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‘Leia Esta Canção’ entrega leitor aos delírios da cantora Angela Ro Ro

Redação Online

Publicado em 21 de junho de 2026 às 20:40 | Atualizado há 2 horas

Angela Ro Ro na capa do LP lançado em 1979 - Foto: Marco Rodrigues
Angela Ro Ro na capa do LP lançado em 1979 - Foto: Marco Rodrigues

Marcus Vinícius Beck

Tem todo um ritual. Vitrolada ligada, a agulha repousa na faixa: “Me veja nos seus olhos/ Na minha cara lavada/ Me venha sem saber/ Se sou fogo ou se sou água.” Angela Ro Ro solta a voz rouca, interpretando a lírica de Ana Terra — parceira em “Amor, Meu Grande Amor”. 

Ouça, amigo, é a lassidão de um blues lento. E agora, imerso no amor profundo, entregue-se à paixão, jogue-se ao delírio dos corpos e da noite, encha-se daquele sentimento sublime, o desejo. Como manda a ocasião, abasteça — ou reabasteça — o copo. Nosso mal é a birita. 

“Amor, Meu Grande Amor” ressoa ao fundo. Nas mãos, o livro “Leia esta canção: Angela Ro Ro – Contos, canções, relatos & afins”, que chega às livrarias pela Editora Garoupa. O título, coordenado pela escritora e editora Marina Ruivo, reúne textos de 41 autores brasileiros. 

Em “Angela Ro Ro, o disco”, a cantautora Bárbara Eugênia escreve sobre o LP de 1979. “Ro Ro se despe de tal forma que assusta, de tão real. Todo o desejo, a raiva, o grito, o vômito. Toda aquela ânsia de amar que faz parte do ser humano, e que poucos ousam revelar”, diz.

Cheirando a amor, a artista carioca coloca de lado o tormento. Lamuria-se, entre rabiscos à guitarra, pelo mundo atento a não perdoar os amantes sem fingimentos. Delirantes formas de amar, de sentir. Ro Ro, cheia de verdade e erotismo, tira a roupa do medo e da maldade.

Para Bárbara, a carioca fala na cara, deixando-a arrebatada. “Nessa louca montanha-russa, caio nos braços da (des)ilusão e da esperança”, confessa a autora, na crônica. “Ela quer mais, ela quer ir mais fundo, sempre. No sangue, no suor, no uísque, entorpecida, desbaratinada.”

Amor demais

Paixão nua e quente, fogo a queimar as feridas do conservadorismo e da caretice, melodias a entoar a sístole e a diástole do tesão, porque tudo é calor e endereço. É, Bárbara, quem nunca amou demais? “A Ro Ro que há em mim se emociona ao ouvir-se como um espelho antigo.”

Eis a razão: embriagada. Afinal, como disse o poeta Charles Baudelaire, isso é necessário. O piano, de acento balada bluesy, costura “essa tristeza que o amor me deu”. “É a coisa mais bonita dentro do meu eu”, confidencia a cantora, em “Não Há Cabeça”, a 4ª do LP de 1979.

A historiadora Mery Lemos, fotógrafa que congela o tempo, escava memórias. Em “Leia esta canção”, ela assina o texto “Angela”, no qual reflete acerca do 1º disco de Ro Ro. Segundo a autora, a obra mostra uma voz “intensa e inteira” rasgando a carne e mostrando os ossos. 

“Muito mais do que falar de amor, ele fala sobre coragem. É uma mulher soltando o verbo sem a menor vontade de agradar ninguém, é um desejo tão grande de ser, é uma súplica existencial”, sublinha Mery, graduada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Na crônica, a escritora ainda aponta tratar-se de um disco em que impera o “me deixem, me larguem e me amem”. “Angela Ro Ro”, na definição da historiadora, possui uma “enorme” relevância e a “beleza lúdica” do flerte com a loucura, as drogas e, sobretudo, o amor. 

Agora ouve, amigo, esse blues. Vai te levar por caminhos difíceis, doídos, um frio na costela de quem sabe que “o destino diz verdades ao mentir”. Uma orgástica ilusão. O sax-tenor de Zé Carlos Bigorna, tão amadeirado quanto um uísque, é provocador. “Balada da Arrasada”.

Ensaio recupera formação erudita de Angela Ro Ro

Capa da obra organizada pela escritora e editora Marina Ruivo

No ensaio “Essa era a minha noitada: sair atrás de um piano”, a jornalista mineira Carime Elmor recupera uma entrevista elucidativa de Angela Ro Ro ao programa “O Som do Vinil”, comandado pelo músico Charles Gavin, ex-Titãs. A cantora relembra os estudos de piano erudito entre os 8 e 15 anos. “Tocava peças de Schubert, Chopin e Debussy”, conta a artista. 

Até que duas professoras a repeliram. “[Eram] pessoas importantes dentro do conservatório, e diziam: ‘Angela, não, meu amor. Você não pode nem tirar, nem botar, nem pausa, nem acento, nem muito menos notas’. Eu falei: ‘É?!?! Tô fora. Com quinze anos saí’.” 

Foi para Roma, depois Londres, onde gravou o disco “Transa”, de Caetano Veloso. Toca gaita na faixa “Nostalgia (That’s What Rock’n Roll is All About)”, que fecha o álbum. A carreira, no entanto, decolaria apenas em 1979, quando saiu o bolachão “Angela Ro Ro”. 

Onde queres romance, blues. Na capa, Ro Ro se mostrava bela e angelical com seus olhos azuis de cintilância reforçada pelo cabelo preto a lhe escorrer pelos ombros. Difícil passar alheio a essa mulher sem limite. “Sou uma moça sem recato”, alerta em “Agito e Uso”. 

“Angela Ro Ro dramatizou com deboche sua dor de cotovelo e assumiu, em seu repertório samba-canção, a persona da ‘diva decadente’”, observa Carime, doutora em Artes Visuais pela Universidade de São Paulo (USP) e uma das 41 autoras e autores de “Leia esta canção: Angela Ro Ro – Contos, canções, relatos & afins”. A obra saiu pela Editora Garoupa. 

A artista se despia e dava a cara a tapa, desacatando autoridades e às vezes se dando mal. Foi sequestrada duas vezes, espancada em quatro ocasiões por milícias, grupos que definiu como “delinquentes adultos e, infelizmente, polícia fardada”. “Eu fiquei cega de um olho e surda de um tímpano na base da porrada da polícia militar”, disse à “Revista Plural”. 

“Angela Ro Ro – Contos, canções, relatos & afins” traz textos assinados por escritores como Maria Fernanda Maglio e Santiago Nazarian, além de um ensaio do jornalista e crítico Pedro Alexandre Sanches. O livro, disponível por e-commerce no site da editora, sai a R$ 64,90.


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