Telerreabilitação no SUS reduz mortalidade e melhora recuperação de pacientes
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 11 de junho de 2026 às 09:44 | Atualizado há 2 horas
Paciente recebe acompanhamento remoto após alta hospitalar em programa de telerreabilitação do SUS | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Uma estratégia de telerreabilitação aplicada em hospitais públicos brasileiros, que envolve cuidados integrados na UTI, na enfermaria e em casa, conseguiu produzir um efeito raro na medicina intensiva: reduzir a mortalidade de pacientes graves e melhorar sua recuperação após a alta hospitalar.
Os resultados foram apresentados nesta quarta-feira (10) em um congresso internacional de terapia intensiva em Belfast, na Irlanda do Norte, e publicados simultaneamente no Jama (Journal of the American Medical Association), uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo.
Em comparação ao cuidado habitual, a estratégia reduziu em 7,6 pontos percentuais a mortalidade de pacientes com insuficiência respiratória aguda submetidos à ventilação mecânica. A taxa caiu de 78,3% para 71,8% em 90 dias.
Coordenado pelo Einstein Hospital Israelita e pelo Hospital Moinhos de Vento por meio do Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde), o estudo acompanhou 1.916 pacientes internados em 20 hospitais públicos de diferentes regiões do país entre 2024 e 2025.
Modelo integrou cuidados na UTI, enfermaria e em casa
O modelo combinou três etapas de cuidado: suporte remoto às equipes das UTIs para acelerar a retirada dos pacientes da ventilação mecânica; avaliação multidisciplinar —com fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas e psicólogos, entre outros profissionais— durante a permanência na enfermaria; e um programa personalizado de reabilitação por teleatendimento durante dois meses após a alta.
“Nosso objetivo inicial era melhorar a qualidade de vida. Não esperávamos um impacto tão expressivo na sobrevivência”, afirma o médico Regis Goulart Rosa, chefe do Serviço de Medicina Interna do Hospital Moinhos de Vento e primeiro autor do estudo.
Segundo ele, há poucas intervenções comprovadamente capazes de alterar desfechos considerados centrais para pacientes críticos, como mortalidade e qualidade de vida.
Os dados mostram que os pacientes acompanhados apresentaram score médio de qualidade de vida 33% superior ao do grupo controle (0,16 contra 0,12). O indicador leva em conta aspectos como mobilidade, autonomia, atividades cotidianas, dor e saúde mental.
Os benefícios também apareceram em indicadores que costumam pressionar o sistema de saúde. O tempo médio de ventilação mecânica caiu de 15,5 para 9,9 dias. Os pacientes acompanhados pela estratégia permaneceram, em média, 4,9 dias a mais vivos e fora do hospital nos três meses seguintes à internação.
Embora a análise econômica ainda esteja em andamento, os pesquisadores dizem acreditar que a intervenção poderá gerar economia para o SUS. “Grande parte da reabilitação foi feita remotamente. Uma equipe centralizada conseguiu atender pacientes de 20 hospitais diferentes, sem exigir contratação adicional nos centros participantes”, afirma Rosa.
Estratégia combate efeitos da síndrome pós-UTI
O estudo foi desenhado para enfrentar um problema cada vez mais reconhecido pela medicina: a síndrome pós-UTI. Mesmo quando sobrevivem, muitos pacientes deixam o hospital com limitações físicas, cognitivas e emocionais que podem persistir por meses ou anos.
Para o médico Adriano Pereira, coordenador da Tele-UTI do Einstein e autor sênior do estudo, um dos principais méritos do projeto foi reconhecer que a recuperação de pacientes críticos não termina quando eles deixam a terapia intensiva.
“A doença de UTI costuma ser vista como um evento agudo, mas para muitos pacientes ela se comporta como uma condição crônica. Quem sobrevive frequentemente convive com sequelas motoras, cognitivas e emocionais que dificultam desde atividades básicas, como se vestir e caminhar, até o retorno ao trabalho”, afirma.
