A UEG é a bola da vez?
Redação DM
Publicado em 6 de janeiro de 2016 às 22:27 | Atualizado há 10 anos(A Universidade Estadual de Goiás (UEG) é uma instituição de ensino, pesquisa e extensão, com finalidade científica, tecnológica, de natureza cultural e educacional, com caráter público, gratuito e laico. Artigo 1º. Estatuto/UEG)
Na escalada do desmonte estatal ferozmente empreendido por Marconi Perillo (PSDB) é importante observar a importância de determinadas instituições públicas bem como a qualidade da relação deste governo com estas mesmas instituições. É o caso da Universidade Estadual de Goiás (UEG).
A interpretação e o entendimento desta relação é assaz importante para compreendermos o próprio “lócus” desta instituição no cipoal de instituições públicas do Estado.
Não sou desses que sai por aí “matando” uma instituição viva e efervescente como a UEG mesmo porque essa Universidade tem atuado pra valer nos rincões, grotões e alquebradas desse Goiás velho de guerra.
É lá nos “escondidos” de Goiás que o pensamento escoa. É lá que a UEG faz a diferença; onde as reminiscências de nossa luso-colonização ainda são instituições mediadoras das sociabilidades locais; é exatamente em meio a latifúndios, patriarcalismos e violência de toda sorte e contra toda sorte de minorias que a UEG faz das suas em prol do aperfeiçoamento de hábitos e costumes sociais; em favor dos direitos humanos e das livres manifestações das multi-formas do viver.
O que está em questão é que se de fato, a UEG não está “morta” posto que efetivamente, não está; tampouco atingiu os níveis e padrões de excelência que poderia ter atingido caso fosse, de fato, prioridade estatal e de governo.
De outro modo, poderia embarcar no fácil discurso das amplas contratações de servidores e docentes pagos com salários simbólicos; pelas estruturas e espaços físicos insuficientes que impedem a realização de eventos fundamentais para a formação docente/discente; muito menos da morosidade de processos internos que empacam, por exemplo a compra de um mobília ou a manutenção de salas de aula.
Estes são aspectos visíveis de amplo conceito administrativo que não nos torna centro nas políticas de governo; que sequer possibilita que o ensino superior seja parte nos discursos de certa modernização e que vem monótona e intermitentemente sendo difundida pela legenda partidária que governa Goiás por quase vinte anos e que, enfim, é trágica e pateticamente ocorrência tímida, acabrunhada e carente de, digamos, coluna vertebral para estar de pé ante aos dilemas políticos, ambientais, econômicos e culturais que atravancam o livre desenvolvimento das gentes do Goiás.
É nessa saraivada de contradições que é importante destacar o papel dos professores desta instituição. Evidentemente, não são todos e estou a falar de parte dos ditos professores efetivos com a colaboração de frações de professores temporários e servidores, igualmente temporários e que fazem “das tripas coração” para por exemplo, a realização de um seminário, de um simpósio, de uma visita técnica, de um trabalho de campo ou de uma conferência.
Nesse sentido, não são as políticas ou determinações advindas da Reitoria que alteram o curso ordinário da burocracia acadêmica ou universitária mas são, exatamente, as intervenções e iniciativas de professores e que em parceria com estudantes dão forma para eventos, encontros, debates e similares educativos/formativos e que dinamizam positivamente o cotidiano da instituição.
E como fazem? Com dinheiro do Governo? De jeito nenhum! De forma geral, a imensa maioria dos eventos realizados no âmbito da UEG são articulados a partir do local, em parceria com prefeituras, comércios e outros parceiros.
Esse aspecto precisa ser de fato, compreendido e tornado claro: os eventos da UEG são majoritariamente feitos por professores e que fiam com entidades/pessoas da própria comunidade a realização disto ou daquilo.
É nesse aspecto que quero categoricamente afirmar que o professor da UEG é ou pelo menos, deveria ser sua principal estrategia de desenvolvimento; porque é notoriamente o principal agente de articulação, promoção e desenvolvimento da própria UEG.
Nessa baila de construções, constrói o nome da UEG, o leva às instituições públicas e privadas; a torna parte da vida dos estudantes e, portanto, das suas famílias e, finalmente, uma ampla e complexa sinergia educacional-político-formativa é erigida, mantida e continuada.
Com baixos recursos, com pouco ou quase nenhum apoio institucional, com a velha lentidão típica da estruturas públicas mas, ainda assim, a teimosia docente segue fazendo, refazendo, unindo, reunindo, pondo em questão, arrematando outras e, enfim… Educando.
Esse aspecto não pode ser desconsiderado; não pode ser trivializado; encarado como se fora uma ninharia acadêmica. Não é! É importante porque forma, educa, gera reflexão, altera comportamentos, estimula lideranças, questiona padrões sociais, valores e perspectivas, humaniza sentidos humanos e, enfim, traz à tona, as boas dúvidas que rompem com as velhas certezas feitas à base de muita exclusão social, riqueza concentrada e apatia política.
Finalmente e para o caso da UEG, a docência não é um exercício eminentemente profissional é, de longe, a principal estrategia de desenvolvimento institucional dessa Universidade que como se sabe, segue sendo cada vez mais ameaçada por um governo neoliberal, conservador e de direita que acha que a militarização escolar engendra educação livre e autônoma e que suavemente engendra novos padrões de privatização para a já assolada educação pública de Goiás.
(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando em Geografia Humana (UEG) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)