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Atlas da Violência: feminicídio cresce 300% no Brasil

DM Online

Publicado em 26 de maio de 2026 às 11:56 | Atualizado há 2 meses

O Brasil atravessa uma escalada histórica da violência contra mulheres. Dados do Atlas da Violência 2026 apontam que os registros de feminicídio cresceram 300% desde a criação da Lei do Feminicídio, em 2015, enquanto os casos de estupro e violência sexual atingiram níveis recordes no país.

O crescimento de 300% foi identificado a partir da comparação entre os primeiros anos de aplicação da legislação e os registros atuais contabilizados pelos órgãos de segurança pública. Quando o feminicídio passou a ser tipificado como crime hediondo, em 2015, o país registrava pouco mais de 400 casos oficialmente enquadrados nessa categoria. Hoje, os números superam 1,7 mil ocorrências anuais, revelando não apenas maior capacidade de identificação desses crimes pelas autoridades, mas também o agravamento da violência doméstica letal no Brasil.

Antes da lei, assassinatos de mulheres motivados por violência de gênero eram registrados apenas como homicídio comum. A criação da nova tipificação obrigou delegacias e tribunais a enquadrarem mortes cometidas por companheiros, ex-parceiros ou familiares dentro da categoria feminicídio, expondo uma realidade historicamente subnotificada.

O relatório afirma que os homicídios de mulheres dentro das residências seguem em “estabilidade histórica inaceitável”, demonstrando que a violência doméstica permanece elevada mesmo após anos de endurecimento penal e campanhas públicas de conscientização.

Produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o estudo aponta que o país vive um “recrudescimento da cultura misógina”, associado ao avanço de discursos de ódio contra mulheres nas redes sociais e ao fortalecimento de grupos virtuais ligados à chamada cultura “red pill”.

Segundo o documento, adolescentes e jovens passaram a consumir conteúdos que estimulam hostilidade contra mulheres, inferiorização feminina e normalização da violência psicológica e sexual. O relatório afirma que a radicalização masculina no ambiente digital ampliou práticas de assédio, humilhação pública e perseguição virtual contra meninas e mulheres.

A explosão da violência sexual também aparece nos números mais recentes do país. Em 2024, o Brasil registrou 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável. O Atlas mostra que 76,8% das vítimas eram consideradas vulneráveis, principalmente crianças e adolescentes.

Os dados oficiais, no entanto, representam apenas uma parcela da violência real. Estudos citados pelo Atlas estimam que o país registre aproximadamente 822 mil estupros por ano, mas somente 8,5% chegam ao conhecimento da polícia.

O relatório também aponta aumento da violência simbólica contra mulheres dentro das escolas e nas plataformas digitais. Casos de exposição íntima sem consentimento, perseguição online e incentivo ao controle masculino sobre mulheres aparecem como reflexo direto do avanço da misoginia no ambiente virtual.

Outro dado destacado pelo estudo é que mulheres negras seguem como as principais vítimas da violência letal no Brasil. O Atlas afirma que desigualdade racial, vulnerabilidade econômica e dificuldade de acesso à proteção estatal ampliam a exposição dessas mulheres à violência doméstica e aos assassinatos motivados por gênero.

O Atlas da Violência conclui que o Brasil enfrenta uma deterioração estrutural da violência de gênero e alerta que o endurecimento das leis, isoladamente, não foi suficiente para conter o aumento dos crimes contra mulheres.


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