“Democracia não é paz de cemitério, é um regime efervescente”
Redação DM
Publicado em 22 de dezembro de 2022 às 15:16 | Atualizado há 4 anosAo fim do primeiro mandato como governador, Ronaldo Caiado (União Brasil) realizou, durante sua diplomação junto ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), um discurso realista sobre a política, gestão pública e democracia que fecha uma época sombria em que se ousou pedir a volta da ditadura e valores autoritários. Mas atenção: como o jurista fundador Rudolf von Jhering, que nos ensina a “lutar pelo Direito”, o gestor goiano alerta que precisamos nos desdobrar pela democracia, que exige esforço e vigilância. “Democracia não é paz de cemitério, é um regime efervescente”, diz Caiado.
As palavras do gestor ditas nesta semana figuram lado a lado com outros discursos históricos de Goiás, como o pronunciamento de Iris Rezende no comício das Diretas Já! ( ricocheteado nas paredes e ruas do Centro de Goiânia) ou de Mauro Borges, então governador de Goiás, em 1964, quando sobreveio o golpe e tardiamente o retirou do poder.
Na história dos discursos políticos de Goiás figura com elegância e altivez assertiva as palavras lúcidas de Alfredo Nasser, jornalista e advogado que brilhou no Senado. Em um dos pronunciamentos históricos, ele justificou o motivo de tantas traições na política e o que o impedia de disputar o Governo de Goiás – o autoritarismo do conservadorismo, que optava pelos políticos ricos em detrimento dos mais pobres. Em 1968, um outro pronunciamento, agora de Pedro Ludovico, como senador, dirigia críticas que ultrapassavam Goiás. Nas palavras ditas por Ludovico, com aparte de Josaphat Marinho, era denunciada a tortura da era Marechal Costa e Silva.
Caiado tem vários discursos que abalaram Brasília, bem como apartes e intervenções históricas, como a que profetiza a prisão de Anthony Garotinho. São palavras fortes como as de Pedro e mais nevrálgicas do que as de Iris, que também foi senador.
Mas em seu discurso de segunda-feira, 18, ele se concentrou no tema do momento, que é urgente e necessário: a defesa da democracia e o caráter inalienável da ética pública. Neste sentido, foi esclarecedor.
De imediato, ele alerta sobre o que significava aquela solenidade: “diplomação nos impõe muito mais deveres que direitos”.
O gestor sintetizou seu primeiro mandato em poucas palavras: “Eu, como governador de Goiás, estive à frente do nosso Estado no maior desafio de saúde pública de nossa história e lutei com galhardia para defender a ciência e a luta pela vida, buscando amenizar o sofrimento do povo goiano”.
Sobre o jogo democrático, fez um discurso não burocrático, mas afirmativo e, sobretudo, realista:
“Podemos criticar a democracia, mas não existe nenhum outro regime político capaz de dar ao cidadão tamanha liberdade de se expressar e de defender suas ideias. Sou um defensor intransigente da democracia, respeitando o resultado das urnas, onde as regras impostas nos fazem curvar a elas e, se derrotados, nos preparamos para cumprir o calendário eleitoral, trazendo ideias e propostas que atinjam o coração e a mente do eleitor e que nos dêem a chance de chegarmos ao poder”.
O Diário da Manhã, ciente das surpresas da história, publica para o leitor a íntegra do discurso, com a certeza de que as palavras sintetizam e marcam uma época, cujo valor maior (equilíbrio e temperança) faltam aos líderes.
Discurso na solenidade de diplomação do governador Ronaldo Caiado
Bom dia a todos os presentes.
Quero agradecer a Deus e ao Divino Espírito Santo esse momento tão especial. Agradecer também pelos meus 1.806.892 votos de goianas e goianos que votaram em nós e reafirmar que serei o governador de 7,2 milhões de pessoas que vivem, estudam, trabalham e produzem em nosso Estado.
Quero agradecer a minha esposa, Gracinha, aos meus filhos Ana Vitória, Maria e Marcela, e em especial a Ronaldo Filho, que, tenho absoluta certeza, está ao meu lado em cada momento. Quero agradecer aos meus irmãos Roberto e Rondon, as minhas irmãs Lilia, Layla e Liliana. Eu, todos os dias, tenho a convicção que sem minha família eu não teria base de sustentação para seguir empenhado em trabalhar por Goiás.
