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Com 16 indicações ao Oscar, ‘Pecadores’ traz trilha sonora da resistência

Redação Online

Publicado em 10 de março de 2026 às 21:01 | Atualizado há 4 meses

Cena do filme 'Pecadores', que deve fazer história no próximo domingo (15/3)
Cena do filme 'Pecadores', que deve fazer história no próximo domingo (15/3)

Lívia Lemos

(Folhapress) – O filme “Pecadores” (HBO Max) captura o clima dos anos 1930 ao acompanhar os irmãos gêmeos Fumaça e Fuligem em seu retorno ao estado americano do Mississippi, para fundar o Clube do Blues. Mais que diversão, o bar, escondido no fundo da floresta, convida a população negra a celebrar, sem medo e ao som do gênero, as suas tradições.

Com seu recorde histórico de 16 indicações no Oscar — incluindo melhor filme, direção e ator (leia abaixo), para Michael B. Jordan —, “Pecadores” mistura ainda os gêneros thriller e horror a esse retrato do sul dos Estados Unidos de 1932, para explorar temas como racismo, exclusão, ancestralidade e musicalidade negra.

O blues é o fio condutor de toda a narrativa. Mais que um gênero musical, ele é uma síntese cultural que começa nas plantações de algodão do século 19 e que preserva em suas letras elementos da cultura afro-americana. Nas composições, há comentário político, filosofia folk e crença popular. Seu papel de resistência para a população negra está intimamente ligado à sua origem, por ter surgido na voz dos escravos.

Eles foram os primeiros a cantar as chamadas “work songs” magia popular — músicas de trabalho. “Nessas canções, ao mesmo tempo que narravam as dificuldades de ser trabalhador no campo, tentavam despressurizar a vida enfadonha do trabalho escravo por meio da simplicidade”, diz Caio Francisco Azevedo, doutorando em assombrologia do jazz na Universidade Paris 8.

Segregação

A profissionalização do blues como gênero, no formato que vemos em “Pecadores”, só ocorre no século 20. O “call-and-response” permanece, mas agora as letras denunciam os problemas vivenciados pela população negra segregada, como a violência doméstica, o alcoolismo e a perseguição por grupos supremacistas, como a Ku Klux Klan. Entre 1882 e 1927, mais de 4.000 negros foram linchados no sul do país, vale dizer.

“Embora a emancipação dos escravos tenha acontecido em 1865, o esforço para a sua integração na cidadania foi mínimo”, diz Sean Purdy, professor de história americana da USP. “Eles não podiam frequentar os mesmos espaços que brancos, como escolas, cinemas ou trens. Isso só vai mudar nos anos 1960.”

Uma das saídas era entrar na indústria fonográfica, que emergia no norte na década de 1930. Se no sul do país eles tinham que fugir do linchamento e recorrer a espaços escondidos para cantar, o outro lado do mapa os convidava a existir socialmente por meio da sua voz. 

No filme, o protagonista Sammy quer justamente ir para Chicago cantar blues. Não só dele, mas de muitos cantores que migraram para o norte com a expectativa de mudar de vida. Entre eles, Muddy Waters, Howlin Wolf, T Bone Walker, Big Bill Broonzy, Son House, Robert Johnson, Ma Rainey e John Lee Hooker. (Folhapress) 

Michael B. Jordan pode vencer brasileiro, diz revista

Intérprete é considerado favorito para levar troféu neste fim de semana – Foto: Warner Bros.

O crítico Clayton Davis, da revista Variety, aposta que Wagner Moura não levará o Oscar de melhor ator, mas que deveria ser o vencedor da categoria. Para o crítico, Michael B. Jordan, de “Pecadores”, levará o Oscar de melhor ator. O filme traz o blues ao centro da narrativa.

“Desde o início do século 20, o blues é tratado como ‘música do Diabo’, porque ele menciona objetos como o ‘mojo’ [amuleto da sorte], as ‘conjure balls’ [bolas de conjuro] e o ‘black cat bone’ [ossos de gato preto]”, afirma Sean Purdy. “É muito comum também no blues o cantor falar que vai vender sua alma em troca do sucesso.”

“Diz a lenda que, numa encruzilhada no meio da noite, Johnson encontrou uma figura alta e negra, o Diabo ou, no folclore, ‘The Black Man’, que afinou seu violão em troca de sua alma. Ele alimentou essa lenda com a música ‘Me and the Devil Blues’, onde canta ‘eu e o Diabo andávamos lado a lado’.”

Pastor

É por isso que, logo no começo do filme, o pai de Sammy, pastor de uma igreja protestante, orienta o filho para que largue o violão e pare de cantar blues, pois isso “é coisa do Diabo”. Mas havia também um outro lado nas letras, o das coisas consideradas promíscuas, lembra Purdy. “As músicas eram tocadas em bares e exaltavam a libertinagem, o alcoolismo e também criticavam os pastores.” (L.L/ FP) 

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