Joel Silveira evoca memórias da Segunda Guerra em clássico do jornalismo literário
Redação Online
Publicado em 2 de novembro de 2025 às 19:39 | Atualizado há 7 meses
Companheira: máquina de escrever batucou parágrafos que transformaram a reportagem no Brasil - Foto: Cia das Letras/ Divulgação
Marcus Vinícius Beck
Aos 26 anos, em 1944, e já homem de imprensa, o repórter sergipano Joel Silveira entrou no avião da Força Expedicionária Brasileira (FEB) com destino à Itália, onde mandaria para os Diários Associados notícias sobre a Segunda Guerra Mundial. Ficou lá por nove meses.
Antes de enviá-lo ao front, no entanto, o patrão Assis Chateaubriand o exultou: “O senhor vai para a guerra, mas não me morra, seu Silveira! Repórter é para mandar notícias, não é para morrer!” Joel, é claro, seguiu as ordens. Nem ferido foi durante o expediente.
O jornalista chegou à Europa no frio glacial de 1944-45. Como relata no livro “O Inverno da Guerra”, que chega às livrarias pela Companhia das Letras em reedição com posfácio de Sérgio Augusto, seu mais cruel inimigo na Toscana e nos Apeninos era o termômetro.
De cara, criticou o fardamento dos soldados (e dos jornalistas). O exército, segundo o repórter, lhes deu roupas para o “frio de Friburgo”, quando a tropa estava submetida a temperaturas de até 20 graus negativos. Prezava mesmo pelo apelido de Chatô: “víbora”.

Entre montanhas e penhascos, havia medo e frio — bastante frio —, “desconforto, e aquele constante odor de sangue velho e óleo diesel, que é o cheio da guerra”. Acostumado com o Rio de Janeiro, situado ao nível do mar, Joel estava a mais de mil metros de altura
Ali, foi condenado ao tédio “dos longos dias”, noites “inviáveis”, sitiado pela neve. Onde será o passeio? Onde está a sopa? Reagia se lhe perguntassem da vida “fácil” em meio a soldados alemães e italianos — atine-se, leitor, o nazifascismo era um cão assassino.
“Repito: o diabo, que também estava lá (como sempre esteve em todas as guerras), é testemunha de que não foi um passeio. Não foi mesmo”, adverte o correspondente. “A guerra é nojenta, e o que ela nos tira, quando não nos tira a vida, nunca mais devolve.”
Na primeira hora do dia, Joel ouvia o grito: “Guerreiros, de pé!” Ecoava o toque da alvorada, sino despertante, que o “infalível corneteiro” fazia ressoar às cinco horas, “às vezes era um toque cortante e seguro”. Podiam ser cinco, cinco e meia, mas a noite seguia fechada, plena.
Medonho, congelante, o inverno toscano e apenino escondia o sol — isso quando aparecia — até às dez horas. Egydio Squeff, de O Globo, tentava elevar o astral: “Vamos acabar logo com essa porcaria de guerra que estou doido pra voltar ao meu chopinho na Galeria Cruzeiro.”
Rubem Braga, por sua vez, amanhecia com um cigarro na boca, “o primeiro dos seus não sei quantos”. Enviado ao front pelo Correio da Manhã, o Velho Braga comia pouco. Squeff mastigava seu pão com café. Joel, apetitoso, confessa: “Comia muito, quase sempre demais.”

Numa guerra, explica Joel Silveira, correspondentes são soldados desarmados, pois assim determina a Convenção de Genebra. “Se um correspondente de guerra é feito prisioneiro portando qualquer espécie de arma, ele é considerado um franco-atirador”, alerta Joel.
De pandulho cheio, para usar expressão de Sérgio Augusto, os homens da imprensa se metiam num jipe cujo condutor bradava: “Deus é grande!” Só trafegavam onde lhes fosse seguro. Joel e Squeff dispunham de telégrafo. Isso facilitava o envio de relatos factuais.
Quando Chateaubriand o destacou para a Itália, Joel já era consagrado como pioneiro do que se chama de “jornalismo literário”. Levava adiante os ensinamentos de Euclides da Cunha em “Os Sertões” e, modesto, dizia que João do Rio tinha sido nosso maior repórter.
Mesmo assim, Joel sentiu que precisava romancear o texto para se diferenciar do que era publicado nos jornais entre os anos 1930 e 1940. Segundo o jornalista Fernando Moraes, o autor defendia a tese de que a grande reportagem era uma alternativa à ditadura em curso.
Um dos pioneiros desse estilo de reportagem, Joel foi esperto: o estilo funcionava, na realidade, para driblar a censura do Estado Novo. “Sem poder falar do que importa — a política — os jornais abriram espaço para investigação de temas menos candentes”, analisa.
Ao expor a elite em “Eram Assim os Grã-Finos em São Paulo”, Joel ensinou que o texto deve ser sutil, senão vira fábrica de adjetivos engordurados e lugares-comuns. Ler Joel em seu “O Inverno da Guerra” é, sobretudo, um exercício de imaginação — com tensão e horror.
O INVERNO DA GUERRA
Autor: Joel Silveira
Editora: Cia. Das Letras
Páginas: 176
Gênero: Jornalismo literário