Quero cumprimentar em especial meu companheiro de chapa e vice-governador eleito, Daniel Vilela, e sua família. Estendo meus cumprimentos ao senador eleito Wilder Morais, aos 17 deputados federais e aos 41 deputados federais também eleitos e que foram hoje diplomados, assim como cumprimento suas famílias. Não posso deixar de celebrar a vida e o legado de dois grandes homens públicos que não estão mais conosco: Iris Rezende e Maguito Vilela. Homens que fazem falta, mas que deixaram exemplos inesquecíveis e herdeiros comprometidos com seu legado, Ana Paula Rezende e Daniel Vilela.
A diplomação nos impõe muito mais deveres que direitos. Há 48 anos, recebi meu primeiro diploma como médico e jamais desonrei o juramento de Hipócrates, que ressalta que salvar vidas e cuidar das pessoas é o princípio maior, sem relativizá-lo em quaisquer circunstâncias, as mais ameaçadoras que sejam, vide a pandemia da Covid-19. Eu, como governador de Goiás, estive à frente do nosso Estado no maior desafio de saúde pública de nossa história e lutei com galhardia para defender a ciência e a luta pela vida, buscando amenizar o sofrimento do povo goiano.
Na minha trajetória política, essa é a minha oitava diplomação, cinco mandatos como deputado federal, um mandato como senador, e agora meu segundo mandato como governador do Estado de Goiás.
A cerimônia de diplomação é uma oportunidade única de refletirmos e de nos conscientizar da importância do cargo que a população nos credenciou pelos próximos quatro anos. Já tendo percorrido muitos anos na vida pública e tendo vivenciado as maiores crises políticas que o país atravessou nos últimos 37 anos, cabe a mim fazer algumas reflexões que considero fundamentais para o bom cumprimento do mandato.
Primeiro, devemos ter espírito público. O cargo não nos foi confiado para colhermos benefícios financeiros e patrimoniais, já que nossos vencimentos não nos dão essa condição.
Segundo, devemos governar e legislar consultando sempre as nossas consciências, porque a campanha eleitoral não pode nos impor limitações para que possamos atingir o objetivo maior dos nosso mandatos, que é governar e legislar para os 7,2 milhões de goianos com o foco centrado em combater as desigualdades e dar ao cidadão goiano dignidade e cidadania. Afirmo isto porque o financiamento público de campanha nos dá essa independência para não sermos porta-voz de determinados grupos, e sim de todos.
Terceiro, devemos governar respeitando a independência dos poderes e dos segmentos da sociedade, que se organizam para defender seus interesses que são legítimos e fazem parte do processo democrático. Afinal, democracia não é paz de cemitério, é um regime efervescente, respeitando a independência dos poderes e a liberdade dos cidadãos e das minorias. Mas não podemos nos esquecer que os mais vulneráveis, os mais pobres e os miseráveis, que compõem o cadastro da pobreza e da extrema pobreza, não têm seus porta-vozes oficializados que não sejam nós políticos e os poderes constituídos. Daí, a necessidade de firmarmos um pacto para que Goiás seja o primeiro Estado a romper o ciclo da pobreza de forma concreta.
No primeiro mandato, avançamos muito, dando exemplo de respeito ao dinheiro público, que foi sem dúvida a grande marca do nosso governo, um governo íntegro, que defende os interesses do seu povo de maneira legítima e honesta. Os servidores públicos e a população enxergando nosso compromisso com a transparência e com a aplicação correta do que o Estado arrecadava nos deu crédito para atravessarmos os quatro anos mais difíceis da história do Estado de Goiás sem termos sequer uma greve. Tão logo conseguimos reequilibrar as finanças do Estado, demos a data-base a todos os servidores, cumprimos a promoção e a progressão de todas as carreiras e jamais atrasamos um dia sequer do repasse do duodécimo aos poderes e órgãos independentes.
