“Meu foco está nas pessoas negras”, diz escritora Cidinha da Silva
Redação
Publicado em 25 de março de 2026 às 20:45 | Atualizado há 2 meses
Mineira publicou mais de duas dezenas de livros desde os anos 2000
Marcus Vinícius Beck
Cidinha da Silva só bate em cachorro grande. Quer dizer, Sueli Carneiro é quem bate. Cidinha se diz apenas aprendiz da filósofa nessa escola, a de escolher suas batalhas e jamais desperdiçar energia em brigas tolas. Não se deve bater naqueles que não podem lutar.
Cidinha lança seu último livro hoje, a partir das 19h, em Goiânia. A escritora foi convidada pelo Grupo de Mulheres Negras Malunga a participar de uma roda de conversa no Jardim América. Durante o evento, ela vai autografar exemplares de “Só Bato em Cachorro Grande, do Meu Tamanho ou Maior”, publicado no ano passado pela editora Rosa dos Tempos.
Em 81 lições inspiradas no pensamento de Sueli Carneiro, a autora tece pequenas crônicas, aforismos e provocações. Ela crê que, no mundo, há espaço para brancos medíocres, pois eles recebem prêmios, são conduzidos a postos de comando, herdam impérios. Depois disso, contratam profissionais para auxiliá-los, técnicos especializados em multiplicar fortunas.
Quando a saudade aperta — trem que dói demais —, Cidinha não sente. Evita sentir. Nessas horas, reconhece, seria mais fácil imitar Paulinho da Viola e atestar que não se tem saudade porque o vivido mora em nós, no caso, mora nela mesma. São as “Tecnologias Ancestrais de Produção de Infinitos”, para evocar o título do livro publicado na casa editorial Martelo.
“A música é uma oitava superior na arte. Faço literatura porque não sei fazer música”, revela a autora, graduada em história pela UFMG. É certo que seus textos — já escreveu 20 livros — alimentam reflexões sociológicas. Por isso, é seguro afirmar que o Brasil deve lê-la para conhecer Sueli Carneiro, filósofa e fundadora da ONG Geledés – Instituto da Mulher Negra.
Aqui está Cidinha da Silva. Cidinha certeira e cirúrgica. Afirma, sem delongas, que a luta contra o racismo exige coragem e bravura, ou galhardia. Leia a íntegra da conversa:

Diário da Manhã – Por que você decidiu que só bate em cachorro grande?
Cidinha da Silva – Bom trocadilho, este. Quem bate apenas em Cachorro Grande é Sueli Carneiro. Eu sou aprendiz nessa escola. Bater apenas em cachorro grande significa duas coisas principais: a primeira, que a pessoa deve escolher suas batalhas, não deve desperdiçar energia em qualquer briga; a segunda, que o adversário deve ter a estatura da gente, ou seja, não devemos brigar com quem não está à nossa altura, por um lado, e por outro, nunca se deve bater em quem não tem condições de lutar, pois isso seria uma atitude covarde.
DM – O que devemos fazer para acabar com os privilégios da branquitude?
Cidinha – Steve Biko, liderança sul africana assassinada pelo apartheid, dizia nos anos 1980 que estávamos (e continuamos), por nossa própria conta. Amílcar Cabral, liderança dos países africanos de expressão portuguesa em seu processo de libertação de Portugal, dizia: “quem quiser vir conosco, venha, ao nosso lado, pois à nossa frente, estaremos nós mesmos”. Não me interesso muito pela branquitude e seus privilégios, nosso caminho de luta é não alimentar ilusões, nenhum tipo de ilusão (lição 29 do Método Sueli Carneiro), fortalecer a consciência negra e o povo negro. Meu foco está nas pessoas negras. Os brancos aliados que se ocupem da branquitude.
DM – Ao dialogar com Sueli Carneiro, você nos lembra que a justiça social é fundamentada na força dos ancestrais e nos encontros. Por que devemos executar as tarefas com galhardia?
Cidinha – A luta contra o racismo exige muita coragem, muita força, muita bravura (galhardia), dignidade e princípios éticos. Lutar com galhardia é lutar com coragem, bravura, ética e dignidade.
DM – Em “Só Bato em Cachorro Grande”, há lições de amor, escuta, formação política e ancestralidade. O que Sueli Carneiro representa em seu percurso intelectual?
Cidinha – Representa um modelo de pensamento autônomo, com muito propósito e direcionamento.
DM – Na crônica “Um Dia de Música, como Outro Qualquer”, a prosa se mostra lírica e rememora o cancioneiro de Milton, Paulinho e Gil. O que é a música para você?
Cidinha – A música é uma oitava superior na arte. Faço literatura porque não sei fazer música.
DM – Em política, você diz que é necessário distinguir o básico da perfumaria, o valor do preço, a tática da estratégia, o louro da vitória do caminho de luta. Por que ainda temos dificuldade nisso?
Cidinha – Porque somos humanos, temos ego, vaidades, alimentamos ilusões, somos ofuscados pelas luzes da ribalta, nos preocupamos mais com a performance do que com o propósito. Todos nós somos falíveis e estamos em processo de construção constante e infinito, por isso temos as dificuldades mencionadas.