Vladimir Safatle fala sobre saúde psíquica no Tribunal Regional Eleitoral (TRE)
Redação
Publicado em 23 de fevereiro de 2026 às 21:05 | Atualizado há 3 meses
Filósofo fala sobre saúde mental e sofrimento psíquico
O filósofo Vladimir Safatle participa do Café Sesc, nesta sexta-feira (27/2), às 16h, no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), em Goiânia. Segundo o TRE, o escritor falará sobre saúde mental e sofrimento como forma de revolta a partir da vivência social numa era de crise psíquica.
Agora leiamos o ensaio “Estudos Decoloniais e o Grande FMI Universitário”. Publicado na “piauí” de janeiro (assim mesmo, em caixa baixa), o texto disserta sobre essa corrente de pensamento que se estabeleceu com tamanha força nos meios cultural e universitário.
“Uma reflexão sobre o colonialismo sem teoria do monopólio é como uma bomba que só produz barulho”, analisa o autor, em suas reflexões viralizadas. “Não faz sentido algum transformar a ‘modernidade’, monoliticamente pensada, em um objeto de crítica.”
O decolonialismo se manifesta nos movimentos sociais e em atividades culturais, como as que são desenvolvidas por museus e exposições. Além disso, são constatadas na literatura, na música e na política. Desde o fim do século 20, redefinem o pensamento latino-americano.
Para Vladimir, esse campo teórico é paradoxal. Enquanto insiste na tese de que o processo decolonizador não terminou, o que se produz é um paradigma crítico. Portanto, trata-se de um sistema que repete dinâmicas do colonialismo e da hegemonia cultural estadunidense.

Há de se considerar que, embora formulado sobretudo por intelectuais latino-americanos, os estudos decoloniais reforçam a supremacia anglo-saxã sobre o pensamento crítico. Em termos históricos, desenvolvem-se num momento no qual as revoltas sociais já não mais acontecem.
Segundo o filósofo, o capitalismo cria a ilusão de que o indivíduo vive em espaços múltiplos e plurais, quando de fato o sujeita às “mais brutais” estruturas monopolistas. Por isso, reflete, uma crítica do colonialismo que se pretendesse séria deveria começar pelo cartão de crédito.
No texto, Vladimir expõe que o ato de pagar o supermercado dessa forma está sujeito aos interesses monopolistas de três empresas cujas sedes estão no mesmo lugar, submetidas às leis do mesmo governo. “Vimos isso há poucos meses”, diz, sobre os ataques ao Pix.
Filho do ex-exilado político Fernando Safatle, Vladimir nasceu em Santiago, capital chilena. Com a ascensão do ditador Augusto Pinochet, em 1973, mudou-se para o Brasil. Na USP, graduou-se em filosofia, em 1994, e, no mesmo ano, em comunicação social pela ESPM.
No seu último livro, o autor decreta a morte da esquerda — “não para abandonar o campo político, voltar para a casa, cultivar seu jardim e esperar cinicamente o apocalipse final”. Pelo contrário, escreve, seria preciso voltar-se contra o cinismo e o dever cínico de nós mesmos.
“Na vida, morre-se várias vezes, e, em certas situações, reconhecer-se morto é a única maneira de preservar a vida”, apregoa, em “A Esquerda que Não Teme Dizer Seu Nome”. Vladimir cita o filósofo Gilles Deleuze: “É melhor a morte do que a saúde que nos propõem.”
Em último livro, autor decretou morte da esquerda

De certa forma, decretar a morte da esquerda se revela uma maneira de reconhecer que esse campo político não consegue exercer seu papel. Seu discurso e sua prática são, desde 2018, rechaçados pela classe trabalhadora. Não, isso não era problema de natureza comunicativa.
O problema ali era outro: a conjuntura. Não havia o que se oferecer. “Salvo a promessa de uma gestão mais ‘humana’ das crises terminais do capitalismo, algo completamente sem sentido”, filosofa. É impossível gerenciá-las dentro do mesmo sistema que as gerou.
Essas crises, bem, essa conjunção de fatores pariu o que o filósofo chama de “crises conexas”: ecológica, demográfica, social, econômica, política, psíquica e epistêmica. Quer dizer, elas estão conectadas e se retroalimentam, de modo a fabricar novas formas de impotência social.
Não bastassem tais problemas, Vladimir faz diagnóstico neoliberalizante: “quem entrasse na casa das famílias progressistas brasileiras as encontraria indignadas, emocionalmente envolvidas, entre choro e júbilo, com os nervos à flor da pele… mas pelo resultado do BBB.”

Reflexões
Não seria uma vitória política a ser comemorada que a pessoa certa ganhasse o reality show? Para muitos, sim. Não pensar assim, dizem nas redes, redunda em pré-conceito elitista. Algo parecido ocorre hoje: fala-se do reality na web. Muitas vezes numa perspectiva política, até.
Mas, a despeito de quem o venceu e de quem o vencerá, as mulheres grávidas seguem trabalhando em espaços insalubres. Desde 2017, vive-se sob uma decisão que transformou as relações de trabalho: o governo de Michel Temer conseguiu aprovar sua reforma trabalhista.
Mestre em filosofia na USP e doutor pela Universidade Paris VIII (em cuja pesquisa estudara o psicanalista Jacques Lacan), Vladimir Safatle pensa a política a partir da Teoria Crítica — sem esquecer Lacan, no entanto. É preciso recusar a alienação sob os domínios capitalistas.
Afinal, conforme diz o autor no livro “Alfabeto das Colisões: Filosofia Prática como Modo Crônico”, ela parte do desconforto com a própria linguagem. “Sempre achei graça de quem fala dela como se estivesse a habitar um território especial”, revela. Resta-nos lê-la.
Foto: Cecília Bastos/USP Imagens