Sempre defendi que governar é dialogar. Com a parceria obtida com os poderes e com os órgãos independentes, conseguimos superar os inúmeros obstáculos e desafios desses anos. Posso afirmar que vencemos a crise fiscal e a pandemia. Goiás passou a ser referência nacional pelos resultados obtidos. Saímos do patamar de uma política apodrecida, que bem oxigenada nos últimos quatro anos, ressecou esse tecido desvitalizado e cicatrizou suas feridas perante uma sociedade que nunca admitiu conviver com tal situação e se apresentou pronta para lutar cada dia mais para termos uma educação pública de qualidade, uma saúde regionalizada e integral, e uma segurança pública que já é a melhor do País. Aqui abro um parêntesis, tenho orgulho de ser o comandante e chefe das forças de segurança e, sem elas, afirmo que não teríamos alcançado a governabilidade.
E um quarto e último ponto de reflexão, afirmo que a instituição Estado não se sustenta nem atinge seus objetivos que são promover justiça social, segurança jurídica, saúde, educação e segurança pública à sua população sem responsabilidade fiscal. Daí, a necessidade de reafirmarmos mais uma vez o pacto entre os Poderes para que a aplicação dos recursos seja sempre clara e transparente e garantindo a aplicação de ações punitivas a todos que se atentarem contra as regras legais. Ressalto a importância e a capacidade de termos simultaneamente equilíbrio fiscal com responsabilidade social. Fomos capazes no primeiro mandato e seremos capazes no segundo mandato de implementar no nosso estado programas sociais inclusivos, transformadores e emancipadores, de gerar mais empregos, de construir mais rodovias de qualidade, pontes, habitações, e tantas outras demandas que nossa população merece.
Por fim, recebo essa vitória com muita humildade e com muita alegria e extremamente honrado por ser o primeiro governador reeleito em primeiro turno e o mais votado na capital. Assumo o compromisso de que o caminho do nosso governo será percorrido com coragem, com muita responsabilidade, ânimo, amor e respeito. Vou me dedicar diuturnamente para fazer de Goiás o melhor estado para se viver.
Governarei com meus secretários, servidores, auxiliares diretos, setores da iniciativa privada, produtores rurais, trabalhadores urbanos e rurais e, como sempre fiz, ouvirei as crianças, os jovens, idosos e aposentados, assim como os mais vulneráveis que tanto fizeram e fazem pelo nosso estado.
Podemos criticar a democracia, mas não existe nenhum outro regime político capaz de dar ao cidadão tamanha liberdade de se expressar e de defender suas ideias. Sou um defensor intransigente da democracia, respeitando o resultado das urnas, onde as regras impostas nos fazem curvar a elas e, se derrotados, nos preparamos para cumprir o calendário eleitoral, trazendo ideias e propostas que atinjam o coração e a mente do eleitor e que nos dêem a chance de chegarmos ao poder. O campo raso da democracia significa que a vontade da maioria se sobrepõe, mas com respeito à minoria. Empossado governador de Goiás, tenho a responsabilidade de propor a reflexão: o Brasil precisa de paz. Qualquer ruptura social provocada pelo descumprimento das regras democráticas gera sequelas irreparáveis e um sofrimento maior aos mais vulneráveis. No nosso governo, vamos buscar os avanços obtidos até 2022 e ainda mais, vamos lutar para gerar mais empregos, manter as conquistas sociais e termos uma sociedade em constante transformação.
Finalizando, quero agradecer à dra. Ludmilla Hajjar e confessar que, se ela não fosse a médica que é, na essência da palavra, com o dom que Deus lhe deu e o conhecimento que acumula cada dia mais, meu diagnóstico não teria sido feito e possivelmente eu não estaria cumprindo mais essa etapa tão importante da minha vida.
Não posso deixar de cumprimentar na figura do seu presidente o desembargador Itanei Francisco Campos, todo o corpo do Tribunal Regional Eleitoral de Goiás, que de forma educativa orientou todos os partidos e candidatos sobre como agir no pleito de 2022, dando igualdade de oportunidades a todos. Que Deus abençoe! Peço as orações de todos para guiar minhas decisões. Desejo um feliz a todos e um 2023 com muitas vitórias e esperança para o nosso povo.
Ronaldo Caiado