Ele deve viver
Redação DM
Publicado em 6 de janeiro de 2016 às 22:53 | Atualizado há 10 anos
Numa pequena cidade do interior do Paraná – conta-me o amigo Geraldo Siqueira, que um lavrador acompanhado de seu filho de seis nos, depois de haver feito as compras necessárias e antes de voltar para a sua casa, entrou num boteco e pediu uma dose de aguardente, e quando a bebia, foi covardemente atacado por um homem armado de facão que, com esta arma, o eliminou, diante da criança que desmaiava, estuporada, sendo depois conduzida para a sua mãe, agora viúva e pobre, de filho órfão.
Dias depois corria na pequena cidade a notícia de que o assassino era pistoleiro profissional e, contratado que fora por rico fazendeiro para dar cabo de alguém, o fez, mas… com a pessoa errada.
O menino que assistira aquela cena de violência e maldade, daquela data em diante nunca mais sorriu e jamais foi feliz; crescia traumatizado e arredio, pálido e muito doente. Era agora um jovem introvertido incapaz de confiar em alguém, mas sendo muito trabalhador e honesto, casou-se com excelente moça que passou a felicitá-lo um pouco com a bênção dos filhos e da sua dedicação.
Quando andava pelas ruas da cidadezinha, ou onde quer que estivesse tinha o hábito de observar atenta e discretamente todas as pessoas, como se estivesse a procurar… alguém.
Nunca falara a quem quer que fosse das suas pretensões mais intimas. Nem mesmo à esposa. Aliás, jamais tocara no assunto da morte de seu pai com pessoa alguma. Mas sempre quando ouvia alguma alusão ao nome do pistoleiro, discretamente, sem que ninguém o percebesse, saía a procurá-lo; mas acontecia de não o encontrar, no local onde fora visto por terceiros.
Dezesseis anos após o trágico incidente, já com 24 anos de idade, o moço estava numa barbearia da cidade, fazendo a barba, quando viu, pelo espelho do salão, o vulto do homem atravessar a rua e entrar no mesmo boteco em que, a mais de três lustros, fora palco do pavoroso crime; o rapaz pediu licença ao barbeiro, pagou-o e caminhou ao encontro do antigo adversário, que se achava acotovelado ao balcão, bebendo um gole de pinga no mesmo lugar onde seu pai fora atingindo por aquele desalmado e, com educação, procurando não enganar de pessoa, indagou ao pistoleiro, apoiando-se também no balcão:
– Desculpe-me, senhor… Mas, acaso, não nos conhecemos?
– Pode ser… Ando muito…
– Pode me dizer o seu nome? Foi a pergunta do jovem.
– João Polidoro da Cunha.
– Ah! Exclamou o moço. – É o senhor mesmo!… Acaso, lembra-se de mim?
– De onde?
– Daqui mesmo, deste bar, e neste mesmo lugar onde estamos… Há 16 anos, quando, com um facão, e atacando pelas costas, o senhor matava um homem?
– Lembro-me do fato, apenas… Respondeu o criminoso, desconfiado e surpreso.
– Não se lembra, também, de um garoto que estava bem ali, quase na ponta deste balcão?
– Não sei…
– Pois saiba que a criança era eu; e o homem, ferido fatalmente, era o meu pai…
O homem tentou retirar a arma que sempre trazia à cintura, mas foi impedido pelo moço que, com a mão esquerda, reteve o seu punho, retirando por sua vez, com a mão direita, a arma que conduzia, e disse ao pistoleiro:
– Eu não acreditava quando diziam que “o criminoso sempre retorna ao local do crime”. Vejo agora que isto é verdade. E no mesmo local em que você tirou a vida de meu pai, você perderá a sua. Só que não será abordado pelas costas, à traição, como fez com o meu pobre pai. Você conheceu o rosto do homem que o procurou durante 16 anos para se libertar de uma lembrança terrível, que era todo um inferno…
– Não! Gritou alguém que penetrava o recinto, ajuntando-se aos contendores…
Era o filho de seis anos do jovem agressor.
– Não, meu pai! Não faça isso com ele!
– Por que não, filho?
– Eu não quero guardar pela vida afora a imagem de meu pai cometendo um crime.
Dizendo isto, o garoto caminhou instintivamente para a ponta do balcão, ficando no mesmo lugar onde ele, o vingador, se postara há 16 anos, quando ocorrera o drama.
– Mas, filho, ele é um criminoso! Explicou o rapaz.
– Por isso mesmo ele deve viver, papai.
