Lula busca nome de consenso para governo do Maranhão após racha na base
Léo Carvalho
Publicado em 13 de março de 2026 às 14:54 | Atualizado há 4 meses
O presidente Lula (PT) acelerou as articulações para organizar sua base política no Maranhão e busca um nome de consenso para manter unida sua aliança na disputa pelo governo do estado.
A base governista enfrenta uma disputa entre o governador Carlos Brandão (sem partido) e aliados do ex-governador Flávio Dino, atual ministro do Supremo Tribunal Federal.
A tensão aumentou após Brandão lançar o sobrinho Orleans Brandão (MDB) como candidato à sucessão estadual. A decisão provocou reação entre petistas, que esperavam a candidatura do vice-governador Felipe Camarão (PT).
Integrantes do PT, do Palácio do Planalto e até aliados do próprio governador afirmam que havia um acordo para que Brandão deixasse o cargo em abril do próximo ano para disputar o Senado. Nesse cenário, Camarão assumiria o governo e concorreria à reeleição no cargo.
O governador, no entanto, anunciou que permanecerá no cargo até o fim do mandato e nega a existência desse acordo.
“Nunca houve esse acordo de apoiar o Felipe Camarão”, afirmou.
Brandão foi vice de Flávio Dino e assumiu o governo do Maranhão em abril de 2022. No mesmo ano, foi reeleito. Ao longo do mandato, porém, os dois grupos políticos se distanciaram.
Com a ida de Dino para o Supremo Tribunal Federal, ele deixou a atuação partidária, mas seus aliados mantiveram atuação política no estado. Parte desse grupo passou a disputar espaço com o entorno do atual governador.
O conflito político se intensificou no último ano. Ao decidir permanecer no cargo, Brandão evitou a ascensão de Felipe Camarão ao governo e confirmou a indicação do sobrinho para a sucessão.
Busca por alternativa
No entorno do presidente Lula, a avaliação é que a única forma de manter unidas as forças de esquerda e o grupo político do governador seria a escolha de um terceiro nome para disputar o governo.
Para conduzir as conversas, Lula escalou o presidente do PT, Edinho Silva, que deve se reunir com Brandão para discutir alternativas.
Uma das linhas de argumentação é que indicar um parente direto como sucessor pode ser interpretado como tentativa de consolidar um grupo político familiar no comando do estado.
Entre os nomes citados nas conversas está o do ministro dos Esportes, André Fufuca (PP), mas a proposta não teve apoio dentro do grupo do governador. Outra alternativa mencionada é a deputada estadual Iracema Vale (MDB), presidente da Assembleia Legislativa.
Brandão, porém, afirma que a candidatura de Orleans Brandão está definida e não haverá mudança.
“Ele está em primeiro lugar nas pesquisas. Tem apoio de 12 partidos”, disse.
Disputa dentro do PT
O vice-governador Felipe Camarão afirma que a prioridade do PT é a reeleição do presidente Lula, mas diz que ainda há espaço para um acordo político com o governador.
“A gente nunca fechou as portas para o governador. Basta ele cumprir o acordo original no qual ele renuncia para disputar ao Senado, eu assumo o governo e concorro à reeleição, ele indica o vice e a gente ganha a eleição junto”, afirmou.
Enquanto as negociações continuam, Camarão iniciou uma pré-campanha e tem visitado municípios do interior do estado.
Ainda pouco conhecido do eleitorado, ele aposta no apoio de Lula, que recebeu 71% dos votos no Maranhão no segundo turno da eleição presidencial de 2022.
Segundo Camarão, ao menos 117 dos 192 diretórios municipais do PT apoiam a candidatura própria do partido. Ele também articula uma chapa com PC do B, PV, PSOL, Rede e PSB.
“A minha candidatura será mantida, salvo deliberação contrária do presidente Lula”, afirmou.
Outras articulações
Em outubro do ano passado, Brandão esteve com Lula e, segundo relatos de aliados do presidente, pediu que ele reconsiderasse o apoio a Camarão. O argumento apresentado foi que a candidatura de Orleans já teria apoio político suficiente para seguir adiante.
Lula não respondeu ao pedido. Aliados afirmam que o presidente ficou incomodado com o movimento do governador, mas avaliam que ele precisa manter a aliança política no estado, considerado estratégico.
Brandão afirma que o encontro tratou apenas de possíveis candidaturas ao Senado e diz que ainda não houve definição.
Paralelamente, aliados remanescentes do grupo de Flávio Dino passaram a dialogar com o prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD).
Com perfil de centro, ele reúne eleitores ligados tanto ao campo lulista quanto ao bolsonarismo. Caso renuncie à prefeitura para disputar o governo, a tendência é que não busque apoio formal do presidente.
Enquanto isso, Carlos Brandão intensifica a articulação política nos municípios para fortalecer a candidatura do sobrinho. Adversários apontam como exemplo dessa estratégia a doação de veículos para câmaras municipais.
Orleans Brandão tem 31 anos e ocupa o cargo de secretário extraordinário de Assuntos Municipalistas do governo estadual. Ele também assumiu a presidência do diretório estadual do MDB, sucedendo o pai, Marcus Brandão, que tem influência na estrutura política do governo. (CATIA SEABRA, JOÃO PEDRO PITOMBO E CAIO SPECHOTO/Folhapress)