Vaticano excomunga Fraternidade São Pio 10º após ordenação sem autorização papal
Fernando Henrique - Estágio DM
Publicado em 2 de julho de 2026 às 09:22 | Atualizado há 3 horas
Vaticano decretou a excomunhão de bispos e integrantes da Fraternidade São Pio 10º após ordenações realizadas sem autorização papal | Foto: Getty/Imagens
O Vaticano declarou nesta quinta-feira (2) a excomunhão de padres e católicos leigos que fazem parte da Fraternidade São Pio 10º, grupo católico dissidente e ultratradicionalista que ordenou quatro novos bispos sem a aprovação do papa Leão 14.
Na véspera da ordenação, o papa fez um último apelo para que a fraternidade desistisse do plano.
Decreto do Vaticano
Em um decreto contundente, o Dicastério para a Doutrina da Fé, a principal autoridade de supervisão da Igreja de 1,4 bilhão de membros, alertou católicos de todo o mundo que a fraternidade, com sede na Suíça, agora celebra os sacramentos de forma ilícita.
O grupo, que nega ensinamentos fundamentais da Igreja, não pode oficiar casamentos nem ouvir confissões de forma válida, afirmou o decreto.
A excomunhão atinge os bispos Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay, respectivamente sagrante principal e co-sagrante da fraternidade, e os recém-consagrados Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier.
Segundo o documento, eles realizaram “um ato de natureza cismática”, ou seja, a “consagração episcopal de quatro presbíteros sem mandato pontifício e contra a vontade do Sumo Pontífice”.
O decreto é assinado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e referendado pelos dois secretários do mesmo Dicastério.
“Trata-se da conclusão, infelizmente anunciada, que chega vinte e quatro horas após a solene cerimônia celebrada em Écône, na Suíça, na manhã de 1º de julho de 2026”, diz texto divulgado pelo Vaticano.
O decreto estabelece que, ao realizar a consagração, eles incorreram na excomunhão prevista pelo direito canônico.
Segundo a decisão, também devem ser excomungados os fiéis leigos que aderem formalmente à fraternidade.
Tentativas de recondução à Igreja
Em nota explicativa, o Dicastério afirmou que ocorreram muitas tentativas de reconduzir os integrantes do movimento fundado em 1970 pelo bispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991) à “plena comunhão com a Igreja Católica”.
“Essa situação agravou-se ainda mais em razão das recentes consagrações episcopais celebradas sem mandato pontifício, contra a vontade do Santo Padre e em manifesta violação do direito canônico”, diz a nota.
A Fraternidade São Pio 10º reúne cerca de 600 mil fiéis. O grupo adota uma interpretação rigorosa da doutrina e da liturgia católicas e rejeita grande parte das mudanças introduzidas após o Concílio Vaticano 2º, nos anos 1960. Também defende um modelo de sociedade patriarcal e um ideal de Estado teocrático.
“A Igreja, como mãe solícita, acolherá com sincero afeto e viva solicitude todos aqueles que desejarem retornar à plena comunhão. Os núncios apostólicos disporão dos procedimentos que os ordinários poderão utilizar nos diversos casos”, afirma o comunicado divulgado nesta quinta.
Cerimônia ocorreu em Écône
A missa de consagração dos novos bispos durou quatro horas, foi celebrada em latim e ocorreu ao ar livre, no mesmo campo de Écône onde Lefebvre consagrou os quatro primeiros bispos da comunidade, em 1988.