Cotidiano

UFG identifica góticos no Centro-Oeste em pesquisa quantitativa

Redação Online

Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 20:32 | Atualizado há 4 meses

Grupo Amados Mortos
Grupo Amados Mortos

Marcus Vinícius Beck

Antes do sol sangrar no asfalto quente, os góticos dançam madrugada adentro ao som das bandas inglesas Bauhaus e The Cure. A Rua Oito, no Setor Central, que voltou a ser reduto boêmio, aglomera aos fins de semana jovens adultos. O perfil etário oscila entre 25 e 34 anos.

Quase todos ali vestem roupas de tom e estilo dramáticos. Como o vocalista Robert Smith, do Cure, os homens borram o batom e passam esmalte preto nos dedos. Refletem angústias morais, inquietações existenciais. Já as mulheres, livres, subvertem normas da sociedade.

Tempo depois, lá pelas três e meia, quatro da matina, começa a rolar algum hit, talvez “Boys Don’t Cry” ou “Pictures of You”. Entre acordes e versos, o lero-lero corre solto no Anexo 8. Tema das pautas: ah, isso varia. Fala-se desde política até literatura, música ou cinema.

Onde queres sertanejo, a cidade é underground. Os inferninhos, esses refúgios noturnos, abrigam as batidas de uma cultura urbana ainda estigmatizada. No entanto, os góticos mostram que a capital goiana vai além da Villa Mix — aqui está sua vocação: diversidade.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) mapeou o perfil do público que integra a cena gótica no Centro-Oeste. Segundo reportagem do Jornal da UFG, o questionário foi divulgado no Instagram e no grupo de WhatsApp da produtora Undergoth.

Ao todo, 374 pessoas foram reunidas no momento do lançamento. O levantamento registrou 75 respostas, fornecendo aos estudiosos dados quantitativos. A ideia é, diante desse material, compreender como vivem as pessoas que são adeptas de um estilo alternativo.

De acordo com a pesquisa, 87% dos participantes vivem em Goiás. Apenas 10,8% são do Distrito Federal e 1,4% do Mato Grosso do Sul. Dentre os respondentes goianos, mais da metade, 62,3%, residem na capital, ao passo que 37,7% moram na região metropolitana.

Chama atenção ainda a presença de adolescentes até 18 anos e pessoas entre 35 e 44, ambos os grupos com 16,2%. A subcultura gótica, conforme a UFG, se mostra feminina: mulheres cisgênero representam 48,6% das respostas. Por seu lado, homens cisgênero somam 29,7%.

O questionário também investiga a presença de pessoas não binárias (8,1%) e transexuais (4,5%), bem como participantes que preferem não declarar identidade de gênero (5,4%). Entre aqueles que se afirmam fluidos e agênero, ambos correspondem a 1,4% dos adeptos.

Surgido na Europa, o conceito gótico é uma vertente estética e literária dedicada a temas como o mistério, o sobrenatural, o medo e os conflitos psicológicos. O escritor Edgar Allan Poe, autor do poema “O Corvo”, de 1845, tornou-se expoente desse tipo de narrativa.

Música aparece como principal via de acesso à tribo

Subcultura supera preconceito na capital goiana – Foto: Undergoth

Embora Allan Poe seduza jovens com sua prosa misteriosa, a música aparece como principal via de acesso ao universo gótico, seja por meio de bandas, rádios ou streaming. Segundo a UFG, essa forma de consumo é citada por 64,9% daqueles que responderam o questionário.

Filmes e séries (44,6%), literatura (33,8%) e o contato com amigos ou familiares (24,3%) também exercem influência. Ainda assim, o preconceito é marcante: 33,8% declaram ter sofrido discriminação várias vezes, enquanto 25,7% relataram episódios aqui e ali. Só 23% disseram nunca ter passado por esse tipo de experiência, segundo a pesquisa da UFG.

É um preconceito que, muitas vezes, se manifesta em pessoas próximas, como apontou a estudante de psicologia e taróloga Helena Xavier ao Jornal da UFG. “São pessoas que a gente espera uma compreensão, uma curiosidade, mas, na verdade, só tem o pré-julgamento”, diz.

Ainda que haja essa visão equivocada, o cenário goianiense traz opções a esse público. A produtora Eixo do Mal, que se define antifascista e pró-underground, confirmou para 2026 o Carnahell, cujos organizadores prometem “tocar o terror” no carnaval goianiense.

O grupo Amados Mortos, conhecido por tocar no Cidade Rock, da Monstro Discos, é expoente do gótico goianiense. Para a vocalista Seven Anne, em depoimento ao Jornal da UFG, existem espaços que acolhem tanto a subcultura gótica quanto o rock alternativo.

Emerge no underground goianiense, a banda se joga nas profundezas do post-punk e do darkwave, criando atmosferas densas e melancólicas que parecem saltadas de uma trilha gótica dos anos 1980. As letras tratam de solidão, luto, vampirismo e renascimento.

Acima de estigmas, os góticos movimentam um mercado de consumo. Segundo a UFG, 35,1% gastam entre R$ 51 e R$ 150 com objetos relacionados à cena, como roupas, acessórios, ingressos para eventos e música. Como pontua Henrique Kipper, estudioso da subcultura no Brasil, o que há em curso é um fenômeno global. Uma narrativa social, coletiva.

Foto de destaque: Divulgação


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