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Nelson Rodrigues viu Seleção Brasileira com olhar profético

Redação Online

Publicado em 23 de maio de 2026 às 00:10 | Atualizado há 2 meses

Escritor fez Brasil amar futebol a partir de seus textos - Foto: Arquivo Nacional/ Correio da Manhã
Escritor fez Brasil amar futebol a partir de seus textos - Foto: Arquivo Nacional/ Correio da Manhã

Marcus Vinícius Beck

Começa o siricutico na Barata Ribeiro e bem ali está o jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Vejam: ele vem andando sentido Princesa Isabel. E o escrete, Nelson?

É bom, amigo, você saber: chegou às livrarias o box “As Copas de Nelson Rodrigues”. Três volumes editados pela Nova Fronteira. Cada lance descrito soa tão dramático quanto uma peça de William Shakespeare. O futebol vira prosa. A alma brasileira entra em campo.

Redigidos ao longo de 12 anos, os 150 textos estão reunidos na caixa. Foram necessárias dez colunas por ano, entre 1959 e 1970, e mais dez crônicas sobre a Copa de 1958, 1962, 1966 e 1970. Nos três livros, o escritor narra, jogo a jogo, a história do time como espelho do país. 

Para Caco Coelho, organizador do box, Nelson se dedicou a promover o esporte pátrio. Essa era a sua missão desde que, em 1954, a Seleção Brasileira fora, mais uma vez, derrotada em uma Copa. Quatro anos antes, no Rio de Janeiro, nascera o assustador “Fantasma de 50”.

“Era necessário inflar o ego dos patrícios. Mostrar que aqui se jogava o melhor futebol do mundo, o ‘Futebol Arte’. Ele [Nelson], junto com seu irmão, Mário Filho, o maior promotor dos esportes no Brasil, se articulou para elevação do prestígio do futebol”, explica Caco. 

Em 58, ouviam-se os jogos pelo rádio. Quatro anos depois, em 62, o videotape chegava com dias de atraso, o mesmo ocorreria em 66. Sofrimento absoluto. Só em 70, com aquele timaço, o Brasil enfim veria sua campanha, em cores. E houve honra e graça, beleza e humildade.

Nova Fronteira lança box com crônicas inéditas de Nelson Rodrigues em livro – Foto: Divulgação

Corta. O Rio de Janeiro de 58 era uma loucura. Urrava-se por Copacabana, uivava-se nos bares, declarava-se a Pelé e Garrincha. Alegria ludopédica. E nada — observem — daquele complexo de vira-latas. O brasileiro, ao saber do placar, enlouquecia: Brasil 5, Suécia 2.   

Mas, agora, atenção porque lá vem Pelé, o futuro melhor jogador de todos os tempos, em mais uma jogada assombrosa. É, Nelson, ele não se limita a fazer os gols. Quer enfeitá-los, lustrá-los, como um artista. Deu um chapéu no zagueiro, fulminando o arqueiro sueco. 

Toda essa plasticidade, feita no dia 29 de junho, foi antecipada em maio. Na “Última Hora”, o cronista disse ser possível a glória. “Não houve sequer um instante de dúvida”, lembrou, num texto publicado em julho daquele ano. “O escrete jogou como treinou e agora aí está.”

A essa altura já consagrado como escritor — era dramaturgo prestigiado e cronista lido —, Nelson apreciava ao máximo o escrete. Isso fica evidente durante os textos escalados para o box recém-publicado, como assinala a pesquisadora Janaína Sena, em nota editorial. 

“Ele [Nelson] avança em tabela curta com a história, dribla o destino, finta o complexo de vira-latas e parte para a finalização com frases que entram no ângulo, verdadeiros gols de placa ecoando na memória pátria”, escreve Janaína, evocando as hipérboles rodrigueanas. 

Crônicas perpassam vitórias e fracassos da Seleção 

Em 58, Brasil liberou o povo do trauma de oito anos antes – Foto: Reprodução

Do triunfo de 58 ao tri em 70, as crônicas atravessam fracassos e vitórias. O tom, entre uma derrota e um êxito, é apaixonado. Nelson assim datilografava. Além disso, os textos são inéditos em livro — com um olhar, quase cego, que via no futebol os sentimentos da nação. 

Sabia que Garrincha rira de tudo e de todos no Chile. No jornal “O Globo”, um dia depois da Seleção cravar a segunda estrela no peito, em junho de 62, o profeta das chuteiras relatou o transe coletivo: “O Brasil tem a potencialidade criadora de uma nação de napoleões.” 

Contudo, Nelson se angustiou no percurso da jornada andina: “O Brasil fez no Chile um sofrido futebol, um futebol quase feio, um duro futebol de cara amarrada. Jogávamos para vencer. Amarildo, o dostoievskiano, enfiava-se pela área como um rútilo epiléptico.”

Coitado, mal podia esperar. A Seleção, após o bi, era a favorita na Inglaterra, em 66. No entanto, Pelé foi caçado em campo, vítima de pontapé. Então Mário Filho, no “Jornal dos Sports”, fez o que se imaginava: pôs em dúvida o torneio — do qual Pelé não era benquisto. 

Seleção Brasileira de 1970 encantou o planeta com ‘futebol arte’ – Foto: CBF/ Divulgação

“O caminho a seguir não é mudar o futebol brasileiro, não é imitar o europeu, de futebol grosseiro, na base física”, diagnosticava Mário, cujo raciocínio se assemelhava mais ou menos ao do irmão Nelson. “É voltar a 58 e 62, é formar um time, é ter um escrete.”

Falecido em setembro de 66, aos 58 anos, no Rio, o jornalista não assistiu às “Feras do Saldanha”. Já Nelson, como de costume, alfinetou os idiotas da objetividade, os quais, de acordo com ele, não acreditavam ser possível trazer a Jules Rimet. Todos erraram, claro. 

A pesquisadora Crica Rodrigues, neta do cronista, afirma enxergar na prosa de seu avô a capacidade para encontrar o brilho em cada personagem. Para ela, Nelson trazia o torcedor para próximo do ídolo, criando atmosfera de fantasia e contando a história pelas chuteiras.

É o que ressalta Gérson, o canhotinha de ouro e tricampeão mundial de futebol: “Nelson viveu o futebol por dentro da alma brasileira. Onde nós suávamos, ele pensava. Onde nós corríamos, ele escrevia. Onde nós errávamos, ele compreendia.” Quando não os eternizava.


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