Cotidiano

Nova Assembleia Nacional abre choque entre Poderes e dentro da oposição venezuelana

Redação DM

Publicado em 6 de janeiro de 2016 às 05:05 | Atualizado há 11 anos

BUENOS AIRES – A posse da nova Assembleia Nacional (AN) da Venezuela deixou abertas duas frentes de conflito que deverão dominar o cenário político do país nos próximos dias e semanas, segundo analistas locais ouvidos pelo GLOBO. A primeira será um choque de Poderes entre a maioria qualificada da opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD) e o Tribunal Superior de Justiça (TSJ), sobre a juramentação de três deputados do bloco pelo estado do Amazonas, que ontem não assumiram suas cadeiras por decisão do tribunal. A segunda envolverá os mais altos dirigentes da MUD, que deverão mergulhar num debate interno sobre o ritmo em que a majoritária bancada opositora avançará na construção de uma estratégia para tentar tirar o presidente Nicolás Maduro do poder.

Ontem, em seu discurso de posse, o novo presidente da AN, Henry Ramos Allup, líder do tradicional Ação Democrática (AD), tentou impor a visão de seu partido estabelecendo um prazo de seis meses para a oposição propor um método constitucional de mudança de o governo.

A agenda de prioridades traçada por Ramos Allup contrastou com a apresentada pelo deputado Julio Borges, figura de proa do partido Primeiro Justiça (PJ), comandado pelo governador do estado de Miranda e ex-candidato presidencial, Henrique Capriles. Borges apresentou uma lista de iniciativas políticas, sociais e econômicas para os primeiros meses de mandato da nova AN, mas, em momento algum, mencionou a saída de Maduro.

Na opinião de Carlos Romero, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV), “o discurso de Henry Ramos Allup chamou a atenção e antecipou discussões dentro da MUD”.

— São evidentes algumas divergências sobre qual deverá ser o foco da bancada opositora num primeiro momento. O PJ não acha que este seja o momento de avançar sobre Maduro e a AD quer avançar já — explicou o professor da UCV.

Para ele, o novo presidente da AN centrou seu discurso na estratégia para ter um novo regime na Venezuela.

— O problema é que o partido de Capriles é mais gradualista — insistiu.

O choque de poderes entre a bancada opositora e o TSJ deverá ser intenso. Ontem, a MUD optou por não juramentar seus três deputados cujas eleições foram anuladas pelo máximo tribunal, mas, segundo analistas locais, a bancada opositora vai insistir na defesa de suas três cadeiras.

— A sentença do TSJ é considerada inexecutável pela MUD, porque não se pode aplicar uma liminar contra congressistas eleitos e reconhecidos pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) — assegurou Oswaldo Ramírez Colina, diretor da ORC Consultores.

Ele destacou que, em seu discurso, Ramos Allup afirmou que “o TSJ não pode pretender substituir o CNE”.

— A MUD deixou claro que vai juramentar esses três deputados, mas hoje (ontem) a tensão já estava no limite — disse o analista.

A decisão da bancada do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) de abandonar a AN no meio do discurso de Borges alterou a cerimônia de posse e, segundo Ramírez Colina, levou a MUD a adiar a juramentação dos congressistas prejudicados pela sentença do TSJ.

— Teremos um choque de poderes na certa. O desfecho dependerá, em grande medida, da estratégia da oposição — apontou o analista.

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia