Crise energética na Ásia impulsiona volta ao carvão após conflito no Oriente Médio
Heloysa Camilo - Estágio DM
Publicado em 1 de abril de 2026 às 09:05 | Atualizado há 2 meses
Crise energética global reacende debate sobre segurança energética e clima | Foto: Reprodução
Países da Ásia estão ampliando o uso de carvão para suprir um déficit de energia provocado pela guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e o Irã, segundo o jornal britânico The Guardian.
Governos da região tentam compensar a queda na energia importada, especialmente do Oriente Médio. Com menor oferta, vários países passaram a recorrer ao carvão, o combustível fóssil mais poluente, para manter a geração de eletricidade.
A Coreia do Sul decidiu adiar o desligamento de usinas a carvão e suspender limites para a geração elétrica a partir do combustível. Já a Tailândia elevou a produção na maior usina do país, enquanto as Filipinas, que declararam emergência nacional de energia, planejam ampliar a operação de térmicas.
No sul da Ásia, Índia e Bangladesh também intensificaram o uso do carvão para evitar apagões. Na Índia, onde o combustível responde por cerca de 75% da geração elétrica, o governo pediu operação máxima das usinas e suspensão de paradas programadas. Bangladesh, por sua vez, aumentou a geração e as importações de carvão em março.

GNL em crise e impacto global
A crise atinge diretamente o mercado de gás natural liquefeito (GNL), considerado um “combustível de transição”. O Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de um quinto das remessas globais, ficou praticamente fechado, agravando a escassez.
Ataques a instalações no Catar também comprometem a oferta global. Parte relevante do GNL desapareceu das cadeias de abastecimento, com impacto concentrado no Indo-Pacífico.
Segundo Henning Gloystein, do Eurasia Group, o mercado mudou rapidamente: de um cenário de oferta relativamente equilibrada para um déficit severo em poucas semanas, com expectativa de alta de preços e risco de falta real de combustível.
Países com reservas próprias tendem a usar o carvão como substituto imediato. “É a forma mais rápida e barata de compensar a falta de GNL”, afirmou o especialista ao The Guardian.
Risco de retrocesso climático
Especialistas alertam que a resposta emergencial pode criar uma dependência duradoura do carvão. Para Pauline Heinrichs, do King’s College London, o impacto é “devastador” tanto para o clima quanto para a saúde pública.
Ela destaca que economias com maior participação de energias renováveis são menos vulneráveis a choques de oferta e preços. A recomendação é usar a crise como oportunidade para acelerar investimentos em energia limpa, em vez de expandir infraestrutura fóssil.
Dinita Setyawati, do think tank Ember, reforça que depender do carvão não é sustentável e que fontes renováveis locais aumentam a segurança energética no longo prazo.
Medidas emergenciais e impacto social
Alguns países já adotaram medidas para economizar energia. As Filipinas e o Sri Lanka implementaram semanas de trabalho reduzidas no setor público. O Vietnã incentivou o trabalho remoto, enquanto Bangladesh antecipou o fechamento de universidades e ampliou apagões programados. No Paquistão, escolas migraram para aulas online.
A expectativa de analistas é de que a recuperação do mercado de GNL leve anos, mesmo com eventual redução das tensões no Oriente Médio. “O dano causado não será revertido no curto prazo”, afirmou Gloystein.
(Folhapress)