Caso de racismo em atlética da UFG expõe conflitos e gera nova polêmica
Giovanna Gonçalves - Estágio DM
Publicado em 9 de abril de 2026 às 17:00 | Atualizado há 3 meses
Denúncia ocorreu em 2025, mas só veio a público após pressão de estudantes | Foto: Divulgação/UFG
O presidente da Associação Acadêmica, Atlética e Científica dos Estudantes de Direito da Universidade Federal de Goiás (UFG), conhecida como “Mafiosa”, foi expulso da agremiação após denúncias de racismo. O caso ocorreu no segundo semestre de 2025, mas só veio ao conhecimento da comunidade estudantil na última segunda-feira (6), quando a associação publicou pronunciamento nas redes sociais e oficializou a decisão de banimento.
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Em um primeiro momento, a atlética publicou uma “nota de esclarecimento”, informando que, à época, o caso havia sido discutido e considerado resolvido. “À época do ocorrido, foi realizada uma reunião com todos os envolvidos, na qual a situação foi discutida e, de forma errônea e precipitada, considerada como resolvida.”
“Associação reconhece que a condução inicial do caso não foi suficiente para contemplar a complexidade e a sensibilidade da situação”, admiti a Atlética em comunicado. No entanto, a associação também afirma ter adotado medidas posteriormente.
“Esclarecemos que o caso foi devidamente tratado internamente, com a realização de reuniões e a adoção de todas as medidas cabíveis assim que o descontentamento em relação à resolução chegou ao nosso conhecimento, incluindo a desvinculação do infrator de suas atividades.”
Veja abaixo a nota publicada pela Atlética Mafiosa da UFG, mas que gerou insatisfação na comunidade estudantil e foi apagada pouco tempo depois.

Nota de retratação
Na terça-feira (7) desta semana, um novo pronunciamento foi publicado, mas desta vez intitulado “nota de repúdio e retratação”.
“A Associação Acadêmica Atlética e Científica dos Estudantes de Direito da UFG – A.A.A.C.E.D. vem a público se desculpar profundamente pela Nota de Esclarecimento postada anteriormente, que não tratou o assunto com a devida seriedade e se afastou do compromisso com o respeito à diversidade, inerente a um curso de uma universidade pública, e que foi escrita e lançada de forma equivocada e sem a participação efetiva de seus membros”, diz a nota.

Ainda de acordo com a nota, a Atlética afirma:
“A Mafiosa repudia veementemente os atos racistas cometidos por um de nossos membros anteriores, que até então ocupava o cargo de presidente da atlética, em direção a outro membro da diretoria. Informamos que esse indivíduo não faz mais parte da pasta executiva, foi expulso da associação e não está autorizado a participar de atividades desenvolvidas pela Mafiosa”, diz o texto.
A entidade ainda classifica o episódio como uma “falha institucional grave”.
“A postura foi de conciliação e de sigilo, enquanto deveria ter sido completamente oposta, expondo o fato e confrontando o autor dessas falas imediatamente”, completa a associação.
O que aconteceu
Segundo fontes ligadas a Atléticas da UFG, o então presidente da Mafiosa teria respondido a uma brincadeira de uma colega negra da diretoria, que havia elogiado sua roupa, chamando-a de “macaca”.
A situação teria ocorrido dentro da universidade e estudantes afirmam que havia testemunhas no momento.
O ex-presidente afirmou se tratar de uma brincadeira e disse que, na verdade, queria dizer “burra”. Segundo uma estudante que testemunhou a situação, ele nunca admitiu o erro e a vítima acabou deixando a atlética em decorrência dos conflitos.
Por que o caso veio à tona
Segundo a própria Mafiosa, o episódio ocorreu em setembro de 2025. A reportagem do Diário da Manhã (DM) apurou que o caso só foi tornado público cerca de sete meses depois. Questionada sobre o intervalo entre o fato e a divulgação, a apuração indica que o episódio passou a ser citado em meio a disputas internas envolvendo entidades estudantis da UFG.
A Associação Atlética Acadêmica Rodrigo Costa Sobrinho, conhecida como “Picareta”, do curso de Engenharia Civil da UFG, é citada por interlocutores como tendo associado o caso a um contexto mais amplo de conflitos entre atléticas.
Segundo fontes ouvidos pela reportagem, o episódio também teria sido mencionado em meio a questionamentos sobre a convocação de um atleta acusado de agressão contra a ex-namorada, que possui medida protetiva.

Segundo uma universitária, que preferiu não se identificar, o atleta foi convocado tanto para o “Maior Inter” de 2025 quanto para o Jugs de 2026 (eventos acadêmicos esportivos), apesar do histórico de agressões, que já seria de conhecimento no meio da atlética.
Nas redes sociais, a vítima — que teve a identidade preservada — criticou a convocação:
“Se vocês [atlética de engenharia civil] querem colocar macho que descumpre medida protetiva pra jogar no time de vocês, têm que sustentar e postar no Instagram.
Desativaram a porra dos comentários porque estão com vergonha? Deviam ter mesmo. Bando de hipócritas do caralho”, escreveu no X (antigo Twitter).

Sobre o episódio de 2025, quando o ex-namorado compareceu ao mesmo evento que ela, sob justificativa de participação nos jogos, estudantes relataram que foi necessário acionar a polícia devido ao “inconveniente”.
A reportagem do DM tentou contato com a Associação Atlética Acadêmica Rodrigo Costa Sobrinho, conhecida como “Picareta”, mas não obteve retorno nem localizou canal oficial de comunicação da entidade. O espaço segue aberto para manifestações e esclarecimentos.