O velho da estação
Redação DM
Publicado em 23 de dezembro de 2015 às 23:40 | Atualizado há 11 anosOs três jovens irmãos, educados segundo a técnica dos tempos atuais, de cabelos longos e bem tratados, de roupas caras, coloridas e elegantes, toda noite após as aulas no melhor colégio da cidade, a caminho de casa, paravam na plataforma coberta da Estação Rodoviária e acordavam molambento e misero velhinho que ali dormia sempre, a fim de perturbá-lo com brincadeiras desrespeitosas, deprimentes e injustas. Acordavam-no com safanões no rosto ou incendiando, com a chama do isqueiro, as suas barbas brancas e encardidas, quando não o despertavam com pontapés e outras maldades. Daí para adiante, as molestações ao pobre diabo se prolongavam; os estudantes não o deixavam dormir; despiam-no e o punham a correr, roçando as nádegas nuas do infeliz com o fogo que acendiam nas roupas sujas que dele retiravam; e quanto mais o velho se queixava, mais os três irmãos o incomodavam; queriam ver o espetáculo pitoresco; queriam rir muito e, para tanto, não poupavam o ancião. Certa noite, em meio às troças dos rapazes, a desventurada vítima, completamente nua, arfando de cansaço, fronte suada, castigado pelas impiedosas brincadeiras dos moços, cai de joelhos e, de mãos postas, lhes pede, em súplica tão sincera que os seus olhos estavam brilhando à noite, inundados de pranto: – Pelo amor de Deus, meus filhos! Não me maltratem mais! Eu não lhes peço que tenham, para comigo, o respeito que pensava merecer, em razão do meu corpo fraco e dolorido e dos meus cabelos brancos que denunciam o quanto já vivi, padecendo! Só lhes peço, meus filhos, que tenham dó deste pobre velho que, para disfarçar a fome, e para não ser demais neste mundo, procura dormir mais cedo, para ser por todos ignorado e para importunar a ninguém, com a sua inutilidade!… – Oh, coitadinho! Troçavam os adolescentes, exprimindo sentimentais carantonhas. – Vocês não podem fazer isto com um velho cansado, meus filhos… – lamuriava o miserável; mas a rapaziada fazia estrugir suas gargalhadas que pareciam ecoar pelo espaço, quebrando o silêncio da noite calma. – Pobrezinho, gente! Vamos deixá-lo em paz! Dizia um dos moços, simulando piedade e acarinhando seus ralos cabelos brancos para, em seguida, golpear a sua cabeça com um forte safanão. De outras vezes, fingindo despedirem-se dele, adocicavam a voz, acendiam um cigarro e o ofereciam ao mendigo, dizendo-lhe: – Tome um cigarrinho, vovô… – e metiam a ponta acesa na boca do pobre diabo, apenas para ouvi-lo gritar de dor e de revolta: Cabeludos do inferno! O que aprendem na escola? Vocês não têm pais? E os rapazes seguiam em frente, rindo e troçando daquele infeliz que, nu e sozinho, resmungando a esmo, envolvia-se no velho cobertor, procurando acalmar-se, quando então adormecia. Só que, na manhã do outro dia, era conduzido para a cadeia acusado de despir-se em pleno logradouro público. De nada valiam as suas explicações na delegacia, pois como sempre acontece, com raras exceções, claro, são poucas as pessoas que se dispõem, ao menos, a ouvir esses miseráveis. Costumam autorizar a punição indiferentes às suas queixas, preocupados mais em solver seus problemas próprios conversando ao telefone ou retirando-se dos seus gabinetes, alheios aos que padecem e cuja sorte dependem deles. Quando dizem alguma coisa a esses injustiçados, são observações cáusticas e precipitadas: – Cale-se, velho sujo! Chega de mentiras! A moçada de hoje é incapaz de fazer isso com mendigos!
Assim padecem os injustiçados.
Era o dia de Natal; na casa dos três irmãos, a campainha soa; os chefes da família vão atender a porta, enquanto os jovens se fartavam num almoço lauto regado a bebidas caras, e todos naquela feliz algaravia própria dos dias festivos.
– Sr. Carlos! Exclama a mulher, visivelmente satisfeita, ao abrir a porta.
– Por onde tem vivido, meu caro? Entre e venha almoçar conosco! Convida o Sr. Manoel, dono da casa.
– Há quantos anos não o víamos, sr. Carlos! Disse a senhora – por onde andou no decurso de tanto tempo?
– Pela vida. Respondeu o visitante sorrindo, muito feliz pela felicidade que causou aos amigos.
– Entre, entre! Convidou o anfitrião, mais uma vez – a casa foi sempre sua, você sabe! Chegou em boa hora. Os meninos estão todos reunidos para a comemoração do Natal.
– Que bom! Exclamou o homem que chegava. Abraçou os amigos da luxuosa residência, aconchegando-os ao peito e, sinceramente agradecido pela carinhosa acolhida, adiantou:
– Como é bom a gente ter bons amigos… posso ver os meninos?
– Claro! Claro! Vamos para a copa. Estão todos lá.