O genitor do garotinho, vendo-o ali, recordou vivamente o instante da tragédia e, num átimo, reviveu a extensão do sofrimento por que passara, ao assistir ao antigo crime e, para que o filho não guardasse a lembrança de uma cena brutal, meditou nas palavras espontâneas dele, e compreendeu o suficiente, falando ao criminoso:
– Sabe, a criança tem razão: você merece o nosso perdão e deve permanecer livre, para viver…
E arrematou, retirando-se do bar, conduzindo o seu filho:
– Porque não existe sofrimento maior do que viver muito, arrastando uma consciência culpada…
Sim! Todo aquele que nos odeia, nos fere, nos prejudica e nos faz todo mal sem conta, ao invés de merecer a nossa vingança, é credor da nossa piedade, do nosso respeito e do nosso perdão; da nossa piedade porque, sendo ele detentor, ainda, de tantos sentimentos inferiores, naturalmente é um enfermo moral, uma criatura inculta e, portanto, muito sofredora; deverá aprender, pelos caminhos da existência, defrontando dores e provações, a respeitar o semelhante assim como ele deseja respeito para si próprio, a amar – assim como anseia ser por todos amado; é merecedor da nossa piedade também porque se trata de um cego de entendimento, debatendo-se nas trevas de si mesmo; é credor do nosso respeito, por estar em condição moral inferior a nós outros, os que, graças a Deus, já fomos enriquecidos com as luzes do raciocínio sério e mais profundo em torno das coisas do espirito; merece o nosso respeito porque é uma criança em compreensão, intensamente atado, ainda, às correntes do orgulho da vaidade e demais imperfeições; e assim como respeitamos a criança, pela sua falta de desenvoltura mental e física, igualmente devemos-lhe paciência e tolerância, por lhe faltar a maturidade moral; e perdão, porque também nós estamos endividados com a nossa consciência com Deus e com o próximo, e carentes portanto, do perdão daqueles a quem prejudicamos no ontem ou no hoje, direta ou indiretamente; e mesmo porque, além de ser um mandamento da Lei de Deus, é um dos mais sublimes sentimentos que nos elevam e nos tornam felizes, libertando-nos das inquietações e mazelas interiores; e finalmente, porque, se fomos vitimas, é que, na verdade, não estávamos, de todo, inocentes, pois se o estivéssemos, Deus não teria permitido que nos fizessem o mal; se o sofremos, por parte de alguém, é que, de um jeito ou de outro, diretamente ou não, desta vida ou de outra, estávamos em débito, ou seja, tínhamos uma parcela de culpa, razão pela qual nunca somos totalmente inocentes e nunca somos, inteiramente, culpados, diante de um mal que recebemos de alguém; a injúria com que nos magoaram o coração, ou o violento golpe recebido podem ser, quiçá, o desfecho de um drama que tivera inicio noutra vida, ou podem representar testes à paciência, à tolerância, à capacidade, enfim, de perdoarmos, posto que a Providencia Divina sempre nos está testando, nesses momentos graves, no sentido de verificar “que proveito estamos tirando” de tudo de bom que estamos aprendendo no decurso de nossas experiências.
E o agressor, antes de merecer a nossa vingança, é credor do nosso desejo imenso de que viva muito, o bastante para que possa aprender tudo aquilo que ainda lhe falta, para a evolução e acendramento de seu espirito; e sempre que o desejo de vingança inquietar o nosso coração, procuremos orar pelo adversário, tentando, ao menos, descobrir, nele, alguma virtude, por menor que seja, e acabaremos por sentir que ele também é predestinado à perfeição, à bondade e ao amor; jamais desejar-lhe o mal, e muito menos, ofertar-lhe qualquer revide, pois ele, sendo ou não um criminoso, não pode ser vitima da nossa vingança, pois mais do que nunca ele precisa viver, e muito, para aprender, na escola do mundo, que “Só o amor constrói para a eterna felicidade”, apenas o caminho da virtude nos aproxima de Deus e que somente no caminho do bem, ele haverá de encontrar a glória da redenção.
Aquele que nos prejudicou? Ele viverá. Assim como o estudante necessita, e muito, da escola, para atingir o nível intelectual, de que precisam também os nossos adversários, e os criminosos, e todos aqueles que espalham o horror e o sangue, a miséria e o sofrimento no caminho dos seus irmãos, precisam viver muito, pois que, mais do que ninguém, eles carecem da escola da vida, para que aprendam a viver… em paz… com todos.
O homem, quando começa a sentir a necessidade sincera de perdoar, é que o seu espírito, farto de tantas trevas a lhe inquietar, está sedento de libertação, de Paz e de perdão; está começando a crescer para Deus.
O perdão é a secreta força que nunca deixa tombar as almas fortes, as que nunca se sentem ofendidas ou prejudicadas, seja em que circunstancia for.
Há entre o mundo ditoso da Espiritualidade e a criatura encarnada, uma imensa escada invisível; e cada degrau dessa escada tem o nome de uma qualidade que o homem deve adquirir; o primeiro degrau é a caridade, porquanto é através dela que o homem conquista o amor e a sabedoria, que são, por sua vez, o segundo e o terceiro degrau; o perdão é o seguimento dessas virtudes, o quarto degrau, portanto, de onde a criatura humana toma impulso e força para a grande jornada, rumo a Deus; e se ela atingiu esse degrau, será incapaz de descer um só patamar…
(Iron Junqueira, escritor)