Segundo ele, essas sequelas resultam da combinação entre a gravidade da doença e os efeitos colaterais inevitáveis dos tratamentos intensivos.
“A UTI salva vidas, mas faz isso utilizando intervenções altamente invasivas. Ventilação mecânica, sedação prolongada, imobilidade e outros procedimentos têm consequências que podem persistir muito além da alta hospitalar.”
Reabilitação começou ainda durante a internação
Para tentar reduzir essas sequelas, a intervenção começou ainda na UTI. As equipes foram orientadas a diminuir a exposição à sedação, retirar dispositivos invasivos desnecessários e prevenir episódios de delírio, uma forma de disfunção cerebral aguda comum em pacientes graves.
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Após a saída da terapia intensiva, os pacientes passavam por avaliações individualizadas para identificar comprometimentos físicos, psicológicos, cognitivos e nutricionais. A partir daí, recebiam planos personalizados envolvendo fisioterapeutas, psicólogos, enfermeiros, nutricionistas e fonoaudiólogos. O acompanhamento prosseguia por até oito semanas após a alta.
“Os estudos em terapia intensiva costumam buscar uma solução única para problemas extremamente complexos. A doença crítica é multifatorial. Não existe uma bala de prata capaz de resolver tudo”, afirma Pereira.
A redução do tempo de ventilação mecânica, segundo Pereira, é um exemplo desse raciocínio. “Não conseguimos mudar as doenças crônicas que o paciente já traz quando chega à UTI, mas podemos reduzir os efeitos adversos dos tratamentos invasivos. Quanto menos tempo ele permanece sedado e dependente do ventilador, menores tendem a ser as sequelas posteriores.”
Resultados podem fortalecer políticas públicas de saúde
Para Luisa Frazão, coordenadora-geral de Atenção Hospitalar do Ministério da Saúde, os resultados têm potencial para melhorar a organização da rede assistencial do SUS. “A redução do tempo de ventilação mecânica otimiza o giro de leitos e fortalece a organização da alta programada”, afirma.
A aposta na telemedicina buscou enfrentar uma deficiência histórica do sistema de saúde: a dificuldade de garantir acompanhamento após a alta hospitalar. “Esse é um problema sem dono. Muitas vezes a atenção primária entende que a responsabilidade é do hospital, enquanto o hospital considera que o acompanhamento já deveria estar na rede básica”, diz Rosa.
Segundo os pesquisadores, a tecnologia funcionou menos como substituta de profissionais e mais como ferramenta para conectar etapas da assistência que normalmente operam de forma fragmentada.
Um quarto dos participantes recebeu smartphones fornecidos pelo projeto para garantir acesso às consultas virtuais. “Não queríamos que ninguém ficasse fora do estudo por uma barreira tecnológica”, afirma Pereira.
Outro aspecto destacado pelos autores é o perfil da população estudada. “Grande parte das evidências que usamos na medicina vem da Europa ou da América do Norte. Aqui estamos falando de pacientes brasileiros do SUS, muitos deles em condições de vulnerabilidade que costumam ser sub-representadas em pesquisas”, diz.
Segundo Rosa, cerca de 40% dos participantes apresentavam algum grau de comprometimento cognitivo após a internação, o que exigiu participação ativa dos familiares no processo de recuperação. A expectativa agora é que os dados sirvam de base para futuras decisões do Ministério da Saúde.
Para o coordenador-geral de Atenção Domiciliar do Ministério da Saúde, Tarcísio Aquino, os resultados reforçam o papel estratégico da continuidade do cuidado após a alta. “São fundamentais para qualificar as equipes do Programa Melhor em Casa na gestão do cuidado e na reabilitação de pacientes com fraqueza adquirida na UTI, por exemplo.”
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde. (Cláudia Collucci/FOLHAPRESS)