Mulheres negras ainda enfrentam desafios de representatividade na universidade
Giovanna Gonçalves - Estágio DM
Publicado em 8 de março de 2026 às 09:19 | Atualizado há 4 meses
Entre raça e gênero, mulheres negras buscam espaço nas universidades | Foto: Arquivo Agência Brasil/Marcello Casal Jr
Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a data costuma ser associada a homenagens e presentes para mães, amigas, irmãs e colegas. No entanto, a origem da celebração está ligada à mobilização histórica de mulheres por melhores condições de trabalho, igualdade salarial, direitos trabalhistas e participação política, incluindo o direito ao voto.
A organização das mulheres trabalhadoras ganhou força no início do século XX. Pesquisadoras apontam, porém, que essa narrativa muitas vezes invisibiliza a participação de mulheres negras, que já lutavam por condições dignas de vida e trabalho desde o período da escravidão.
Nesse contexto, o Diário da Manhã ouviu a professora de jornalismo da Universidade Federal de Goiás (UFG), Mariza Fernandes, além de estudantes da instituição, sobre representatividade e desigualdade racial no ambiente acadêmico.
Representatividade nas salas de aula
Para falar sobre o tema, a reportagem entrevistou três alunas negras do curso de Jornalismo da UFG. Ana Paula, Yasmin e Daiana, todas com 19 anos. Daiana pediu para não ter o nome verdadeiro divulgado e recebeu um nome fictício na reportagem.
Para as estudantes, a presença de professoras negras influencia diretamente o sentimento de pertencimento na universidade. “Quando temos referências com as quais nos identificamos, nos tornamos mais fortes. Ver docentes negras mostra que também pertencemos a esse ambiente”, afirma Daiana.
Ana Paula também destaca o impacto da representatividade na trajetória acadêmica. “A presença de uma docente negra traz sentimento de pertencimento, acolhimento e felicidade pela conquista”, diz.
Yasmin ressalta que essa identificação fortalece sua percepção sobre o espaço universitário. “Tem grande importância me ver nessas mulheres. Isso fortalece minha autoestima intelectual e mostra que a vivência e o conhecimento de pessoas negras também fazem parte do ambiente acadêmico”, afirma.
Presença ainda é minoritária
Apesar da importância apontada pelas estudantes, a presença de professoras negras ainda é reduzida no curso. Ana Paula relata que teve contato com poucas docentes negras ao longo da graduação. “Tive contato com apenas duas professoras negras na universidade. Mesmo assim, essa presença já gera impacto na experiência acadêmica”, diz.
Yasmin também afirma que o contato ainda é limitado. “Eu tive pouco contato com mulheres negras no jornalismo. Quando você não se identifica com quem está à frente da sala, isso pode influenciar até o interesse pelo ambiente”, afirma.
Para Daiana, a ausência de professoras negras evidencia desigualdades estruturais no ensino superior. “As professoras negras são minoria no meu curso. Isso mostra as dificuldades que mulheres negras ainda enfrentam para acessar a docência universitária”, afirma.
Dados sobre a docência
Dados do Censo da Educação Superior indicam que mulheres negras ainda representam uma parcela reduzida do corpo docente nas universidades brasileiras.
Na Universidade Federal de Goiás, levantamento do Inep mostra que, em 2016, havia 1.203 mulheres no corpo docente da instituição. Entre elas, aproximadamente 0.3% eram mulheres negras, o que corresponde a 15 docentes.

Nos anos seguintes, o número total de docentes mulheres registrou redução, e a participação de professoras negras permaneceu baixa em relação ao total. Em 2024, último ano em que há dados disponíveis, de 848 mulheres, em média 158 são mulheres negras.

No cenário nacional, a desigualdade também aparece. Em 2024, as mulheres negras representam uma parcela menor entre as docentes das universidades públicas quando comparadas às professoras brancas. Enquanto há 4.844 mulheres brancas lecionando, há apenas cerca de 2.030 mulheres negras, representando 13,6% do corpo docente feminino.

Mesmo com aumento no número absoluto de docentes, a diferença entre os grupos permanece significativa.
Vivência das estudantes
Além da questão da representatividade, as estudantes também relatam experiências relacionadas à desigualdade racial dentro da universidade.
“Por experiência própria, posso dizer que as vivências das mulheres negras muitas vezes não recebem a mesma atenção. Existe ainda o estereótipo da mulher negra forte, que acaba negando a vulnerabilidade dessas mulheres”, afirma Ana Paula.
Daiana avalia que o ambiente acadêmico reflete desigualdades presentes na sociedade. “A universidade é um reflexo da sociedade. Como vivemos em uma sociedade racista, esse tratamento também aparece no meio acadêmico”, diz.
Yasmin acredita que mulheres negras enfrentam uma cobrança maior dentro desses espaços. “Quando uma mulher negra erra, o peso costuma ser maior. E quando sofre algum tipo de preconceito, muitas vezes a situação acaba sendo minimizada”, afirma.
Debate sobre raça e gênero
Professora, formada em Jornalismo e com doutorado em Geografia, Mariza Fernandes, é pesquisadora do Laboratório de Estudos de Gênero, Étnico-Raciais e Espacialidades do Instituto de Estudos Sócio-Ambientais da UFG, e também faz parte da da Comissão de Heteroidentificação da faculdade, afirma que a discussão sobre o Dia Internacional da Mulher também precisa considerar as diferentes realidades vividas pelas mulheres.

Segundo a professora, a análise deve levar em conta a interseção entre raça, gênero e outras dimensões sociais. “A situação da mulher negra precisa ser analisada por uma perspectiva interseccional. Essas mulheres são atravessadas por diferentes formas de desigualdade, como gênero, raça e classe”, explica.
Ela também destaca que o feminismo negro surge justamente da necessidade de discutir demandas específicas.
“Muitas pautas feministas estavam relacionadas ao acesso das mulheres ao mercado de trabalho. No caso das mulheres negras, a realidade sempre foi diferente, porque elas sempre trabalharam. As demandas envolvem acesso à educação, saúde e combate à violência”, afirma Mariza Fernandes.