– Não. Resolveu o hóspede – Não quero que os meninos me vejam neste estado; a senhora, comadre, não acha que estou… muito… desajeitado?
– Está bem. Concordou a senhora, amável e prestativa – enquanto Manoel lhe prepara um banho e roupa limpa, vou preparando os meninos. Pediu licença e voltou para a companhia dos moços, enquanto que seu marido conduzia a importante visita para os aposentos de banho. Nesse tempo, a bondosa senhora conversava com os filhos:
– Hoje é Natal, rapazes, e Jesus nos enviou o melhor presente que podemos lhes oferecer. Trata-se de alguém muito significativo para todos nós. Adivinhem quem seja?
– A vovó? Aventuraram todos.
– Não, filhos.
– Onde está essa pessoa, mamãe? Indagou um deles.
– No banheiro, asseando-se, pois fizera uma longa viagem, acho…
– Diga então quem é essa pessoa, mãe! Não sabemos quem possa ser…
A bondosa senhora, abraçando os filhos, retomou a palavra, de maneira solene e respeitosa, e passou às explicações:
– Meus filhos, como eu e seu pai já lhes dissemos, um dia, numa noite muito fria…
– Sabemos! Atalhou um dos moços, completando: Meu pai e a senhora foram chamados à casa de um amigo seus muito pobre… – e o segundo rapaz continuou: – Cuja esposa havia falecido, e como não tinha condição de criar seus três filhinhos…
O terceiro filho, por sua vez, arrematou:
– A senhora e meu pai os recolheram e os adotaram como filhos… éramos nós… Rubens tinha três anos de idade, Reinaldo tinha dois, e eu, um… não é isso, mamãe?
– Sim; mas… e foi novamente interrompida por um dos jovens:
– Ora, mamãe! Não nos fale mais que somos filhos de outros pais; não os conhecemos; e somente temos a senhora como nossa mãe e o pai, como nosso pai!
– Mas, meus filhos, escutem: a grande alegria de hoje, é que vocês irão conhecer o seu verdadeiro pai que, após quase vinte anos, só agora reapareceu, como se fosse abençoado presente de Jesus aos meus adorados filhos. Eu quero que vocês o amem e o respeitem tal como fazem comigo e com o segundo pai de vocês. Se ele, o sr. Carlos, os entregou a nós quando eram pequeninos, foi apenas visando a felicidade dos filhos, posto que não podia educá-los como realmente desejava. Vamos recebê-lo com muito amor, com muita alegria. O carinho com que vocês o envolverem será para mim e seu “pai”, uma grande prova de amor por nós.
Os rapazes fizeram silêncio e se puseram de pé, surpresos, sérios e comovidos.
– Aguardem aqui, filhos. Vou chamá-lo. Ele já deve ter se preparado. E saiu para a sala de visitas deixando, na copa, os moços inquietos e confusos que, entre si, comentavam: – Eu nunca esperava por esta! – Nem eu! E o mais novo: – Será que parece comigo? Nisto, o pai adotivo surgiu na copa seguido da esposa e anunciou aos filhos: – Meninos! Tenho o grande prazer de apresentar o melhor amigo que tenho e que há tanto tempo não o via; foi ele quem me deu o maior tesouro que tenho: vocês! Foi ele quem me tornou o homem mais feliz do mundo, confiando-me os seus filhos que, também são os meus filhos; apresento-lhes… o pai de meus filhos!
Como o hóspede estava nervoso, apreensivo, dominado pela emoção do momento, demorou um pouco a surgir diante dos jovens, mas quando sua imagem apareceu na porta, os moços se entreolharam espantadíssimos, abalados, perplexos e, profundamente surpreendidos, apenas balbuciaram: – O velho?
– O velho da Estação?
– Ele!… Nosso pai?
Sentaram-se e sentiram, naquele breve instante, que o terrível remorso que já lhes dominava o coração, era a fonte amarga das suas lágrimas, e o indício de um grande sofrimento, quando então não sentiriam paz na vida enquanto não sofressem toda a desventura que, nas suas inconsequências de moços, fizeram aquele pobre velhinho padecer.
O estranho hóspede logo reconheceu os rapazes e nem por isso se agastou; armado por uma força que só Deus pode dar, disfarçou sua imensa surpresa e percebendo de imediato o incontrolável sofrimento que a sua presença causara aos jovens, fazendo-os recordar amargas lembranças, aproximou-se lentamente deles, abraçou-os em conjunto e, quase num murmúrio, para que os pais adotivos não o ouvissem, confortou os moços, com estas palavras: – Eu os perdoo, meus filhos… afinal, vocês não sabiam… – e, em pranto:
– …Não sabiam o que estavam fazendo.
Seja qual for a criatura que passa, rica, pobre, doente, infante ou adulta, é sempre momento de respeitar, de querer bem, de ajudar, de amar.
Não há no mundo quem não mereça respeito, pois até os criminosos, os ímpios, os maus, e os hipócritas, e os usurpadores, e os fratricidas, e até mesmo os animais – são nossos irmãos, queiramos ou não, porque, afinal, somos todos filhos de Deus.
(Iron Junqueira, escritor)