Cotidiano

Consuelo Nasser foi pioneira na defesa das mulheres em Goiás

Léo Carvalho

Publicado em 8 de março de 2026 às 13:36 | Atualizado há 4 meses

Consuelo Nasser, advogada e jornalista cuja atuação influenciou debates jurídicos e políticas de apoio às mulheres | Foto: Arquivo pessoal/DM
Consuelo Nasser, advogada e jornalista cuja atuação influenciou debates jurídicos e políticas de apoio às mulheres | Foto: Arquivo pessoal/DM

Uma das principais vozes do jornalismo goiano após a década de 1950, a advogada Consuelo Nasser (1938–2002) utilizou a opinião para denunciar comportamentos considerados incompatíveis com os direitos das mulheres. Em textos e manifestações públicas, criticou a cultura patriarcal e confrontou argumentos recorrentes em julgamentos de crimes contra mulheres.

Nos tribunais, Consuelo questionava a chamada tese da defesa da honra, utilizada em casos de feminicídio. Para ela, a justificativa que atribuía ao homem o direito de matar para preservar a própria honra não poderia ser aceita pela Justiça. Em artigos e intervenções públicas, levantava a pergunta sobre qual razão poderia justificar a morte de mulheres nesses casos.

Ao aprofundar seus estudos em Direito no Rio de Janeiro, Consuelo entrou em contato com o jornalista Batista Custódio, fundador do jornal Diário da Manhã (DM). O veículo realizava, naquele período, uma campanha contra mortes de mulheres que ocorriam sem repercussão e muitas vezes eram tratadas com indiferença nos corredores de departamentos policiais e do próprio sistema de Justiça.

A trajetória da advogada e jornalista atravessou algumas das principais mobilizações sociais de Goiás nas décadas de 1960 e 1970. Feminista e ativista de direitos humanos, também atuou no campo da imprensa e ajudou a construir instituições e movimentos que passaram a discutir a violência contra a mulher no estado.

Entre as iniciativas relacionadas à sua atuação estão movimentos voltados à valorização da mulher goiana e a defesa da criação de delegacias especializadas no atendimento feminino. As discussões ajudaram a abrir espaço para políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.

Pesquisas acadêmicas também registram a atuação de Consuelo Nasser. Uma dissertação de mestrado intitulada “Sororidade sem soberania: o feminismo pioneiro de Consuelo Nasser”, defendida na Universidade Estadual de Goiás, aponta que a advogada foi uma das primeiras a questionar, de forma sistemática, o uso da tese da defesa da honra no país.

O trabalho analisa sua influência na construção de debates sobre direitos das mulheres e na formação de uma agenda pública sobre violência de gênero.

Presidente do Diário da Manhã

O filho da advogada, Júlio Nasser, presidente do jornal Diário da Manhã, lembra que a mãe estruturou um movimento que mais tarde resultou na criação do Centro de Valorização da Mulher (Cevam), localizado nas proximidades da Rodovia de Goiânia. O espaço passou a oferecer acolhimento e orientação jurídica a mulheres vítimas de violência.

“O trabalho iniciado por Consuelo Nasser ajudou a abrir caminhos para a defesa das mulheres em Goiás e para a criação de espaços de acolhimento às vítimas de violência”, afirma o presidente do Diário da Manhã, Júlio Nasser | Foto: Arquivo pessoal/DM

Em um período em que casos de agressão contra mulheres frequentemente apareciam nas manchetes policiais, o Cevam tornou-se ponto de apoio para vítimas e suas famílias.

Consuelo Nasser também participou da produção de publicações e da organização de debates públicos. Entre as iniciativas está o seminário “Cinco de Março”, realizado na antiga Folha de Goiás. Os encontros reuniam jornalistas, juristas e militantes para discutir políticas públicas e estratégias de combate à violência contra mulheres.

Consuelo nasceu em Caapônia, em 1938. Ao longo da vida, construiu uma trajetória marcada pela atuação no jornalismo, na advocacia e na defesa de direitos humanos. Morreu em 2002, após enfrentar a dor da morte do filho Fábio Nasser anos antes.

Para pesquisadores e profissionais que acompanharam sua trajetória, seus textos e depoimentos permanecem como registros importantes da luta por igualdade e proteção jurídica às mulheres.


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