Caso de Itumbiara: silêncio na cidade, julgamentos e ódio na internet
Giovanna Gonçalves - Estágio DM
Publicado em 13 de fevereiro de 2026 às 17:19 | Atualizado há 5 meses
Após crime brutal, mãe das vítimas se torna alvo de linchamento virtual | Foto: Reprodução/ND Mais
Itumbiara amanheceu em silêncio após a tragédia que matou dois irmãos dentro de casa e abalou profundamente a cidade. Desde a última quinta-feira (12/02), foi decretado luto oficial de três dias em homenagem a Miguel Machado, de 12 anos, neto do prefeito Dione Araújo, morto na noite anterior pelo próprio pai.
Durante o período de luto, segundo a prefeitura, o atendimento ao público nos órgãos da administração municipal está suspenso. A rede municipal de ensino também interrompeu as aulas, com retorno previsto após o Carnaval. As medidas reforçam o clima de comoção e recolhimento que tomou conta do município.
O velório de Miguel aconteceu na tarde desta quinta-feira e foi marcado pela comoção coletiva e por homenagens silenciosas de amigos e familiares. Sarah Araújo, mãe do menino, esteve presente, amparada pelo pai e prefeito da cidade. Abalada pela tragédia familiar, ela ainda precisou deixar o cemitério antes do fim da cerimônia após receber ameaças.

Benício, de oito anos, irmão mais novo de Miguel, segue hospitalizado, cumprindo protocolo de morte cerebral de 48 horas, segundo familiares.
No dia seguinte ao enterro, o silêncio se aprofundou nesta sexta-feira (13) e Itumbiara foi tomada por um clima de retração: moradores evitam falar sobre o caso, e a maioria afirma não conhecer os envolvidos. O luto, nas ruas, se manifesta mais pela ausência de palavras do que por declarações públicas.
No entanto, enquanto o itumbiarense silencia, na internet o país não perdoa. Brasileiros se manifestam com opiniões fortes, julgadoras, sentenciadoras e, muitas vezes, cruéis.
Thales Alves Machado, responsável pelo crime, publicou em sua rede social uma mensagem na qual sugeria que a motivação de seus atos teria sido a infidelidade da esposa. Em seguida, após atirar nos filhos, tirou a própria vida.
O caso ganhou repercussão nacional e passou a ser comentado de Norte a Sul do Brasil. Internautas tomam partido, formulam teorias, fazem diagnósticos e se colocam no papel de “advogados do diabo”, julgando, absolvendo ou condenando personagens da tragédia a partir de suposições.
Ainda que não exista confirmação de uma traição, Sarah tem sido publicamente atacada e responsabilizada nas redes sociais.
Tribunal da internet
Entre os julgamentos, há comentários como: “quem sabe se isso não ficar recorrente elas não param de trair e começam a viver sozinhas”, escreveu um internauta em uma publicação no X (antigo Twitter).

Outro internauta foi mais agressivo e responsabilizou diretamente Sarah pela tragédia: “VAGABUNDA! Ela destruiu a própria família. Estudos revelam que o trauma causado em uma traição, tem o mesmo poder nocivo de um soldado pós guerra. Traição é uma coisa muito séria e q as pessoas fazem chacota, sem saber como a outra pessoa vai reagir. Ela é a GRANDE CULPADA disso (sic).”

No Instagram, em comentários de um vídeo sobre a suposta traição, uma pessoa escreveu: “Traição atrai maldição”. Em resposta, outros usuários comentaram: “Isso que me veio em mente quando li a matéria”; “Tragédia sob tragédia”.

Outros comentários na mesma postagem têm tom de desaprovação ao se referirem a Sarah, como: “Exemplo de filha do prefeito de Itumbiara” e “Esse vídeo tem que mostrar mesmo o que ela fez com a família dela”, culpabilizando a mulher pela morte dos filhos.

Em outro post, um usuário comentou: “Olha como uma traição pode provocar uma tragédia”.

De volta ao X, em uma thread (sequência) em resposta a um post que dizia que “o que aconteceu é brutal, covarde e inaceitável”, a primeira resposta questiona: “Onde estava a mãe das crianças no momento do crime??”. Em seguida, outro internauta replica: “Suando na chibata (sic)”.

Em outro comentário uma internauta disse: “100% na conta da mulher”. Em resposta, um usuário escreveu: “Pra ela foi só ganho pelo visto. Traiu o marido corno e perdeu a responsabilidade com 2 filhos. Se ela traiu, não tinha consideração/respeito pelos 3”.

Entre os inúmeros comentários de ataques e ameaças direcionados a Sarah, atribuir a culpa a ela passa a ser, para muitos internautas, uma forma de justificar as ações de Thales.
Um perfil chegou a fazer uma análise própria do caso, reforçando a lógica de culpabilização da mulher.
“Caso do secretário de Itumbiara: Imagina um mundo em que ele coleta provas da traição, apresenta na justiça, se separa sem repartir seu patrimônio e fica com a guarda dos filhos. Mas não, estamos no Brasil e a mãe puta ficaria com os filhos, patrimônio, casa e pensão (sic).”

Há ainda comentários que distorcem até mesmo o debate sobre feminicídio, tratando o crime com ironia e desinformação:
“Cace o feminicídio? A adúltera está viva (sic)”.

Movimentos que se levantam
Em meio à onda de ataques, julgamentos e à busca incessante por um culpado fomentada nas redes sociais, também surgem vozes que tentam conter o discurso de ódio. Um exemplo é o perfil da Defensoria Pública de Goiás no Instagram, que publicou um banner com os dizeres “ela não tem culpa”, acompanhado de uma legenda explicativa.
“Ela não tem culpa. Ponto final. Atos de abuso, violência e feminicídio são crimes. E ferir os filhos para atingir a mãe tem nome: violência vicária.”, diz o post.
