Cotidiano

“O maior desafio foi aprender a me comunicar com meus filhos”, diz mãe de gêmeos com autismo

Heloysa Camilo - Estágio DM

Publicado em 30 de março de 2026 às 10:34 | Atualizado há 4 meses

Relato de mãe de gêmeos atípicos evidencia desafios e avanços no desenvolvimento de crianças com autismo | Foto: Arquivo pessoal
Relato de mãe de gêmeos atípicos evidencia desafios e avanços no desenvolvimento de crianças com autismo | Foto: Arquivo pessoal

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) ganha visibilidade no Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril. Mais do que uma data simbólica, o tema faz parte da rotina de famílias que convivem com desafios diários, mas também com aprendizados e conquistas.

A importância da estimulação precoce e do acompanhamento multiprofissional é apontada por especialistas como essencial para o desenvolvimento de crianças com autismo, favorecendo a comunicação, a autonomia e a interação social. Na prática, cada trajetória é única — como mostra a história da mãe atípica Macielle Cavalcante da Fonseca Curzide.

A rotina de uma mãe atípica

Mãe dos gêmeos de 7 anos Fernando Curzi Filho e Izabelle Cavalcante Curzi, em entrevista ao Jornal Diário d Manhã, ela relembra o impacto do diagnóstico. “Foi um susto, porque eu não conhecia absolutamente nada sobre autismo. Eu era totalmente leiga e precisei aprender do zero”, conta.

Apesar do impacto inicial, ela afirma que aceitar os filhos nunca foi uma dificuldade. O maior desafio, segundo a mãe, foi entender como se comunicar, principalmente com o filho, que é não verbal e apresenta maior nível de suporte. “Eu não sabia como interpretar o que ele queria, como me conectar. Isso gera uma frustração muito grande, um desespero, porque você quer ajudar e não sabe como”, relata.

Izabelle Cavalcante durante consulta ao dentista | Foto: Arquivo Pessoal

Com o tempo e o acesso às terapias, a realidade começou a mudar. “Quando consegui encontrar um caminho de comunicação com ele, isso me trouxe tranquilidade e felicidade. Mas não é fácil, o dia a dia de uma mãe atípica é desafiador”, afirma.

Especialistas destacam a neuroplasticidade

A experiência reforça o papel da neuroplasticidade, especialmente nos primeiros anos de vida. A fonoaudióloga Juliana Menezes, da Affect Centro Clínico e Educacional, explica que esse período é decisivo para o desenvolvimento. “É justamente até os três anos que temos maior plasticidade cerebral. Cada estímulo, intervenção e experiência iniciada precocemente pode gerar impactos concretos e duradouros na comunicação, linguagem e interação social”, destaca.

Segundo a fonoaudiologia, a estimulação precoce é indicada desde os primeiros anos de vida, com maior identificação de sinais a partir de um ano e meio. “Essa intervenção proporciona melhora significativa no desenvolvimento global da criança, promovendo autonomia e independência”, ressalta. Juliana também reforça a importância do envolvimento familiar no processo terapêutico, ampliando os resultados no dia a dia.

A fisioterapeuta Rafaela Campos destaca que o acompanhamento multiprofissional funciona como uma ponte para o desenvolvimento infantil. “Intervenções especializadas, como fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional e outras áreas, ajudam a criança a se comunicar melhor, a se relacionar e a fortalecer a autoconfiança”, explica Rafaela, que também é diretora multiprofissional da Affect.

A fisioterapeuta também orienta os pais a observarem sinais precoces, como ausência de contato visual, atrasos na fala e comportamentos repetitivos. “Buscar orientação especializada é o primeiro passo para garantir melhores oportunidades de desenvolvimento”, pontua.

“O acompanhamento multiprofissional ajuda a criança a se comunicar melhor, a se relacionar com outras crianças e fortalece a autoconfiança”, afirma Rafaela Campos | Foto: Affect/Divulgação

Mãe deixa mensagem de gratidão

Na rotina de Macielle, as terapias são parte fundamental desse processo. “É lá que vemos evolução de verdade. Mas também é preciso rotina e um ambiente onde a criança se sinta confortável”, afirma.

Segundo ela, o vínculo com os profissionais faz toda a diferença. “Não é o plano de saúde que escolhe a clínica, é a criança que mostra onde se sente bem. Meu filho já passou por lugares onde não se adaptou, mas hoje, com profissionais como Juliana e Rafaela, ele se desenvolve e é feliz”, relata.

Macielle afirma que pessoas com TEA podem apresentar maior sensibilidade sensorial, o que influencia diretamente na adaptação aos ambientes. “Barulho, luz ou estímulos em excesso podem causar desconforto. Por isso, o ambiente precisa ser acolhedor”, afirma.

A mãe também alerta para a necessidade de continuidade no tratamento. “Sem as terapias, a criança pode regredir. É ali que está o mundo deles, onde criam rotina, vínculos e se sentem importantes”, afirma.

Por fim, ela deixa uma mensagem para outras famílias. “Não desistam. Cada dia é um desafio, mas também é uma vitória. Ser mãe atípica é se superar diariamente. Existe dor, mas também existe aprendizado, propósito e muito amor”, conclui.

O pai dos gêmeos, Fernando Curzi, tambem participa da rotina dos filhos | Foto: Arquivo Pessoal


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