Morre o jornalista Raimundo Pereira, símbolo da resistência à ditadura, aos 85 anos
Léo Carvalho
Publicado em 2 de maio de 2026 às 18:14 | Atualizado há 2 meses
Raimundo Rodrigues Pereira foi um dos principais nomes da imprensa alternativa e da resistência democrática durante a ditadura militar | Foto: Reprodução/X
Morreu neste sábado (2) o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, aos 85 anos. Ele faleceu pela manhã, no Rio de Janeiro, onde morava. O corpo será cremado ainda neste sábado.
Em nota, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) afirmou que o jornalista “deixa um legado que serve como inspiração para vários profissionais” e destacou que sua trajetória se confunde com a história da resistência democrática no Brasil.
Natural de Exu, em Pernambuco, Raimundo Pereira foi um dos principais nomes do jornalismo ligado à resistência à ditadura militar. Embora nunca tenha sido filiado a partidos ou movimentos de esquerda, foi identificado com esse campo ao longo da carreira.
Iniciou a trajetória profissional nos anos 1960, passando pela revista Realidade e pelo jornal O Estado de S. Paulo. Em 1964, foi expulso do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), onde cursava engenharia, e chegou a ser preso por causa de textos publicados no jornal estudantil O Suplemento. Ficou detido inicialmente no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo e, posteriormente, na Base Aérea do Guarujá.
Na década de 1970, passou a atuar na chamada imprensa alternativa, que fazia oposição ao regime militar sem defender o enfrentamento armado. Trabalhou no jornal Opinião e, em 1975, fundou a revista Movimento, que definia como um “jornal sem patrões”, administrado exclusivamente por jornalistas.
A publicação ganhou destaque pela cobertura das greves do ABC Paulista, em 1979, lideradas por Luiz Inácio Lula da Silva, além de reportagens sobre movimentos populares e problemas urbanos. Tornou-se uma das principais vozes de denúncia dos abusos da ditadura e de defesa da democracia.
Por meio da revista, Raimundo Pereira defendeu a anistia ampla, geral e irrestrita aos opositores do regime. A proposta acabou parcialmente frustrada, já que a lei aprovada em 1979 também perdoou crimes cometidos por agentes do Estado.
Com o fim da ditadura, passou a defender a convocação de uma assembleia constituinte “livre e soberana”, formada exclusivamente para elaborar uma nova Constituição. A proposta não prevaleceu: a Constituição de 1988 foi elaborada por parlamentares eleitos.
Já no período democrático, criou o jornal Retratos do Brasil, voltado a reportagens aprofundadas e análises estruturais sobre o país. Nos últimos anos, dedicou-se à Editora Manifesto, pela qual publicou livros sobre temas como a Operação Satiagraha, o Mensalão e o impeachment da presidente Dilma Rousseff, sempre com abordagem crítica aos grandes veículos de imprensa.