Economia

IPCA-15 acelera a 0,84% em fevereiro pressionado por mensalidades escolares

Léo Carvalho

Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 16:16 | Atualizado há 3 meses

IPCA-15 de fevereiro registra avanço de 0,84%, maior que o esperado, puxado por educação e transporte | Foto: Uarlen Valerio
IPCA-15 de fevereiro registra avanço de 0,84%, maior que o esperado, puxado por educação e transporte | Foto: Uarlen Valerio

RIO DE JANEIRO, RJ (LEONARDO VIECELI/FOLHAPRESS) – Pressionada por mensalidades escolares e passagens aéreas, a inflação medida pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) acelerou a 0,84% em fevereiro, apontam dados divulgados nesta sexta-feira (27) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O resultado surpreendeu o mercado financeiro ao ficar bem acima das projeções. Na mediana, as estimativas sinalizavam alta de 0,57%, conforme a agência Bloomberg, com intervalo de previsões de 0,45% a 0,65%. O índice do IBGE havia subido 0,2% em janeiro.

No acumulado de 12 meses, o movimento foi diferente: o IPCA-15 desacelerou para 4,1%, após marcar 4,5% até janeiro. A perda de força nesse recorte está associada a uma questão estatística, já que em fevereiro de 2025 o índice mensal havia subido 1,23%, e agora essa variação mais alta é substituída por uma menor, de 0,84%.

Apesar da surpresa com o IPCA-15 deste mês, analistas ainda esperam que o Banco Central comece a cortar a taxa básica de juros (Selic) na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em março. O resultado de fevereiro, porém, tende a reforçar a cautela da instituição e pode dificultar uma redução mais intensa da Selic, atualmente em 15% ao ano.

A economista Claudia Moreno, do C6 Bank, afirma que as surpresas do IPCA-15 se concentraram em componentes mais voláteis, como passagens aéreas (11,64%) e seguro de veículo (5,62%). Ela prevê um corte gradual de 0,25 ponto percentual na Selic, de 15% para 14,75% em março. A economista Mariana Rodrigues, da SulAmerica Investimentos, também aponta surpresas em passagens aéreas e seguro de veículo, considerando que o índice acende sinal de alerta em relação à perspectiva de melhora estrutural da inflação ao longo do ano.

Mensalidades escolares e passagens aéreas puxam alta do índice

Em termos individuais, o reajuste das mensalidades do ensino fundamental exerceu o maior impacto no IPCA-15 deste mês, com 0,14 ponto percentual, alta de 8,07%. O segundo maior impacto veio da passagem aérea, 0,09 p.p., avançando 11,64%.

Outros destaques foram os reajustes da tarifa de ônibus urbano (0,08 p.p. e 7,52%), mensalidades do ensino superior (0,07 p.p. e 4,23%) e gasolina (0,07 p.p. e 1,3%). Entre as quedas, o principal alívio veio da energia elétrica residencial (-0,06 p.p.), com baixa de 1,37% em fevereiro.

Quando a análise considera os grupos de bens e serviços, os maiores impactos ficaram com transportes (0,35 p.p.) e educação (0,32 p.p.), com altas de 1,72% e 5,2% neste mês, acelerando ante janeiro. Os transportes foram pressionados por passagens aéreas e combustíveis, como a gasolina (1,3%). Já o ramo de educação refletiu a carestia dos cursos regulares (6,18%) devido aos reajustes praticados no início do ano letivo, abrangendo ensino médio (8,19%), fundamental (8,07%), pré-escola (7,49%), creche (6,19%) e nível superior (4,23%).

O grupo alimentação e bebidas, por outro lado, desacelerou para 0,2% em fevereiro. Dentro de casa, os destaques foram as altas do tomate (10,09%) e das carnes (0,76%), enquanto os produtos que registraram queda foram arroz (-2,47%), frango em pedaços (-1,55%) e frutas (-1,33%).

Apesar do “susto” com o índice de fevereiro, o economista sênior da Genial Investimentos, Gabriel Pestana, ressalta que a composição do IPCA-15 “não foi tão ruim quanto parece”. Ele afirma que componentes como a alimentação no domicílio vieram em linha com o esperado, enquanto houve surpresas em passagens aéreas, seguro de veículo, cursos e gasolina.

Diferenças entre IPCA-15 e IPCA

Por ser divulgado antes, o IPCA-15 sinaliza uma tendência para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a inflação oficial do Brasil e serve de referência para a meta perseguida pelo Banco Central.

Uma das diferenças entre os índices é o período de coleta dos dados: o IPCA-15 abrange a segunda metade do mês anterior e a primeira do mês de referência, enquanto o IPCA é apurado ao longo do mês inteiro. A coleta do IPCA-15 de fevereiro foi realizada de 15 de janeiro a 12 de fevereiro, e o IPCA oficial de fevereiro será divulgado pelo IBGE em 12 de março.

Na visão do economista Matheus Pizzani, do PicPay, o IPCA-15 não significa necessariamente uma inflexão na trajetória do IPCA. O resultado de fevereiro reflete um evento sazonal já esperado, a carestia da educação, combinada com pressão de preços administrados, que não são foco da política monetária do Banco Central.

Preços administrados, como a gasolina, são influenciados por decisões do setor público. Apesar da Petrobras ter reduzido o preço do combustível em suas refinarias em 27 de janeiro, a gasolina subiu no IPCA-15 de fevereiro, indicando que a baixa nas refinarias não reduziu por si só os preços nos postos durante o período de coleta do índice. O IBGE associou a carestia também ao reajuste do ICMS no início do ano.

Meta de inflação e perspectivas para a Selic

O Banco Central persegue meta de inflação de 3% para o IPCA acumulado em 12 meses, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, ou seja, teto de 4,5% e piso de 1,5%.

Com a trégua da inflação no segundo semestre de 2025, analistas passaram a projetar corte na Selic a partir de março de 2026. A Selic atual de 15% busca conter o ritmo de aumento dos preços, encarecendo o crédito e reduzindo consumo e investimentos, efeito que tende a desacelerar a atividade econômica, já observado no PIB.

A mediana das projeções do mercado para o IPCA em 12 meses de 2026 recuou para 3,91%, abaixo do teto da meta de inflação. Após o IPCA-15, a consultoria Logos Economia aumentou a projeção para o IPCA de fevereiro de 0,55% para 0,73%, mantendo a projeção anual para 2026 em 4%, considerando que a alta das passagens aéreas pode ser compensada em leituras futuras.


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