Política

Praça Cívica concentra poder e resistência política, aponta pesquisa

Redação Online

Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 20:09 | Atualizado há 6 meses

Quando começar de fato o período eleitoral, com certeza, um espaço será cobiçado nas cidades: as praças. Equipamentos públicos de sociabilidade, locais de encontro, endereços de fácil localização, elas serão tomadas pelo debate. É assim desde a Grécia, quando grandes espaços deram lugar para os encontros políticos. Chamadas de ágoras, elas reuniam a sociedade.
Em Goiás, a grande praça tornou-se centro administrativo, exigindo um maior controle social, mas por muitas décadas foi o aparelho de reverberação público por natureza.
A praça Cívica passa atualmente por ampla reforma de seus prédios, tendo em vista a revitalização e uso para novas atividades. Mas no passado recente foi o campo de encenação da luta pelos direitos.
Nomeada de praça Cívica Pedro Ludovico Teixeira, ela é analisada como um espaço estratégico de poder e de contestação política na dissertação “A Praça Cívica de Goiânia: espaço de poder, de cultura e de manifestações políticas (1933–2019)”, de Ronaldo Pinto Monteiro, defendida há dois anos no Programa de Pós-Graduação em Territórios e Expressões Culturais no Cerrado da Universidade Estadual de Goiás (UEG), no campus de Anápolis.
Segundo o autor, a praça foi concebida desde sua origem como o núcleo político da nova capital goiana, concentrando os principais edifícios administrativos do Estado. Segundo ele, o ambiente de poder está ligado ao fato de que Goiânia foi concebida como uma estratégia política, afirma Monteiro, ao relacionar o projeto urbano à consolidação do poder estadual a partir da década de 1930.
O estudo destaca que, paralelamente à função institucional, a Praça Cívica tornou-se palco recorrente de mobilização social. Entre os principais eventos políticos citados estão os atos do movimento Diretas Já, realizados na década de 1980, quando a praça reuniu milhares de pessoas em defesa da redemocratização do país e da eleição direta para presidente.
A pesquisa também registra manifestações estudantis, especialmente ligadas à Universidade Federal de Goiás (UFG) e UEG e a movimentos secundaristas, além de greves e atos sindicais de professores, servidores públicos e trabalhadores urbanos, que utilizaram a praça como espaço de visibilidade e pressão política ao longo das décadas.
De acordo com Monteiro, essas mobilizações transformaram o espaço em um local simbólico de resistência. “As manifestações populares fazem da Praça Cívica um lugar social de resistência política”, afirma o autor, ao destacar a apropriação do espaço pela sociedade civil em momentos de tensão política e social.
O trabalho aponta que mudanças urbanísticas e intervenções físicas na praça estiveram associadas a tentativas de reorganização ou ressignificação do espaço público. Para o pesquisador, essas transformações revelam disputas de poder e interesses políticos sobre o uso do território.
Ao analisar quase nove décadas de história, o estudo conclui que a Praça Cívica ocupa um papel singular na memória política de Goiânia. “Ela se constitui como um espaço representativo da história política, social e cultural da cidade”, observa Monteiro, ao relacionar arquitetura, poder e participação popular. (W. C)

Espaço abriga os heróis e indignados

A pesquisa da Universidade Estadual de Goiás (UEG) tem a preocupação de rememorar, reconstituir e interpretar a praça – sejam os movimentos humanos que se sobrepõem aos espaços seja a articulação dos prédios.
Interpreta, por exemplo, a estátua de Pedro Ludovico colocada no local. Obra de Neusa Moraes [a mesma do Monumento às Três Raças], ela simboliza o ‘herói’ Pedro. Para efeito de comparação mostra a semelhança com outros que aparecem no curso da história montados no cavalo, caso de Napoleão, Dom Pedro I, Marco Aurelius, etc. “A similaridade entre essas estátuas equestres é algo mais do que cavalos e cavaleiros, é certamente algo que já foi dito por várias pessoas várias vezes e, aqui, repete-se, o desejo de perpetuação da memória do homem público transformado em herói, por conhecidas e desconhecidas razões”, diz o pesquisador Ronaldo Monteiro.
“É a inserção do monumento como representação simbólica no imaginário social; é o desejo de eternização daquilo que o costume ou a convenção social positivista determinou como importante, significativo
e grandioso. Tanto que, em 2016, foi colocada no pedestal da estátua equestre de Pedro Ludovico Teixeira uma placa de vidro, na qual está escrito: “Uma trajetória marcada por idealismo, grandiosidade, rupturas, combates, avanços e modernidade. O governo de
Goiás entrega este monumento aos goianos e à cidade de Pedro. Goiânia 2016””.
Segundo a pesquisa, em torno da figura de Pedro Ludovico Teixeira, ” existe em Goiás a tentativa de construção do mito do herói, porque a ele já foram dedicadas diversas homenagens, bastando observar que, só na capital Goiânia, existe um bairro, uma avenida, um antigo mercado, o palácio do Centro Administrativo, a própria Praça Cívica, tema desse trabalho, que receberam o nome de Pedro Ludovico Teixeira”.
Em que pese a construção dos mitos da política, a praça também serve e serviu para embates e protestos.

Haroldo Gurgel

O pesquisador Ronaldo Monteiro também cita em seu trabalho como a indignação com a morte do jornalista Haroldo Gurgel percorreu as ruas do Centro e foi desaguar na praça Cívica. Jornalista que denunciou supostos casos de corrupção, Gurgel morreu em 1953 a mando de forças políticas da época, tendo como uma das suposições daqueles anos a ‘vindita’ a alguma crítica feita justamente ao herói Pedro Ludovico.
O pesquisador reproduz o ocorrido naquela distante década: ” (…) o sentimento de comoção se transformou em revolta, e muita
gente se reuniu em um protesto que ficou conhecido como Marcha Fúnebre, porque as pessoas que participaram da manifestação carregaram sobre uma maca improvisada o corpo do jornalista Haroldo Gurgel. A marcha saiu da Praça do Bandeirante, subiu a Avenida Goiás e se concentrou na Praça Cívica, em frente ao Palácio das Esmeraldas” .
Segundo o estudo, na praça, “algumas pessoas gritavam palavras de ordem, acusando o governador de ser o mandante do crime e pedindo justiça para os assassinos e mandantes” .
“E, como pode ser visto na Ilustração 60, no muro do terreno baldio, onde Haroldo Gurgel morreu, foi escrito em letras vermelhas, na cor de sangue, a seguinte mensagem: “Aqui tombou
um môço defendendo a liberdade de imprensa””. (Welliton Carlos)


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