Cotidiano

Bloco Zazaricando faz últimos ajustes antes de ocupar Pirenópolis

Redação

Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 19:35 | Atualizado há 4 meses

Cores de Momo: foliões querem diversidade no carnaval
Cores de Momo: foliões querem diversidade no carnaval

Marcus Vinícius Beck

Os tambores já rufam no bloco pirenopolino Zazaricando, realizado com apoio financeiro do Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult). Neste ano, a folia combina ancestralidade, cultura popular e ecologia com um tema inédito: raízes que curam.

Pela primeira vez, a comissão de frente terá um casal de raizeiros tradicionais. Nascidos no Piauí e na Paraíba, Neide das Ervas e Ilton Ferreira percorrerão as ruas do Centro Histórico com turistas e moradores. Ambos são mestres curadores conhecidos na região dos Pireneus.

No fim dos anos 1980 — quando se estabeleceram em Piri —, Neide e Ilton começaram seus trabalhos com a Casa das Ervas, reduto de fitoterapia e de acolhimento erguido na ladeira do Alto do Carmo, bairro de Pirenópolis. Era preciso preservar as tradições culturais.

Neide segue inquieta, porém. Anda dizendo que o “conteúdo raro de saberes acumulados” deveria integrar o currículo pedagógico das escolas no ensino fundamental. A sapiência, os costumes, a candura cerratense e sertaneja, estas histórias e projetos rendem-lhe boas ideias.

“Acredito que o carnaval Raízes que Curam pode atrair mais parceiros para impulsionarmos um movimento social contínuo que alerta ainda para a extinção de espécies, como a Arruda do Norte, e temas como o plantio e a coleta consciente de ervas”, acredita Neide das Ervas.

Rozaura Romano idealizou bloco Zazaricando e diz que quer ainda mais inclusão

Quem decreta o início da diversão é o Grito de Carnaval do Bloco Zazaricando, na Casa Cultural Zazá Café. O evento antecede dois dias de cortejos do bloco, que serão no sábado (14/2), às 17h, e na segunda (16/2), às 16h. A música escorrega noite adentro no Zazá Café.

Entre 13 e 17 de fevereiro, os artistas Afrika Billy, Luciana Clímaco e Climacoletivo levarão diversidade de ritmos para a festa. Já Grace Carvalho, Mundhumano e Eli preparam shows sedimentados na brasilidade, enquanto os DJs Dudax e Ajna OM elevam o astral.

De acordo com Rozaura Romano, fundadora do Bloco Zazaricando e da Casa Cultural Zazá Café, a agenda extrapola o período carnavalesco. “Ela dura o ano todo, como as nossas aulas de percussão gratuitas, oferecidas sempre às segundas-feiras”, informa a agitadora cultural.

Cansada da cidade grande, Rozaura trocou Goiânia por Pirenópolis há quase uma década. Queria uma vida mais calma, sem o ritmo acelerado da metrópole. De início, ela perseguiu o sonho de ter um espaço gastronômico e cultural. Acenaria ao respeito e à diversidade.

“Na pandemia, veio a vacina e conseguimos manter a folia e toda uma programação dentro dos protocolos sanitários. Em 2022, levamos um trio elétrico com pessoas trans para a rua e iniciamos os ensaios de bateria com o mestre Alemão, do Coró de Pau”, recorda-se.

Bloco Zazaricando nasceu focado na comunidade

Músico Diego Lobo coordena caixas, xequerês, surdos e tamborins no Zazaricando

Para Rozaura Romano, o bloco Zazaricando nasceu focado na comunidade, cuja proposta se consolidou com ensaios semanais e aulas gratuitas de música, algo mantido até hoje. Daqui para a frente, projeta a idealizadora, a ideia é promover a cultura popular — e não só.

Com Raízes que Curam, o bloco ambiciona proporcionar ainda mais inclusão e valorização das tradições locais. O desafio, segundo Rozaura Romano, foi fortalecer os blocos da cidade histórica a partir do coletivo. “Nos Gritos de Carnaval, a força da coletividade é nítida”, diz.

Durante esses gritos, o Zazaricando inicia o percurso em frente à Cervejaria Santa Dica, ao lado de outros grupos, como Maracatu, o Zé Pereira e Santa Dica. Nas palavras de Rozaura, o cortejo “emociona e arrepia”, cuja chegada acontece na Casa Cultural Zazá Café.

Eis o clímax: êxtase coletivo. Três mil pessoas gritando. Uma explosão. O leitor, imagina este repórter, haverá de lembrar da crônica “Carnaval”, publicada pela escritora cearense Rachel de Queiroz: “Não adianta ter bigode e cabelo branco, ser desembargador, nem coronel.”

Rozaura Romano trocou Goiânia por Pirenópolis há quase uma década, em busca de calmaria

Mestre de bateria, o músico Diego Lobo coordena as caixas, os xequerês, os surdos e os tamborins no Zazaricando. O percussionista revela que, para botar o bloco na rua, como na canção de Sérgio Sampaio, é preciso técnica musical e intuição de cada componente.

Diego diz que o bloco tem o maior número de instrumentistas reunidos — quase 60. “O grupo contagia com batuques de vamunha (toque vibrante do atabaque), de malhão e de ritmos afro-brasileiros, como samba, ciranda, samba-reggae, funk, entre outros”, afirma.

O artista possui educação formal em música pelo Instituto Federal de Goiás (IFG). Chegou ao Zazaricando em 2024, trazido pelo mestre Alemão, da Associação Coró de Pau, conhecida no cenário cultural da capital goiana. Hoje, mora em um sítio próximo a Pirenópolis.

Conta que sua volta aos tambores se deu em 2024, quando Alemão ministrou oficinas em Pirenópolis. “Depois de um almoço lá em casa, tocamos tambores e a música reacendeu em minha vida”, revela. Com esse espírito, Diego faz rufar a bateria do Bloco Zazaricando.

Foto: Yan Damaceno


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