Brasil

Lô Borges, um dos fundadores do Clube da Esquina, morre aos 73 anos em Belo Horizonte

DM Redação

Publicado em 3 de novembro de 2025 às 10:25 | Atualizado há 7 meses

O Brasil perdeu nesta segunda-feira, 3 de novembro, um de seus maiores poetas sonoros. O cantor, compositor e multi-instrumentista Lô Borges morreu aos 73 anos, em Belo Horizonte, cidade onde nasceu e construiu parte essencial da história da música popular brasileira. O artista estava internado desde outubro e morreu em decorrência de falência múltipla de órgãos, após complicações de uma intoxicação medicamentosa.

Com a morte de Lô Borges, encerra-se um dos capítulos mais belos da música mineira e um dos mais férteis da MPB moderna. Autor de canções que moldaram a sensibilidade de gerações, Lô deixa um legado de lirismo, invenção e liberdade criativa que continua a inspirar músicos e ouvintes em todo o país.

Salomão Borges Filho, o Lô, nasceu em 10 de janeiro de 1952, em Belo Horizonte. Desde a adolescência, demonstrava um ouvido afinado e uma curiosidade musical rara. Ainda muito jovem, aproximou-se de Milton Nascimento, Beto Guedes, Tavito, Toninho Horta, Márcio Borges e outros nomes que, juntos, formariam o Clube da Esquina movimento que, no início dos anos 1970, redefiniu os contornos da música brasileira ao misturar rock, jazz, bossa nova e música regional mineira com poesia e espiritualidade.

Com apenas 20 anos, Lô se tornaria coautor do histórico álbum Clube da Esquina, lançado em 1972 ao lado de Milton Nascimento. O disco duplo revolucionou a MPB com harmonias ousadas, arranjos complexos e um sentimento universalista que até hoje ecoa. No mesmo ano, ele lançaria seu trabalho solo de estreia, Lô Borges, o famoso “Disco do Tênis”, cuja capa com um par de tênis simples sobre o asfalto tornou-se ícone de uma geração que encontrava na música o caminho para a liberdade.

Entre suas composições eternizadas estão “O Trem Azul”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Paisagem da Janela”, “Cravo e Canela”, “Clube da Esquina nº 2” e “Para Lennon e McCartney” músicas que traduzem o olhar mineiro sobre o mundo, com melodia delicada e harmonia sofisticada.

Ao longo das décadas, Lô Borges manteve a coerência artística e a inquietude que sempre o caracterizaram. Lançou álbuns marcantes como A Via-Láctea (1979), Sonho Real (1984), Rio da Lua (2019) e Dínamo (2020), nos quais transitava entre o pop, o rock progressivo e a MPB de raízes poéticas. Mesmo em idade madura, não deixou de experimentar gravou com artistas jovens, explorou novas sonoridades e, até seus últimos anos, continuava se apresentando e compondo com entusiasmo adolescente.

A morte de Lô Borges causa comoção entre músicos, críticos e fãs. Colegas de geração, como Milton Nascimento, já haviam descrito o amigo como “um irmão de alma, um menino eterno”. Nas redes sociais, nomes da nova cena musical lamentaram a partida e celebraram a influência de Lô, cuja estética e sensibilidade continuam presentes em artistas de diferentes estilos, do indie mineiro à MPB contemporânea.

O velório do artista será realizado em Belo Horizonte, em cerimônia reservada à família. Lô deixa esposa, filhos, netos e uma legião de admiradores que cresceram ao som de seus acordes e que continuarão ouvindo, com o mesmo encantamento, a voz que transformou a esquina de um bairro de Belo Horizonte em ponto de encontro da alma brasileira.

O eterno som da esquina

Ao morrer, Lô Borges não leva o silêncio: deixa um som que jamais se apaga. Seus discos seguem vivos e em cada faixa, em cada acorde de violão, há um convite à introspecção e à beleza. Foi o artista que melhor traduziu o espírito mineiro da música: contido, mas profundo; simples, mas infinito.

Como em sua canção mais simbólica, “O Trem Azul”, Lô parte deixando luz nos trilhos por onde passou.

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