícil e precariamente atingida pelo maior gênio militar da história, quando os recursos da guerra ainda não haviam conseguido o grau de eficiência que hoje os caracteriza; mas, diretamente visada pelo poderio da máquina de guerra alemã, quando essa eficiência já alcançara limites tão altos, pode, ainda assim, a salvo de ocupação, servir de sede aos órgãos dirigentes das Repúblicas Soviéticas, no Formidável esforço de defesa com que barraram as investidas da nação agressora. Quanto à segunda vantagem, de tal sorte me parece óbvia, que seria escusado referi-la. Entretanto, hei de aludir a ela no decorrer destas breves considerações, que formulo apenas na qualidade de brasileiro e cidadão, sinceramente desejoso de ver o progresso e a felicidade de seu país.

E se reconhecemos pela ideia da mudança da capital já amadureceu e encontra, atualmente, profunda ressonância em todos os espíritos, parece mais do que certo aos ilustres constituintes de 1946 cabe o papel histórico de dar o passo decisivo para a execução do projeto, estabelecendo na carta Constitucional o prazo exato em que se deva verificar a sua concretização e fixando, em termos definitivos, o local destinado a servir de nova sede ao governo da República.

É, sobretudo quando ao segundo ponto que desejo exprimir a vossa excelência os meus aplausos mais calorosos de considerações expendidas, na tribuna da Assembleia Constituinte, em favor do prevalecimento das razões que determinaram a escolha do Planalto Central de Goiás, tal como estava previsto, sabiamente, na constituição de 1891.

Acompanhando com vivo interesse todos os debates em torno do assunto, e as contribuições oferecidas ao seu esclarecimento, dispensei a merecida atenção às ideias expostas, em discurso e em entrevista à imprensa, pelo meu ilustre amigo, deputado Daniel de Carvalho – no sentido de que muito recomenda a competência do autor, pelo senso de objetividade com que procura demonstrar a sua tese.

Embora não pretenda, nesta oportunidade, estender demasiado as considerações que o problema me sugere, sinto-me inclinado, todavia, a acentuar que, a meu ver, a razão, no caso, está com Vossa Excelência, quando advoga a manutenção do critério de escolha consagrado na Carta de 91 e ratificando pelo parecer da comissão Exploradora sob a chefia do professor Luiz Cruls.

E por que assim me parece?

Porque acredito que a transferência da capital se destina, sobretudo, a dar um impulso decisivo à interiorização de nossas forças civilizadoras levando à hinterlândia brasileira, quase inteiramente desaparecida e desamparada, a ação de presença do Poder Central, localizado até agora em área periférica, por um erro explicável no seu tempo e em face das contingências históricas, mas que à nossa geração incumbe corrigir. A escolha do local já demarcado perto da cidade de Formosa parece-me, vários títulos, felicíssima. Esse local está como já foi dito, noutra oportunidade, “no que se poderá se chamar o centro de gravidade do mapa politico do Brasil, que é fisiograficamente, também um ponto simbólico, pois dele fluem as águas que se vão repartir pelas três grandes bacias brasileiras a franciscana, a do Tocantins-Amazonas e a Platina. Situa-se em um planalto maravilhoso pelo clima, pela irrigação, pela beleza das paisagens, pelas possibilidades de turismos, pela riqueza das terras (campos, florestas, áreas de cultura). Está no local mais protegido do território nacional quanto à possibilidade de uma agressão aérea ou terrestre. E a metrópole ali situada facilmente poderá ligar-se a todas as Unidades de vida nacional, mediante influencia a uniforme sobre toda a extensão do território brasileiro – de norte a sul e de leste a Oeste”. Trata-se, portanto, de um local mais ou menos equidistante, em relação aos pontos extremos das fronteiras do País. Situando-se nele, a metrópole poderá preencher, em benefício do Brasil total, a sua função propulsora, como fulcro de progresso e civilização. Agirá ao demais. Como fiel de balança, verdadeiro fator de unidade, e coesão nacional. Será realmente, a capital do Brasil, o cérebro e o coração da grande Pátria, mas cuja integração geográfica ainda não conseguiu dar o necessário significado, em termos de valência econômica e social.

O deslocamento que se pretende, com a localização da metrópole no Triângulo Mineiro, importaria, de certo modo, em elidir esse objetivo; estaríamos levando o governo da República quase para o centro do Brasil Meridional, não para o centro do Brasil. O centripetíssimo que caracteriza a função das metrópoles haveria de exercer-se em proveito de uma região já de certa maneira privilegiada por condições geográficas e históricas bem mais favoráveis do que aquelas peculiares, ainda agora, aos “de sertões” do Brasil interior. A sua ação catalítica manifestar-se-ia em proveito próprio, e não em beneficio do país, considerado como um todo, e a exigir, por isso mesmo, cuidados especiais e mais atentas vigilância, da parte do Poder Público, justamente em relação às áreas onde mais desfavoráveis se apresentam as condições de vida e onde o homem brasileiro ainda não pode usufruir uma existência digna e feliz.

