Coreia do Sul aposta em IA e formação profissional para liderar nova era industrial
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 11 de junho de 2026 às 10:23 | Atualizado há 2 horas
Estudantes sul-coreanos treinam processos industriais com realidade virtual e laboratórios que simulam ambientes de produção de semicondutores | Foto: Gustavo Soares/FOLHAPRESS
A poucos metros de ativações onde crianças coreanas experimentam viver profissões variadas como um idol de k-pop, operador de escavadeira e caixa de supermercado, uma atração chama a atenção pela especificidade.
Nela, usando um headset de realidade virtual, visitantes são transportados para uma versão 3D de uma fábrica de semicondutores. A missão é aprender etapas básicas de um dos processos industriais mais importantes para a economia da Coreia do Sul.
A cena pode ser vista no Korea Job World, centro voltado à orientação profissional de jovens e estudantes, e ajuda a ilustrar a preocupação do país em preparar trabalhadores para uma economia cada vez mais influenciada por inteligência artificial e automação.
Qualificação para sustentar a liderança tecnológica
A preocupação não é gratuita. A Coreia do Sul ocupa posição estratégica em setores no centro da transformação tecnológica global, especialmente a indústria de chips.
Abrigar empresas como Samsung e SK Hynix, duas das protagonistas da atual corrida global por infraestrutura computacional, ajuda a deixar o país na crista da onda desse ciclo de investimentos, mas fatores como envelhecimento populacional, baixa taxa de fecundidade, escassez de mão de obra e crescente concorrência chinesa são desafios.
Nesse cenário, aumentar a qualificação da força de trabalho é parte da estratégia do governo coreano para ampliar os ganhos de produtividade associados à IA, cujo impacto hoje ainda é percebido mais na Bolsa do que na economia real.
Resultados dessa ambição aparecem tanto na feira de carreiras quanto em universidades e centros de pesquisa. Na Sungkyunkwan University (SKKU), por exemplo, um projeto desenvolve currículos voltados à aplicação de IA em diferentes áreas. Já institutos como Koreatech e Kaist, este conhecido como o MIT coreano, investem em pesquisas e treinamento voltados à automação industrial.
Universidades reproduzem ambientes industriais
Na Koreatech (Universidade de Tecnologia e Educação da Coreia), estudantes podem treinar em ambientes que reproduzem condições reais de trabalho utilizando realidade virtual, realidade mista e laboratórios especializados.
Em uma das instalações visitadas pela reportagem, alunos aprendem processos de fabricação de semicondutores em uma sala limpa (“clean room”), ambiente controlado para evitar partículas microscópicas capazes de comprometer a produção dos chips.
A presença desse tipo de infraestrutura em uma universidade chama atenção por reproduzir condições normalmente encontradas apenas em instalações industriais de alta complexidade.
O instituto, que afirma ter um dos melhores índices de empregabilidade do país, também oferece uma plataforma de ensino remoto com cursos especializados em IA e automação que já treinou 116 mil usuários.
Projeto busca viabilizar fábricas autônomas
Já no Kaist (Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia), em Daejeon, a 160 quilômetros ao sul de Seul, pesquisadores desenvolvem um sistema operacional chamado Kairos, criado para coordenar ambientes industriais com alto nível de automatização.
Em uma espécie de fábrica em miniatura localizada no campus, diferentes tipos de robôs se movimentam de forma sincronizada em esteiras, corredores e prateleiras, transportando peças e executando tarefas sem colisões nem interrupções.
O sistema usa IA para monitorar operações em tempo real, coordenar fluxos de trabalho, identificar gargalos e emitir alertas de segurança. Em uma das demonstrações, o software detecta a entrada de um trabalhador em uma área restrita sem equipamentos de proteção e interrompe parte da operação.
Segundo Sungwook Lee, professor do departamento de engenharia industrial da Kaist, testes preliminares apontam ganhos de eficiência de até 20% e redução significativa do número de robôs necessários em determinadas operações.
O objetivo final é viabilizar as chamadas “dark factories”, instalações automatizadas capazes de operar com intervenção humana mínima.
Jinhyeok Park, um dos responsáveis pelo projeto, compara o sistema a um maestro. “A ideia é orquestrar todos os elementos da fábrica”, disse. (Gustavo Soares/FOLHAPRESS)