Entretenimento

Segunda noite de desfiles na Sapucaí celebram Rita Lee, ancestralidade e literatura

Aline Drumond - Estágio DM

Publicado em 17 de fevereiro de 2026 às 16:58 | Atualizado há 4 meses

Noite reuniu samba, religiosidade e literatura no carnaval carioca | Foto: REUTERS/Pilar Olivares
Noite reuniu samba, religiosidade e literatura no carnaval carioca | Foto: REUTERS/Pilar Olivares

A segunda noite de desfiles do Grupo Especial do Rio transformou a Marquês de Sapucaí em vitrine da diversidade cultural brasileira. Entre a noite de segunda-feira (16) e a madrugada de terça-feira (17), quatro agremiações apresentaram enredos que atravessaram música, religiosidade de matriz africana, história do samba e literatura periférica.

Abrindo a programação, a Mocidade Independente de Padre Miguel levou à avenida uma homenagem a Rita Lee. Na sequência, a Beija-Flor de Nilópolis defendeu o título com um enredo dedicado ao candomblé. A Unidos do Viradouro exaltou o mestre de bateria Ciça, enquanto a Unidos da Tijuca encerrou a noite com tributo à escritora Carolina Maria de Jesus.

Rock, irreverência e protagonismo feminino na Sapucaí

Com o enredo “Rita Lee, a padroeira da liberdade”, a Mocidade apostou na celebração da trajetória da artista, falecida em 2023, ressaltando sua postura contestadora e a defesa de causas como os direitos dos animais. Desde o esquenta, a arquibancada acompanhou o desfile ao som de referências a sucessos que marcaram gerações.

Trechos inspirados em canções como “Erva Venenosa”, “Ovelha Negra” e “Amor e Sexo” ajudaram a construir a narrativa sobre a cantora que se tornou símbolo de autonomia e criatividade no cenário musical brasileiro.

No último carro alegórico, o músico Roberto de Carvalho, viúvo de Rita, definiu a homenagem como um “tsunami de alegria, beleza, luzes e música”. A escola desfilou com 24 alas, sete carros alegóricos e cerca de 3.500 componentes.

Seis vezes campeã do carnaval carioca, a agremiação busca retornar ao topo após o último título, conquistado em 2017, dividido com a Portela.

Fé e resistência no enredo da atual campeã

Defendendo o título, a Beija-Flor apresentou o enredo “Bembé”, em referência à tradicional celebração realizada em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, considerada o maior candomblé de rua do mundo. A proposta destacou a força da ancestralidade africana e a importância das religiões de matriz africana na formação cultural do país.

O samba-enredo resultou da fusão de duas composições finalistas e empolgou o público com o refrão “Isso aqui vai virar macumba!”. Entre as novidades da apresentação estiveram os intérpretes Jéssica Martin e Nino do Milênio, que assumiram o microfone após a aposentadoria de Neguinho da Beija-Flor, voz histórica da escola.

Com 15 títulos no Grupo Especial, a azul e branca de Nilópolis levou à avenida 29 alas, seis carros alegóricos, um tripé e cerca de 3.200 componentes.

Trajetória de um mestre de bateria como fio condutor

A Viradouro emocionou o público com o enredo “Pra Cima, Ciça!”, dedicado a Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça, que completa 70 anos de idade e 55 de atuação no carnaval. O desfile percorreu sua história desde os primeiros passos na Estácio de Sá até a consolidação como referência entre ritmistas.

A bateria ganhou protagonismo ao desfilar sobre um grande carro alegórico, com Ciça em posição de destaque. O projeto foi desenvolvido pelo carnavalesco Tarcísio Zanon, com interpretação de Wander Pires e apresentação do casal de mestre-sala e porta-bandeira Julinho Nascimento e Rute Alves.

A escola contou ainda com participação especial do carnavalesco Paulo Barros em uma das alegorias. No total, foram 23 alas, seis carros, dois tripés e cerca de 2.500 integrantes.

Literatura periférica ganha voz na avenida

Encerrando a noite, a Unidos da Tijuca apresentou um desfile dedicado à obra e à trajetória de Carolina Maria de Jesus, autora de livros como Quarto de Despejo e Diário de Bitita. Moradora da favela do Canindé, em São Paulo, a escritora teve seus manuscritos descobertos pelo jornalista Audálio Dantas no fim dos anos 1950.

Publicado em 1960, “Quarto de Despejo” tornou-se um dos relatos mais impactantes sobre a vida nas periferias brasileiras, projetando Carolina internacionalmente. O desfile ressaltou a potência da palavra como instrumento de denúncia social e resistência feminina.

A apresentação contou com participações simbólicas, como a da escritora Conceição Evaristo. A Tijuca levou 24 alas, cinco carros alegóricos, dois tripés e aproximadamente 2.100 componentes, encerrando a segunda noite sob aplausos do público na Sapucaí.


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia