Competência e criatividade
Redação DM
Publicado em 26 de março de 2015 às 03:09 | Atualizado há 11 anosValdivino de Oliveira Especial para Diário da Manhã
Não há porque supor, em princípio, que o pessimismo tenha que acompanhar a economia brasileira, neste momento. Cautela sim, pessimismo não. Estive em um órgão da administração estadual e ouvi de seu dirigente a seguinte expressão: “agora o Brasil é outro, aquele Brasil do ano passado morreu. Todos os planos, projetos e acordos devem ser cancelados! Aquele Brasil faliu”. Fiquei estupefato! Não é esta a lição que a economia de hoje quer repassar aos executivos, aos políticos e administradores. Não é isto que ensinamos no curso de economia.
O Brasil vive uma crise econômica, como a viveu em 2009. As causas são diferentes, mas as crises são parecidas. Em 2009, a crise financeira nos Estados Unidos (causada, principalmente, pela bolha imobiliária), levou a falência importantes instituições financeiras, com reflexo na economia americana e em muitos países com fortes relações econômicas com os americanos. No Brasil, a crise atingiu a produção nacional e o setor público sofreu com quedas de arrecadação em todos os níveis de governo. Mesmo com queda de arrecadação, os Estados continuaram seu crescimento, com otimismos e cautela que a crise exigia. Realizaram muito, em muitos Estados, outros, sem criatividade e competência sofreram com as dificuldades que a economia da época proporcionou ao setor público. A crise de agora, parece ter a mesma magnitude, porém, as causas e efeitos são e serão diferentes, respectivamente.
Os erros da política econômica, adotada nos últimos quatro anos, deterioraram as contas públicas, enfraqueceu o sistema financeiro nacional e aumentou nossa dependência em relação aos produtos do estrangeiro. Já podemos visualizar a redução da produção nacional (o PIB apresenta resultados ruins em trimestres sucessivos e 2014 deve fechar negativo em quase 1%), a inflação disparou em relação ao centro da meta (4,5%) e em março deve ultrapassar os oito por cento. Além do PIB baixo e da inflação ascendente, a crise cambial e a ameaça ao desemprego incomodam o mundo econômico brasileiro.
Se, por um lado, a crise cambial torna os insumos importados mais caros, pressionando ainda mais a inflação, e, aumenta o endividamento do setor financeiro e produtivo em relação a empréstimos contraídos com o exterior, enfraquecendo seus balanços; por outro lado, esta maxidesvalorização do real, em curto espaço de tempo, favorece aos exportadores, pois torna os bens brasileiros mais competitivos lá fora (pela redução dos preços relativos), e concorre para amenizar o alto custo Brasil. A conta de transações correntes pode apresentar resultados melhores ante a provável redução de importações (inclusive de gastos de brasileiros no exterior) e do provável aumento de exportações. Se a conta de transações correntes melhora, reduzimos a dependência da entrada de capital estrangeiro no País.
A ameaça ao crescimento do desemprego é preocupante ante aos desajustes sociais que ele provoca, aumentando a procura por assistência social, como o salário desemprego e bolsas de complemento de renda, pressionando o gasto público, em época de contenções.
Mesmo com este cenário, o momento não é para desestímulo ou pessimismo, que só colaboram com o agravamento da crise da economia. Agora é tempo de competência e criatividade. Administrar com abundância é fácil. Agora serão testados como administradores em época de crise. Vale muito agora a criatividade e a competência.
Em nove ocasiões, fui secretário de Fazenda ou de Finanças. Em épocas de crise ou de crescimento, vivi e administrei o setor público em diversos cenários da atividade econômica. Posso falar um pouco da atual. A previsão para 2015 é a de que os Estados arrecadarão de ICMS, entre 6 e 7% mais do que arrecadaram em 2014, com queda real entre 1 e 2%. Alguns Estados arrecadarão mais que esta previsão, outros menos. O que fará a diferença é se o Estado vai crescer mais que a economia nacional e se os administradores terão competência para adequar a administração tributária as alterações nas estruturas econômicas de cada estado, ocorridas nos últimos vinte anos. A arte de administrar tributos também é a arte de administrar o desenvolvimento econômico. Combiná-las sempre conduziu ao bom desempenho da arrecadação. Há setores da economia em cada Estado, que não necessitam mais da tutela dos incentivos fiscais (redução de impostos, créditos autorgados e outros), outros setores reduziram esta dependência, outros continuam necessitando dos incentivos e, às vezes, até de ampliá-los, para dar mais competitividade a economia local. Dosar os incentivos e ajustar a legislação tributária é o caminho mais curto, neste momento.
O “bicho” não é tão feio assim. Os Estados estão ajustando seus gastos, cabe, agora, aos administradores aplicarem competência e criatividade. Não ao pessimismo! Sim ao trabalho.
(Valdivino de Oliveira, ex-deputado federal (PSDB-GO) e professor de Macroeconomia da PUC-GO)