Polícia aponta ligação entre família de Marcinho VP e Doca após mensagem interceptada
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 30 de abril de 2026 às 16:11 | Atualizado há 2 meses
Apontado como um dos principais nomes do Comando Vermelho, Doca é considerado foragido pelas autoridades | Foto: Reprodução
Uma mensagem interceptada no aparelho celular da empresária Márcia Garcia, esposa de Marcinho VP, levantou suspeitas de ligação da família com Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, apontado pela polícia como uma das lideranças do Comando Vermelho.

Segundo os investigadores, em uma das conversas analisadas, Márcia solicita que um contato identificado como “Preto” retire 10 mil reais com alguém chamado “DC”. Para a polícia, a sigla seria uma referência direta a Doca.
“Vai no DC. Preciso pagar o cartão. Emprestado. Para mim. Pedir 10”, diz a mensagem atribuída à empresária.
Ainda de acordo com a apuração, “Preto” seria Mauro Nepomuceno, o Oruam, filho de Márcia, que responde à solicitação afirmando: “Vou lá”.
Investigação mira núcleo financeiro ligado ao Comando Vermelho
Marcinho VP, a esposa Márcia e os filhos Oruam e Lucas Santos Nepomuceno, conhecido como Lucca, foram incluídos como alvos de uma nova etapa da Operação Contenção, deflagrada pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes na última quarta-feira (29). A ofensiva tem como objetivo conter a expansão territorial do Comando Vermelho e atingir o braço financeiro da facção.
De acordo com a Polícia Civil do Rio de Janeiro, mesmo cumprindo pena há quase 30 anos, Marcinho continuaria tendo participação na obtenção de recursos ligados ao tráfico de drogas, além de manter influência dentro da estrutura criminosa. As investigações indicam que os valores seriam administrados por familiares, responsáveis também pela movimentação e ocultação do dinheiro.

A delegada Iasminy Vergetti afirmou que o esquema envolveria a lavagem de recursos por meio de diferentes estratégias.
“Ele obtém dinheiro do tráfico e a família faz a gestão desses valores, ocultando a origem por meio de imóveis e atividades comerciais”, disse.
Ação policial, presos e desdobramentos
A operação cumpriu 12 mandados de prisão preventiva expedidos pela 1ª Vara Criminal Especializada em Crime Organizado da Capital. Durante a ação, um homem foi detido. Carlos Alexandre Martins é apontado como operador financeiro da facção e foi localizado no Morro do Adeus, no Complexo do Alemão. Com ele, agentes apreenderam um automóvel e uma motocicleta.
Outros investigados, entre eles Oruam e Márcia, não foram encontrados durante o cumprimento das ordens judiciais. O cantor já era considerado foragido desde fevereiro, após descumprir medidas relacionadas ao uso de tornozeleira eletrônica. Ele também responde a processo por tentativa de homicídio após um episódio envolvendo policiais em frente à sua residência, em 2024.
Márcia havia sido alvo de prisão em março, em outra fase da operação, mas não foi localizada. Recentemente, no entanto, obteve habeas corpus concedido pela Justiça do Rio de Janeiro.
As buscas foram realizadas em diferentes endereços ligados à família, incluindo imóveis na Freguesia, em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste, e em Angra dos Reis, na Costa Verde, além de residências no Recreio dos Bandeirantes. Nenhum dos alvos foi localizado.
A investigação aponta ainda que valores oriundos do tráfico seriam pulverizados em contas de terceiros, com movimentações financeiras incompatíveis com rendas declaradas, o que indicaria tentativa de ocultação da origem ilícita.
Doca segue foragido, enquanto Marcinho VP teve mandado cumprido dentro do presídio de segurança máxima em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.
A defesa de Márcia afirma que as acusações já foram analisadas em investigações anteriores e que sua situação patrimonial teria sido considerada lícita pela Justiça. O advogado Flávio Fernandes sustenta ainda que a cliente não possui antecedentes criminais e exerce atividade profissional regular.
Os procurados pela Operação Contenção no Rio de Janeiro
| Nome | Informações |
|---|---|
| Carlos Alexandre Martins da Silva | Apontado como operador financeiro do CV, está preso. |
| Ederson José Gonçalves Leite | Sam da CDD, chefão do CV, foragido em outros processos |
| Edgar Alves de Andrade | Doca ou Urso, chefão do CV, foragido em outros processos |
| Eduardo Fernandes de Oliveira | 2D, chefão do CV, foragido em outros processos |
| Jeferson Lima Assim | Está sendo procurado. |
| Lucas Santos Nepomuceno | Lucca, irmão de Oruam, está sendo procurado. |
| Luciano Martiniano da Silva | Pezão, chefão do CV, foragido em outros processos. |
| Luiz Paulo Silva de Souza | Apontado como operador financeiro do CV, está sendo procurado. |
| Márcia Gama dos Santos Nepomuceno | Esposa de Marcinho VP e mãe de Lucca e Oruam, está sendo procurada. |
| Márcio dos Santos Nepomuceno | Marcinho VP, chefão do CV, já encarcerado. |
| Mauro Davi dos Santos Nepomuceno | Oruam, foragido em outros processos. |
| Wilton Rabello Quintanilha | Abelha, chefão do CV, foragido em outros processos. |
Investigação aponta esquema financeiro sofisticado
A operação deflagrada na última quarta-feira (29) é resultado de cerca de um ano de investigações, que reuniram dados extraídos de dispositivos eletrônicos apreendidos e análises de cruzamento de informações financeiras.
De acordo com a Delegacia de Repressão a Entorpecentes, foi identificado um sistema estruturado de recebimento, pulverização e reinserção de recursos ilícitos no sistema econômico formal.
Segundo os investigadores, valores obtidos com o tráfico eram repassados por lideranças da facção a operadores financeiros, responsáveis por fragmentar o dinheiro por meio de contas de terceiros. Os recursos também seriam utilizados para pagamento de despesas, aquisição de bens e ocultação patrimonial.
“Os recursos provenientes do tráfico eram distribuídos por lideranças da organização a operadores financeiros, que faziam a pulverização dos valores em diversas contas e utilizavam o dinheiro para despesas e ocultação de patrimônio”, informou a investigação.
Operação Contenção já tem centenas de presos e mortos
A Operação Contenção é uma ofensiva estratégica do governo estadual voltada para frear o avanço territorial do Comando Vermelho (CV). A ação tem como foco principal atingir a estrutura financeira, logística e operacional da organização criminosa, além de prender integrantes que atuam em diferentes regiões.
Até o momento, a operação já resultou na captura de mais de 300 pessoas, além de 136 mortos em confrontos. Também foram apreendidas cerca de 470 armas, entre elas 190 fuzis, e mais de 51 mil munições.