“Deus prova a sua grandeza e poder pela imutabilidade das suas leis”
Redação DM
Publicado em 5 de janeiro de 2016 às 15:44 | Atualizado há 1 ano
A doutrina espírita é uma das ramificações do cristianismo mais difundidas no mundo. Possui cerca de quatro milhões de adeptos só no Brasil, segundo dados do Censo de 2010. Goiânia é a quinta cidade do país em número de adeptos. Existem na cidade mais de 71 mil pessoas que se declaram espíritas, o que representa 4,3% da população total. A doutrina surge, tecnicamente, em 1857, através da publicação da obra ‘O Livro dos Espíritos’, escrita pelo pedagogo Hypolite Léon Denizard Rivail sob o pseudônimo de Allan Kardec, e considerada a primeira obra básica da doutrina.
Além de ‘O Livro dos Espíritos’, Kardec codificou outras quatro obras fundamentais para o aprofundamento da doutrina. São eles ‘O Livro dos Médiuns’ (1861), ‘O Evangelho segundo o Espiritismo’ (1864), ‘O Céu e o Inferno’ (1865) e ‘A Gênese’ (1868), que completa hoje 148 anos de sua primeira edição. Neste livro dividido em três partes, Kardec e os Espíritos tratam de questões como a formação dos mundos e da criação dos seres animados e inanimados; os milagres de Jesus à luz da doutrina; e
o porquê da existência previsões de coisas futuras, pressentimentos e afins.

Para os adeptos da doutrina espírita (também chamada de kardecismo, espiritismo ou espiritismo kardecista), o feito de Allan Kardec não se trata de uma criação, mas de uma codificação – uma textualização da transmissão de conhecimento entre espíritos (seres superiores, chamados ‘espíritos de luz’) e humanos. A doutrina é vista por seus seguidores como cientifico-filosófico-religiosa, e visa o aperfeiçoamento moral dos indivíduos. Acredita-se em reencarnação e na comunicação com o plano espiritual através dos médiuns, seres humanos que receberam de Deus um dom para contribuir com o desenvolvimento moral do mundo.
A Gênese
O próprio título do livro faz referência ao primeiro livro do Antigo Testamento, Genesis, que narra a criação do mundo e dos seres vivos por Deus. No livro codificado por Kardec, existe uma conciliação entre a visão criacionista do mundo, aceita por várias vertentes do cristianismo, associada a uma evolução do conhecimento científico. Na folha de rosto do livro existem frases que sintetizam a índole dos escritos. São elas: “A doutrina espírita é o resultado do ensino coletivo e concorde dos Espíritos”, “A Ciência é convidada a constituir a gênese segundo as leis da natureza”, “Deus prova a sua grandeza e poder pela imutabilidade das suas leis e não pela derrogação delas” e “Para Deus, o passado e o futuro são o presente”.
O livro coloca a criação do mundo como uma progressão da percepção dos humanos sobre a natureza. O desenvolvimento das ciências é uma forma gradativa de contato com o mundo criado por Deus. As interpretações da origem do são mutáveis, e refletem períodos diferentes da humanidade. “Todas as ciências que nos fazem conhecer os mistérios da natureza são revelações e pode dizer-se que há para a humanidade uma revelação incessante. A Astronomia revelou o mundo astral, que não conhecíamos; a Geologia revelou a formação da Terra; a Química, a lei das afinidades; a Fisiologia, as funções do organismo etc.; Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier foram reveladores”.
Como nota-se a partir do trecho acima, extraído do primeiro capítulo de A Gênese, a doutrina espírita possui um apelo científico de renovação do cristianismo. Não é difícil que em salões de centros espíritas (ou núcleos de irradiação espíritas, como preferem ser chamados ultimamente para não serem confundidos com outros modelos de casas de oração), ouça-se um palestrante afirmando que o espiritismo é a doutrina da ciência. Cresci nessa doutrina e ouvi essa frase por 16 anos de minha vida. Também é comum que nas aulas de evangelização para crianças exista algum estudo relacionado ao Darwinismo e à evolução das espécies.
No capítulo “Antigos e modernos sistemas de mundo”, A Gênese evoca novamente o cunho científico da doutrina, defendendo que as primeiras teorias de sistema de mundo, oriundas de meras observações, seriam gradativamente superadas por teses científicas. “A primeira ideia que os homens formaram da Terra, do movimento dos astros e da constituição do universo, há de, a princípio, ter-se baseado unicamente no que os sentidos percebiam. Ignorando as mais elementares leis da Física e as forças da natureza, não dispondo senão da vista como meio de observação, apenas pelas aparências podiam eles julgar”.
