Perito denuncia ter sofrido pressão para manipular laudos do Caso Vitória
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 23 de fevereiro de 2026 às 13:59 | Atualizado há 3 meses
Denúncia de possível interferência em laudos marca um ano do assassinato da adolescente | Foto: Reprodução
Um ano após o assassinato da adolescente Vitória Regina, de 17 anos, em Cajamar, na Grande São Paulo, o caso volta ao centro das atenções com novas revelações. No último domingo (22), o programa “Domingo Espetacular” apresentou informações que levantam questionamentos sobre a condução da investigação, incluindo denúncias de suposta pressão para alteração de laudos periciais. O único investigado pelo crime é o serralheiro Maicol Sales dos Santos, preso desde março do ano passado.
Vitória desapareceu após sair do trabalho. Antes de sumir, enviou uma mensagem a uma amiga relatando que estava sendo seguida por dois homens. Depois desse contato, não voltou a se comunicar. Nove dias mais tarde, o corpo da jovem foi localizado em uma área de mata da cidade.
Maicol, morador da mesma região, tornou-se o principal suspeito após a polícia apontar que ele teria passado pelo trajeto da vítima no horário em que ela costumava chegar em casa. A perícia indicou a presença de manchas de sangue no carro e na residência dele. No celular do investigado, foram encontradas imagens de Vitória e de outras jovens com características semelhantes.
Denúncia de pressão e contestação de laudos
A defesa sustenta que os elementos apresentados teriam sido manipulados com o objetivo de incriminá-lo. Sem antecedentes criminais até então, Maicol foi classificado em relatório da Polícia Civil como um possível “stalker”. O aparelho celular dele, apreendido pela Guarda Civil Municipal de Cajamar, passou por perícia particular, cujo laudo apontou que arquivos teriam sido inseridos e excluídos enquanto o suspeito já estava detido.
As suspeitas sobre a perícia ganharam força após um perito da Polícia Científica afirmar ter sofrido pressão para alterar informações em documentos oficiais. No dia 10 de março, uma equipe esteve na casa atribuída ao investigado e não identificou vestígios de sangue. No dia seguinte, os profissionais foram substituídos e um novo grupo declarou ter encontrado material hemático em pontos anteriormente examinados.
O perito afastado declarou que seu nome foi incluído indevidamente em um laudo complementar anexado ao inquérito, no qual constava que ele teria solicitado nova vistoria no imóvel. Segundo o documento, na inspeção realizada em 11 de março foram encontrados vestígios de sangue na porta do banheiro. O profissional, com mais de três décadas de atuação na Polícia Científica, afirmou desconhecer a solicitação mencionada.
Ele também relatou que recebeu mensagem de um escrivão sugerindo que fosse registrado, no laudo do veículo de Maicol, que os bancos teriam sido trocados. Embora a mensagem tenha sido apagada, o escrivão teria escrito: “Se puder constar, seria importante”. O perito respondeu que não poderia inserir tal informação sem prova técnica. O caso foi comunicado à diretoria do Núcleo de Perícias Criminalísticas e ao sindicato da categoria. Por receio, o profissional optou por não conceder entrevista gravada. O escrivão citado não estava na delegacia no momento da reportagem.
Confissão anulada e presença de secretário em depoimento
No relatório final, a polícia concluiu que o material encontrado no banheiro da residência do acusado não era sangue humano. Maicol responde por feminicídio, sequestro qualificado e fraude processual. Quando foi detido, chegou a confessar o crime, mas o vídeo do depoimento, divulgado pela polícia, apresentava cortes. Posteriormente, ele escreveu uma carta afirmando ter sido coagido por policiais a assumir a autoria. A Justiça anulou a confissão.
O advogado de defesa declarou que, durante a madrugada, o delegado responsável teria convocado outro advogado e destituído a defesa constituída. Segundo ele, a confissão só foi conhecida pela equipe após ser divulgada na televisão. A defesa também questiona a presença do então secretário de Segurança Pública de Cajamar, Leandro Morette Arantes, durante o depoimento. À Justiça, o delegado Fábio Senat afirmou não se recordar da participação do secretário nos interrogatórios.
A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo informou que o inquérito foi concluído pela Polícia Civil de Cajamar e que a denúncia apresentada contra o acusado foi integralmente aceita pela Justiça. Um segundo procedimento apura a possível ocultação de cadáver e aguarda resultado de exame genético. A pasta sustenta que a investigação ocorreu com rigor técnico e transparência.
O Ministério Público de São Paulo declarou que não identificou irregularidades e que as alegações partem exclusivamente da defesa do réu, sem respaldo nas provas constantes nos autos. Já a Prefeitura de Cajamar reiterou que a apuração foi conduzida exclusivamente pela Polícia Civil e afirmou que o secretário municipal de Segurança não teve contato com o acusado, destacando que o depoimento foi conduzido apenas pelo delegado responsável pelo caso.