Sob certos aspectos, a transferência da capital não há de ser um simples imperativo de poderosas razões políticas e administrativas. Para atingir integralmente todos os objetivos que a valorização, a ideia precisa e deve ser encarada, também, em termos de solidariedade nacional. Tanto quanto possível, a transferência pelo Planalto Central de Goiás entende a esse objetivo, uma vez que a área nele reservada ao futuro Distrito Federal se situa no paralelo que conta pelo meio o mapa do Brasil. E haverá razões suficientemente poderosas que nos levem a concluir pela contraindicação do local escolhido, atentas suas condições e recursos naturais? Tenho para mim que não. Estou sinceramente convencido de que todos os argumentos até agora invocados contra a localização da capital no ponto previsto na Carta de 91 servem, exatamente, para demonstrar o acerto e a felicidade da escolha.

Numa época que já se convencionou chamar de “Idade Atômica”, evidentemente não será fácil ao espírito humano prever a importância que a energia hidráulica ainda poderá ter, no futuro, em relação ao progresso dos aglomerados sociais. Toda via, quer-me parecer que uma das razões fundamentais para que se prefira o local escolhido no Planalto Central é, exatamente, não ser ele o mais indicado, sob esse aspecto, a favorecer uma alta industrialização. Do contrário, muitos dos objetivos a que se procura atender com a mudança da capital, estariam prejudicados “in limine”.

Com efeito: que se pretende, com essa mudança? Que a sede Governo da República fique situada, em condições de segurança – se não absoluta, pelo menos relativas – em local tranquilo, tanto quanto possível a igual distância dos pontos extremos do território nacional, para que a ação dirigente se processe em termos equânimes quanto às diferentes regiões do país e não tenha afetá-la a pressão de certos fatores prejudiciais ao encaminhamento em moldes amplos, dos problemas nacionais, tantas vezes confundidos, atualmente, com os que são características e especificamente locais, isto é, do Distrito Federal. Ora basta, para tanto, que a localização se faça uma cidade higiênica, de bom clima, com recursos bastante para permitir a instalação dos vários órgãos do Governo da União e das representações estrangeiras, e que possa ter um bom sistema de comunicações interiores com todas as unidades da Federação.

Prever, de logo, condições favoráveis a um rápido surto de industrialização, importa no sacrifício, “a priori”, das condições de tranquilidade que se fazem necessárias, para que a atuação dos conselhos governamentais se revista da segurança e isenção imprescindíveis. Lembraria aqui, ainda uma vez, o exemplo de Wa-    shington, que me parece típico. Guardando-se as devidas proporções, tudo o que nos cabe desejar é que a nossa metrópole, na sua expressão demográfica e econômica, esteja para o Brasil assim como aquela cidade para os Estados Unidos. E não tenho dúvida de que o poderoso estímulo irradiado na capital há de fazer-se sentir intensamente, já agora do centro para a periferia, beneficiando, por igual, todo o país, inclusive a promissora região do Triângulo Mineiro, que, por lhe estar mais próxima e dispor de condições naturais tão favoráveis a um brilhante surto econômico, há de converter-se, necessariamente, em um dos mais poderosos pontos de apoio para esse maravilhoso esforço de penetração das forças civilizadoras a que o patriotismo nos convoca.

Roubando o precioso tempo de Vossa Excelência com essas despretensiosas considerações, faço-o, sobretudo, para significar-lhe a grata convicção em que estou de que, meditando sobre o problema, não terão dúvida em formar ao lado dos que advogam o ponto de vista dos constituintes de 1891 todos os ilustres brasileiros que se vêm manifestando, atualmente, em favor de outro critério, na escolha do local para nova metrópole. E sob a inspiração de seu patriotismo, assegurarão a unanimidade necessária, para que o projeto se concretize a breve prazo, como o estão exigindo, agora mais do que nunca, os supremos interesses do Brasil.

Reiterando a Vossa Excelência as expressões do meu alto apreço e cordial admiração, subscrevendo-me,

Atenciosamente,

(Compatr. Atº e obrgº. As.) M. A TEIXEIRA DE FREITAS Em tempo: Essas correspondências enaltecendo o feito do deputado João D’Abreu em proferir o seu épico discurso na Assembleia Constituinte de 1946 são apenas uma mostra da imensidão de congratulações de que foi alvo o politico de Arraiais.

A ressonância da fala do deputado João D’Abreu atingiu o Brasil de Norte ao Sul. Tal resplandecimento político-cultural e histórico enche de júbilo a todos os goianos de bom alvitre as pessoas aficionadas no grande passo dado pelo Brasil igual seja a mudança de Capital de República para o interior, afortunadamente, para nós, em plagas goianas.

Logo publicaremos o discurso do Constituinte João D’Abreu sobre a mudança da Capital.

 

(Walter Menezes, presidente, conselheiro permanente da Associação Goiana de Imprensa e diretor do Jornal de Cultura Goiana)

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